Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Chineses voltam a analisar oportunidades de investimento em infraestrutura no Brasil

Projetos de ferrovias, portos e rodovias têm sido avaliados, mas os investidores estão mais seletivos; planos seguem estratégia de garantir o escoamento de produtos para a China ou do país asiático para outros países

Juliana Estigarríbia, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2022 | 10h00

O setor de infraestrutura no Brasil está retornando, gradualmente, ao radar da China, após o baque causado pela covid-19 na economia global. Embora a nova realidade exija uma alocação de recursos mais seletiva, investidores chineses estão voltando a avaliar projetos que incluem ferrovias, portos e até rodovias, conforme apurou o Estadão/Broadcast. Os planos continuam seguindo a estratégia de garantir o escoamento de produtos para a China ou da China para outros países. 

O diretor da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC), Kevin Tang, afirma que a economia chinesa está desacelerando e muitos dos grupos que antes investiam fora da China estão com níveis elevados de endividamento. "No médio prazo, há um grande potencial para a China voltar ao mercado, mas não com a mesma euforia de antes. Os alvos serão muito mais seletivos", diz Tang. 

Segundo o dirigente, um dos principais alvos potenciais de investimentos é a cadeia logística brasileira, não só para garantir o escoamento eficiente de produtos agrícolas e minerais para a China, mas também para melhorar a distribuição de empresas que estão fincando raízes no Brasil, como o Alibaba, dono da gigante do comércio eletrônico AliExpress.

"Com o crescimento do e-commerce, vai aumentar a demanda por centros de distribuição, eficiência dos portos, áreas de cargas das empresas, entre outros", afirma Tang.

Entre 2007 e 2020, os investimentos chineses no Brasil, em geral, somaram US$ 66,1 bilhões, segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Mas em 2020, último dado disponível, esse investimento ficou em US$ 1,9 bilhão, o menor patamar desde 2014, principalmente por conta dos problemas provocados pela covid-19. 

Conforme os dados do CEBC, em valores, os investimentos chineses são concentrados nos setores elétrico (com 48% do total de 2007 a 2020) e petrolífero (com 28% do total). Também são feitos majoritariamente por 16 empresas estatais centrais – diretamente subordinadas ao Conselho de Estado da China – que atuam no Brasil e responderam por 82% dos investimentos acumulados de 2007 a 2020.

Projetos de grande porte

Os alvos no setor de infraestrutura continuam sendo projetos de grande porte envolvendo obras, mas os investidores do país asiático vêm diversificando os projetos. No radar estão oportunidades de investimento em portos do Sul do País, bem como a concessão de rodovias do litoral paulista, do governo de São Paulo. "Os chineses podem entrar na disputa mesmo que para perder. Ou seja, para aprender fazendo", diz uma fonte próxima às negociações.

O setor de ferrovias também está nos planos. Grupos chineses se movimentam para estruturar ramais ferroviários no País, como no Pará, por exemplo. De acordo com uma fonte próxima a esses investidores, "além de considerar fatores usuais de qualquer projeto como risco-retorno, segurança jurídica, financiabilidade, os chineses levam em consideração um componente importante, que é a inserção do projeto no grande plano da China de garantir o seu abastecimento interno".

A reportagem apurou que estão ainda no radar dos chineses projetos de mobilidade urbana, como metrô e monotrilho, além de energia, iluminação pública e petróleo e gás, dentro da estratégia de estabelecer relações econômicas e geopolíticas que facilitem ou barateiem o fluxo de bens, serviços e tecnologias para o desenvolvimento da China.

Novo normal

O sócio do Souto Correa Advogados Guilherme Rizzo Amaral relata que houve uma queda expressiva dos investimentos vindos da China em 2020, em meio à pandemia. No ano passado, contudo, ocorreu uma mudança dessa tendência. "Em 2021, vimos um aumento dos investimentos, o que denota um reaquecimento dos negócios entre os dois países", diz Rizzo, que é membro da comissão instituída pela Corte Internacional de Arbitragem da Câmara de Comércio Internacional para acompanhar a iniciativa Belt and Road, do governo chinês.

Segundo o especialista, é natural que os chineses ampliem a atuação no Brasil, especialmente em setores ligados à construção. "Estes investidores podem entrar como concessionários ou na execução das obras, podendo fazer até os dois papéis. Os chineses estão buscando entender cada vez mais como funcionam as áreas de infraestrutura no País."

No entanto, diante das incertezas em decorrência do ano eleitoral, Tang, do CCIBC, acredita que o investidor chinês pode aguardar as eleições para tomar uma decisão. Mas ele elogia o trabalho feito por alguns ministros como Tarcísio Freitas (Infraestrutura) e Tereza Cristina (Agricultura) para promover a parceria entre Brasil e China.

"O próprio governo brasileiro entendeu que precisa ter uma boa relação com seu maior parceiro de negócios. Se houver uma mudança de governo, a relação entre os dois países pode até ficar melhor, mas a China é muito pragmática, tem olhar de longo prazo", afirma Tang.

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