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Choque de realidade

Juros menores devem aliviar a crise, mas o BC não pode ser visto como salvador da pátria

Fábio Alves, Impresso

30 Novembro 2016 | 05h00

Quando o IBGE divulgar o desempenho da economia brasileira no terceiro trimestre deste ano, com o consenso das estimativas de analistas prevendo uma contração ao redor de 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB), o resultado provavelmente não será uma surpresa para quem acompanhou a piora considerável dos indicadores de atividade ao longo dos últimos três meses.

Todavia, se confirmada a expectativa de tamanho recuo na atividade econômica entre julho e setembro, o que seria a sétima retração consecutiva do PIB trimestral, analistas e investidores não terão mais como escamotear o choque de realidade sobre o estado de saúde do Brasil. Passada a euforia com o governo Michel Temer e a nomeação de uma competente equipe econômica, liderada por Henrique Meirelles (ministro da Fazenda) e Ilan Goldfajn (presidente do Banco Central), não há mais como negar que a recessão brasileira é muito mais profunda e complexa do que se imaginava e que a recuperação poderá ser bem mais lenta e vulnerável a tropeços do que se gostaria.

Nas últimas semanas, o mercado financeiro e o próprio governo vêm piorando as projeções do PIB para 2016 e 2017. Os analistas ouvidos pela pesquisa Focus, do BC, esperam agora uma queda de 3,49% do PIB neste ano e uma expansão de apenas 0,98% em 2017. No auge do otimismo com o governo Temer, a Focus chegou a mostrar uma projeção de recuo de 3,16% neste ano e um crescimento de 1,30% em 2017. Isso foi em boa parte alimentado pela melhora sensível dos índices de confiança de consumidores e empresários. O índice de confiança da indústria, por exemplo, atingiu em setembro o maior nível em mais de dois anos e o do consumidor subiu ao maior patamar desde janeiro de 2015. Essa melhora refletia apenas um otimismo maior em relação ao futuro da economia brasileira sob a gestão Temer, embora o componente dos índices de confiança sobre a situação atual seguia ruim.

Eis que a realidade passou a afetar a expectativa futura e os índices de confiança voltaram a cair. O do consumidor recuou em novembro pela primeira vez desde que Temer assumiu o comando do País no lugar de Dilma Rousseff. Além dos resultados abaixo do esperado dos indicadores de atividade econômica, como vendas no varejo e produção industrial, a crise política que se abateu sobre o governo Temer mina a esperança de uma retomada mais rápida da economia.

O Ministério da Fazenda já reviu para baixo sua expectativa de crescimento do PIB em 2017, de 1,6% para 1%. Até agosto, esperava-se que a melhora na confiança traria de volta os investimentos e, por tabela, um aquecimento do consumo. Para o resultado negativo do terceiro trimestre, a fraqueza da indústria será um dos principais fatores. Depois de ter crescido levemente no segundo trimestre, a produção industrial voltou a recuar entre julho e setembro, ainda sentindo os efeitos de crédito bancário mais restrito e perda de fôlego das exportações. Pelo lado da demanda, os investimentos devem registrar um tombo no terceiro trimestre.

O preocupante, olhando para frente, é que não se vislumbra um catalisador para deflagrar a retomada da economia num ritmo acelerado, quer seja pelo consumo das famílias ou do governo, quer seja pelo investimento ou exportações. Não à toa os olhos se voltam para o Banco Central na esperança de que cortes dos juros básicos possam injetar estímulo suficiente à atividade econômica.

Espera-se uma redução de 0,25 ponto porcentual, para 13,75% ao ano, pelo Comitê de Política Monetária (Copom) hoje. E que esses cortes se acelerem em 2017. Mas quanto a redução dos juros pode fazer diferença na expansão do crédito num momento em que o endividamento de empresas e consumidores já se encontra elevado? Certamente, juros menores devem aliviar a crise, mas o BC não pode ser visto como o salvador da pátria. Enquanto não se aprovarem reformas necessárias, como a da Previdência, o humor em relação ao Brasil dificilmente melhorará.

Juros menores devem aliviar a crise, mas o BC não pode ser visto como salvador da pátria

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