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''''Choque do bem'''' tem os dias contados

Crise nos mercados de crédito aumenta a possibilidade de um ?pouso forçado? da economia americana

Fernando Dantas, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2018 | 00h00

A grande bonança global dos últimos anos pode estar chegando ao fim, com uma desaceleração da economia americana que tem chances de ser muito pior do que o projetado pela quase totalidade dos analistas há apenas 15 dias. Para a maioria deles, a conseqüência principal é que o consumismo desenfreado dos americanos, responsável por 20% da demanda da economia global, ou US$ 10 trilhões por ano, está com os dias contados. Isso não quer dizer, evidentemente, que esse consumo trilionário se reduzirá drasticamente. O que se espera é que não continue a crescer no ritmo exuberante da última década, quando assumiu o papel indiscutível de locomotiva da economia mundial.A principal causa da desaceleração é a violenta contração do crédito, na esteira do temor de perdas financeiras derivadas do mercado hipotecário, que podem atingir centenas de bilhões de dólares. A grande maré positiva da economia global levou o mundo a crescer uma média de 5,2% ao ano de 2004 a 2006, o que é disparado o ritmo mais forte das últimas três décadas. No mesmo período, segundo estatísticas da Organização Mundial do Comércio (OMC), o comércio internacional aumentou a uma média anual de 16%, numa expansão de 56%.Agora, porém, esse cenário espetacular, que foi batizado pelo economista e ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore como o "choque do bem", dá sinais de que está se encerrando. "O choque do bem se esgotou, e aquele presente de Papai Noel para o Brasil, de obter resultados maravilhosos sem nenhum esforço, chegou ao fim."Para Edward Amadeo, responsável pela análise internacional da Gávea Investimentos, "a probabilidade de um pouso forçado da economia americana aumentou, e depende dos desdobramentos dessa crise de crédito, da qual ainda não dá para vislumbrar o fim".No dia 25 de julho, antes de a turbulência começar, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou as projeções de crescimento da economia global e dos países em 2007 e 2008, em relação às previsões de abril da Perspectiva Econômica Global, um relatório bianual. Na revisão de julho, a projeção de crescimento dos Estados Unidos em 2007 foi reduzida de 2,2% para 2%, e a de 2008, mantida em 2,8% (a média anual de 2004 a 2006 foi de 3,5%). A projeção para a economia global, porém, foi corrigida para cima em 0,3 ponto porcentual tanto em 2007 quanto em 2008, ficando em 5,2% nos dois anos.Menos de um mês depois, esses números já parecem excessivamente otimistas. Amadeo observa que as instituições financeiras e os economistas estão evitando fazer novas projeções, porque os desdobramentos e os limites da turbulência ainda são incertos. Mas ele acrescenta que "agora é possível que a economia americana venha a ter dois ou três trimestres de crescimento entre 1% e 2% (em termos anualizados)". Isso poderia significar um crescimento abaixo de 2% em 2007, e, em 2008, algo muito distante dos 2,8% projetados pelo FMI.A freada americana certamente vai desacelerar a economia mundial, mas não existe consenso sobre qual será a intensidade desse efeito. Os menos pessimistas apostam que o bastão do consumo será passado para as economias emergentes, especialmente os gigantes populacionais da Ásia e os BRICs, grupo que inclui Brasil, Rússia, Índia e China. Para Paulo Leme, diretor de Mercados Emergentes do Goldman Sachs, "a retração do consumo privado americano pode ser compensada pelo dinamismo do resto do mundo, em países que têm taxas de crescimento que são o dobro, o triplo ou até mesmo o quádruplo da dos Estados Unidos". Ele observa ainda que, no último mês divulgado, as vendas no varejo no Brasil, Índia, Rússia e China cresceram respectivamente 10,5%, 14,7%, 12,8% e 16,4%. A manutenção desse ritmo de crescimento teria um impacto sobre a economia global de mais de 1 ponto porcentual, o que corresponde a mais do dobro da perda de crescimento americano indicada pelo agravamento da conjuntura financeira até quinta-feira - que seria de 0,5 ponto porcentual, segundo os modelos do Goldman Sachs. Mas o próprio Leme frisa que os efeitos na economia global podem ser piores, porque é preciso incluir a redução do comércio mundial e a possibilidade de que a aversão ao risco e a queda do preço dos ativos financeiros aumente ainda mais. Para Otaviano Canuto, diretor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), "o consumidor asiático poderia pegar o bastão do consumidor americano, mas isso seria uma compensação apenas parcial".Pastore nota que o retorno da volatilidade (oscilação das cotações) dos ativos financeiros para níveis historicamente normais, depois de um período anormalmente estável, significa que os preços de ações, títulos e até commodities devem se ajustar num nível mais baixo (a volatilidade significa risco e reduz preços). E isso, por sua vez, vai afetar a economia brasileira. "Acho que vamos entrar num período de menos festejos sobre o crescimento econômico", prevê.

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