Choques de realidade

Além de não perceber o avassalador sentimento antipetista no segundo turno, o PT fez de tudo para exacerbá-lo ao longo do primeiro

Rogério L. Furquim Werneck*, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2018 | 04h00

A dez dias do segundo turno, o desfecho da eleição presidencial parece cada vez mais nítido. Grosso modo, as pesquisas eleitorais mostram que Fernando Haddad tem quase o dobro dos votos válidos de seu adversário no Nordeste e cerca de metade dos votos de Jair Bolsonaro nas demais regiões. O que o deixa com cerca de 70% dos votos válidos de Bolsonaro no País como um todo. É improvável que, a menos de erros muito graves do candidato do PSL, diferença tão grande possa vir a ser eliminada até dia 28.

Na campanha do primeiro turno, o PT fez o que pôde para poupar o capitão. Concentrou seus ataques nos candidatos de centro. E deixou mais do que claro que preferia ter Bolsonaro como adversário no segundo turno. Acalentava a ideia de que as forças políticas de centro não teriam alternativa a não ser lhe dar apoio no embate que seria travado contra a extrema direita.

Além de não perceber o avassalador sentimento antipetista que teria de enfrentar no segundo turno, o PT fez de tudo para exacerbá-lo ao longo do primeiro. Esticou a corda da candidatura Lula até mais não poder, obrigou Haddad a aceitar um papel grotesco, de abjeta submissão ao ex-presidente, e apostou todas as fichas numa desonesta campanha ilusionista, focada nos segmentos mais carentes e menos informados do eleitorado. Levou ao limite do possível o discurso infantilizado de que Haddad era Lula e de que sua eleição permitiria ao “povo ser feliz de novo”.

Para cumprir à risca o que lhe foi determinado, Haddad teve de insistir na cega negação dos grandes erros do PT. Para enorme irritação de eleitores com um mínimo de discernimento, agarrou-se a uma narrativa mentirosa para tentar omitir do eleitorado menos instruído a parte crucial da história: o povo só deixou de ser feliz porque Lula permitiu que Dilma Rousseff lançasse o País no colossal atoleiro em que está metido, ao cometer o desatino de alçá-la à Presidência da República. Mas, por mentirosa que tenha sido, a artimanha funcionou. Foi o que bastou para levar Haddad ao segundo turno, no bojo de uma sólida votação no Nordeste.

No entanto, o que lhe servia para o primeiro turno passou a ser estorvo no segundo. E Haddad constata, agora, que não adianta cobrir o vermelho com verde-amarelo, trocar a camiseta com Lula Livre por terno e gravata, deixar de bradar que a Justiça brasileira desobedeceu à ONU e extirpar, às pressas, as propostas mais alopradas do seu programa de governo. De tal forma se apequenou e tanto exacerbou o sentimento antipetista que não tem mais como angariar o respeito que seria requerido para aglutinar uma coalizão mais ampla que ainda possa barrar a eleição de Bolsonaro.

Já em boa parte alheio às insanáveis dificuldades da candidatura petista, o País aperta os cintos para se preparar para o impacto da eleição de Bolsonaro. O capitão não quis correr riscos desnecessários. Achou mais prudente desfazer desde já, ainda no segundo turno, rumores de que passara a ser adepto do liberalismo econômico e da responsabilidade fiscal.

Suas manifestações recentes sobre um leque variado de questões relacionadas à política econômica parecem ter sido inspiradas na sua preocupação com a necessidade de tranquilizar seu eleitorado mais tradicional, deixando claro que, ao arrepio do que andam alardeando por aí, são totalmente falsas as notícias de que o candidato teria sido inoculado, de forma irreversível, com um ideário econômico liberal ou com convicções inabaláveis sobre a importância da responsabilidade fiscal.

Muito pelo contrário. As manifestações ofereceram evidência cabal de que Bolsonaro resistiu com grande sucesso ao processo sistemático de inoculação dessas ideias a que foi submetido nos últimos meses. E mostraram, de forma inequívoca, que o candidato continua aferrado às mesmas convicções sobre questões econômicas que pautaram suas quase três décadas de atuação no Congresso Nacional.

Só o incorrigível apego ao autoengano explica que, a esta altura, ainda haja quem insista em descrer dessa evidência.

*ECONOMISTA, DOUTOR PELA UNIVERSIDADE HARVARD, É PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO

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