Christian Hartmann/Reuters
Christian Hartmann/Reuters

Chuteiras de ouro

Os melhores jogadores de futebol do mundo, como o brasileiro Neymar, são mais baratos do que aparentam ser

The Economist, Impresso

14 Agosto 2017 | 05h00

Para os clubes de futebol europeus, agosto costuma ser o mais caro dos meses: é quando seus dirigentes fazem ofertas milionárias para contratar jogadores e reforçar seus planteis. Este ano está sendo particularmente pródigo. No dia 3, o Paris Saint-German (PSG) desembolsou € 222 milhões (US$ 264 milhões) para tirar Neymar do Barcelona, mais que o dobro do valor da mais cara transferência feita até então.

A três semanas do encerramento da janela de transferências, os clubes das cinco maiores ligas europeias, isto é, as divisões principais de Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França, já gastaram € 3,2 bilhões, pouco abaixo do recorde de € 3,4 bilhões registrado no ano passado. Os € 179 milhões que o Manchester City gastou para montar a defesa mais cara da história do futebol superam os orçamentos de defesa de 47 países. Arsène Wenger, técnico que comanda o Arsenal há mais de 20 anos e é formado em economia, diz que o mercado moderno de transferências “está além de qualquer cálculo e racionalidade”.

Neymar custará à dona do PSG, uma subsidiária do fundo soberano do Catar, cerca de € 500 milhões ao longo de cinco anos. Nas bolsas de apostas, sua contratação resultou num aumento apenas discreto da probabilidade de que o clube francês conquiste a Liga dos Campeões, campeonato mais importante da Europa: de 5,5% para 9%. Além disso, o prêmio em dinheiro e a renda de bilheteria do torneio não chegam a gerar receitas suficientes para cobrir o valor a ser desembolsado pelo jogador.

Isso não faz de Neymar um mau investimento. Mais importantes que os gols que o atacante faz são o brilho que ele confere à marca do clube e os patrocínios que atrai. Entre os jogadores de futebol, a remuneração que Neymar obtém com patrocinadores é uma das três mais altas do mundo, ficando atrás apenas dos valores amealhados por Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. Cerca de 59% dos € 520 milhões que o PSG faturou no ano passado provém de receitas comerciais (que excluem as rendas de bilheteria e os valores recebidos por transmissões de TV), proporção maior que a de qualquer outro clube das cinco grandes ligas europeias. Neymar tem mais seguidores no Instagram do que sua patrocinadora Nike, que também é a fornecedora de material esportivo do PSG, privilégio pelo qual a empresa paga € 24 milhões por ano. A popularidade de Neymar ajudará o PSG a renegociar esse contrato. Em outubro do ano passado, a Nike concordou em pagar ao Barcelona € 155 milhões por temporada a partir de 2018.

Os proprietários do PSG têm certeza de que recuperarão o investimento. Mas não terão dificuldades para absorver um eventual prejuízo. O Catar gasta € 420 milhões por semana em preparativos para a Copa do Mundo de 2022. E a contratação de Neymar serve para mostrar que, apesar da crise diplomática com outras nações árabes, o país continua forte e rico. Mas o PSG pode ter problemas para cumprir as regras do “Fair Play Financeiro” da Uefa, que proíbe os clubes europeus de gastar mais do que arrecadam. Em 2014, o PSG foi multado por violar a diretriz. Uma segunda infração pode impedir o clube de disputar a Liga dos Campeões.

O teto de gastos irrita os donos bilionários de alguns clubes, mas ajuda a conter a explosão dos valores praticados no mercado de transferências. A alta acelerada é consequência da expansão da base de torcedores do futebol europeu. Na Premier League inglesa, liga mais rica do futebol mundial, os gastos médios com jogadores por clube permanecem relativamente estáveis, girando em torno de cerca de 15% das receitas desde a década de 90, segundo a 21st Club, consultoria especializada no mercado de futebol.

Enquanto as receitas dos clubes continuarem crescendo, o mesmo deve acontecer com os valores das transferências. As transmissões de TV, com as quais os clubes obtiveram, nos anos 90, sua primeira grande injeção de recursos, tornaram-se na era da internet o componente mais frágil de seu leque de receitas. No Reino Unido, a audiência dos jogos ao vivo está em queda, com alguns torcedores optando por acompanhar as partidas através de sites ilegais de transmissão por streaming ou se contentando em assistir gratuitamente a vídeos com os melhores momentos do jogo. O analista de mídias Zach Fuller acredita que a assinatura de um contrato com um ímã de patrocínios como Neymar serve como proteção contra a volatilidade desse mercado.

Em outras partes do planeta, a audiência das transmissões ao vivo é mais robusta: cerca de 100 milhões de chineses ligam a TV para assistir às partidas mais importantes dos clubes europeus. Apesar de só ter participado duas vezes da Liga dos Campeões nos últimos quatro anos, o Manchester United é o clube mais popular nas redes sociais da China. Os “Diabos Vermelhos” superaram o Real Madrid, que venceu o torneio três vezes no mesmo período. Hoje, os ingleses são o clube mais rico do mundo. Se Neymar abrir novos mercados como abre a defesa dos adversários, o PSG pode ter feito um gol de placa.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM. 

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