Chuvas afastam crise no setor elétrico

Em duas semanas, o setor elétrico brasileiro saiu de um cenário de crise iminente para uma situação de aparente tranqüilidade, resultado das chuvas que caíram nas regiões Sudeste e Centro-Oeste no início do mês. Tamanha volatilidade, na opinião de especialistas, é reflexo da excessiva dependência que o sistema tem das chuvas em uma determinada região, que vai do sul de Minas Gerais ao sul de Goiás e concentra as principais bacias hidrográficas do País. A situação é agravada pela escassez de gás natural.Segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), os reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste fecharam a quinta-feira com 59,8% de sua capacidade de armazenagem de energia, uma recuperação de 9 pontos porcentuais no mês de fevereiro. Em meados de janeiro, diante da estiagem prolongada, chegaram a operar abaixo dos 45%, detonando no governo um plano emergencial para tentar conter o ritmo de queda, com desvio de gás da Petrobrás para térmicas e acionamento de usinas movidas a óleo combustível.O professor Nivalde de Castro, do Grupo de Estudos em Energia Elétrica (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que, por ser fortemente baseado em hidreletricidade, o setor elétrico sempre foi dependente das chuvas. Mas ressalta que a situação vem piorando nos últimos anos e tende a se agravar, pois não há mais espaço para a construção dos grandes reservatórios que ajudaram a movimentar o País nas últimas décadas. ?Com restrições ambientais cada vez maiores, os reservatórios tendem a diminuir, reduzindo a capacidade de armazenagem de energia no sistema?, explica.Ele cita como exemplo o verão de 2007, quando uma hidrologia favorável levou o nível das barragens para perto dos 90%. Em muitos casos, o Operador Nacional do Sistema (ONS) foi obrigado a permitir que usinas liberassem água pelo vertedouro, sem passar pelas turbinas, para evitar alagamentos das margens das represas. Com isso, parte da energia foi desperdiçada por falta de capacidade de armazenagem. ?A capacidade de armazenagem de energia não está crescendo na mesma velocidade que o consumo?, aponta o professor Castro.Quando é possível, parte da água liberada por algumas usinas é utilizada nas unidades geradoras rio abaixo, graças ao desenho do sistema elaborado ainda na década de 50, pelo Plano Nacional de Eletrificação. Nele, foram estabelecidos os parâmetros aplicados em grandes obras de infra-estrutura durante as décadas de 60 e 70, quando o País começou a ser conectado pelo Sistema Interligado Nacional (SIN), que tem no subsistema Sudeste/Centro-Oeste uma grande caixa d?água com capacidade para armazenar 190 mil megawatts (MW) por mês.A partir desse subsistema, o ONS gerencia o nível dos reservatórios das Regiões Nordeste e Sul que, ora podem importar, ora exportar energia para a maior região consumidora. A usina de Tucuruí, no Pará, funciona como uma grande exportadora de energia para as outras regiões, ajudando nesse balanço. A operação é diária e feita a partir de programações mensais e considerando uma curva bianual de segurança, instituída após o racionamento de 2001, chamada Curva de Aversão ao Risco (CAR).Este ano, o nível dos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste chegou a ficar duas semanas abaixo da CAR, que foi aumentada em dezembro face a escassez de gás. Na quinta-feira, segundo o ONS, os reservatórios do subsistema estavam 2 pontos porcentuais acima da CAR para aquele dia, que era de 57,9%.A pequena diferença é usada por especialistas como argumento de que a crise não está afastada. O período de chuvas vai até março e novas precipitações são necessárias para que o sistema enfrente o inverno sem sobressaltos. O ano passado pode ser tomado como exemplo: após um verão com chuvas acima da média, bastou uma estiagem prolongada - aliada à falta de gás - para que a luz amarela fosse acendida.Previsões otimistasEm janeiro, choveu 70% da média histórica do setor. Em fevereiro está chovendo 122% da média, o que contribuiu fortemente para a recuperação dos níveis dos reservatórios. As projeções para as próximas semanas apontam que o ritmo deve se manter. Segundo o ONS, as chuvas devem fechar o mês em 116% da média histórica. Confirmada a previsão, o nível dos reservatórios vai chegar ao fim de fevereiro com 67,4% da capacidade de armazenagem de energia, ou 11,4 pontos porcentuais acima da projeção inicial.Tal cenário garante maior tranqüilidade ao sistema elétrico para 2008, até porque espera-se o aumento da oferta de gás ao longo do ano. No fim de janeiro, o Gasoduto Cabiúnas-Vitória entrou em operação, garantindo combustível para as térmicas Norte-Fluminense e Macaé, da Petrobrás. As usinas a gás, assim como as movidas a carvão e óleo diesel, são usadas para ajudar a poupar água em período de seca. Este ano, vêm contribuindo com a inserção de entre 4 mil MW e 5 mil MW de energia. Com a redução do tamanho dos reservatórios, o papel da energia térmica ganhará mais importância no País. Resta saber se as águas serão suficientes para garantir 2009.

NICOLA PAMPLONA, Agencia Estado

17 de fevereiro de 2008 | 08h50

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