Amir Cohen/Reuters
Amir Cohen/Reuters

Ciberboom ou ciberbolha?

Tradicional exportador de armas, Israel agora vende outro item de segurança: proteção contra ataques de hackers

The Economist

04 de agosto de 2015 | 02h04

Israel exportou menos armas em 2014. Cortes nos orçamentos de defesa de vários países ocidentais fizeram as vendas globais dos sistemas bélicos israelenses cair para US$ 5,7 bilhões - US$ 1 bilhão a menos do que em 2013. Inesperadamente, outro segmento relacionado a segurança ocupou o espaço vazio. Pela primeira vez, o país vendeu mais softwares de cibersegurança do que armas. Segundo dados divulgados recentemente pela força-tarefa em cibernética, do gabinete do primeiro-ministro israelense, em 2014 as empresas do país faturaram cerca de US$ 6 bilhões com softwares destinados a prover segurança na internet, valor que corresponde a aproximadamente 10% do faturamento mundial do segmento.

Grande parte desse resultado foi gerado pela Check Point, mais conhecida pelo antivírus para computadores domésticos ZoneAlarm, mas que também oferece ampla gama de produtos de segurança online para o setor corporativo. No ano passado, as receitas da companhia chegaram a US$ 1,5 bilhão. Além disso, Israel também está produzindo grande quantidade de startups de cibersegurança. Em 2014, oito delas foram vendidas para investidores estrangeiros por um total de US$ 700 milhões. Em setembro, a CyberArk, especializada em proteger empresas contra invasores que se disfarçam de administradores de sistema ou adotam a identidade de algum outro usuário interno, realizou uma das maiores ofertas públicas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês) do ano na Nasdaq. Seu valor de mercado está em torno de US$ 2 bilhões atualmente.

O número de companhias israelenses de cibersegurança dobrou ao longo dos últimos cinco anos. Hoje são 300. A demanda por seus produtos aumentou muito, agora que governos e empresas se deram conta - com frequência da maneira mais dolorosa possível - de que precisam se proteger contra os hackers. E Israel dispõe de um contingente considerável de engenheiros de software experientes, oriundos, em sua maioria, de dois importantes mananciais: em primeiro lugar, os quadros de funcionários dos 280 centros de alta tecnologia mantidos em Israel por multinacionais estrangeiras, de onde saem indivíduos que começam a se lançar em empreendimentos próprios; e, em segundo lugar, as fileiras das forças armadas de Israel, das quais todos os anos são dispensadas centenas de pessoas tecnologicamente capacitadas. Há décadas os militares israelenses vêm desenvolvendo seu arsenal - tanto defensivo quanto ofensivo - para o conflito cibernético, e essa política agora está pagando dividendos.

Perigos. Vários incidentes graves ocorridos nos últimos anos serviram para mostrar que os sistemas de informática são vulneráveis a todo tipo de infiltração, como as que fazem uso de dispositivos móveis ou as que invadem bancos de dados hospedados por terceiros na "nuvem". Antes, havia softwares capazes de detectar variedades conhecidas de vírus, mas a rápida evolução dos malwares levou, entre outras coisas, ao desenvolvimento de softwares que preveem qual pode ser o próximo alvo dos hackers e oferecer proteção contra eles. Algumas das startups israelenses de cibersegurança se estabeleceram como líderes desse mercado.

Apesar disso, há investidores israelenses que receiam que esse boom de startups de segurança informática esteja se tornando uma bolha. "Todo garoto que sai da Unidade 8200 (divisão de operações de inteligência eletrônica das forças armadas de Israel) acha que vai se tornar um cibermilionário. E aí, sem nunca ter feito nada, há startups que mal se constituem e já são avaliadas em US$ 5 milhões", queixa-se um desses investidores, que atua no segmento de capital de risco. "A sensação é que o clima de empolgação está um pouco exagerado", diz Yigal Erlich, um dos pioneiros do segmento em Israel. "É provável que haja limites para o mercado de cibersegurança. Por outro lado, para a tecnologia israelense, é um nicho perfeito, em que as empresas daqui se tornaram líderes mundiais."

Gadi Tirosh, diretor do JVP, fundo de capital de risco sediado em Jerusalém, e presidente da CyberArk, diz que nos últimos dois anos seu fundo avaliou quase 300 projetos de startups na área de informática, mas não acredita que isso indique a formação de uma bolha. "O que estamos vendo é uma evolução extremamente rápida, que teve início quando diretores de segurança do mundo inteiro de repente se deram conta da vulnerabilidade de suas empresas e compreenderam que o ciberataque pode vir de qualquer lugar - até mesmo de dentro da empresa. Esse medo só faz crescer e, no segmento de cibersegurança, medo significa dinheiro." A fim de explorar o potencial da reserva de engenheiros de softwares tecnologicamente experientes - mas muitas vezes financeiramente ingênuos - do país, o JVP criou um campus na cidade de Beer Sheva, no sul de Israel, que funciona como incubadora de startups.

Vantagem. Os principais concorrentes das companhias israelenses estão, como não poderia deixar de ser, no Vale do Silício, onde a cultura das startups, e toda assessoria financeira e empresarial que a acompanha, é muito mais antiga e sólida. Mas o presidente de uma empresa israelense de cibersegurança argumenta que ele e seus colegas têm uma grande vantagem sobre os americanos: o "fator Edward Snowden". Desde que o antigo prestador de serviços da Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês) dos Estados Unidos revelou a extensão da cooperação que as companhias americanas de tecnologia mantêm com a NSA, incluindo a introdução de "portas dos fundos" em seus softwares para permitir ações de vigilância, clientes de todo o mundo passaram a procurar por segurança de fora dos EUA para seus dados, alega o israelense. Apesar da forte proximidade entre as comunidades de inteligência dos Estados Unidos e de Israel e dos vínculos que os empreendedores do segmento israelense de cibersegurança têm com as forças armadas de seu país, o empresário avalia que, em muitos casos, "Israel é a única alternativa". 

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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