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Amanda Perobelli/Reuters - 6/10/2020
Os dados mostram que as grandes sequelas das crises na região persistem por muitos anos, com uma redução longa e expressiva dos índices de emprego formal Amanda Perobelli/Reuters - 6/10/2020

'Cicatriz' da pandemia fará trabalhador pouco qualificado sofrer até 9 anos com salário baixo

Segundo relatório do Banco Mundial sobre o impacto da crise sobre o emprego na América Latina e no Brasil, problema é mais grave para os jovens que estão entrando no mercado de trabalho

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2021 | 10h30

BRASÍLIA - Os trabalhadores pouco qualificados na América Latina podem sofrer até uma década com salários mais baixos e ter sua vida profissional permanente marcada pelas crises econômicas como a da pandemia da covid-19. No caso do Brasil, o impacto sobre o emprego e os salários do trabalhador médio pode perdurar nove anos após o seu início. É o efeito “cicatriz” da crise, de acordo com o relatório do Banco Mundial “Emprego em Crise: Trajetória para Melhores Empregos na América Latina Pós-covid-19”. 

O problema é mais grave para os jovens que estão entrando no mercado de trabalho durante a crise. Trabalhadores altamente qualificados sofrem apenas impactos de curta duração e se recuperam rapidamente aumentando ainda mais a desigualdade no Brasil e na região.

Para o Banco Mundial, a pandemia tem cobrando um preço cruel do mercado de trabalho de toda a região, que vive hoje uma taxa “extraordinária de destruição” de empregos e níveis crescentes de pobreza. Estima-se que a crise provocará a recessão mais severa do mercado de trabalho na história de alguns países.

O relatório, que está sendo divulgado nesta quinta-feira, 20, no Brasil em webinar organizado pelo Banco Mundial, traz novas evidências sobre os efeitos das crises e recomenda políticas para o emprego com respostas mais rápidas para estimular o crescimento econômico inclusivo e de longo prazo.

Os dados mostram que as grandes sequelas das crises na região persistem por muitos anos, com uma redução longa e expressiva dos índices de emprego formal.  Mesmo 20 meses após o início de uma recessão, a taxa geral de empregos continua menor. A taxa de emprego formal, com carteira assinada, continua mais baixa mesmo 30 meses após o início da recessão.

Esse efeito acontece em toda a região, apesar das diferenças nos mercados de trabalho.  A crise contribui ainda mais para a redução das oportunidades de empregos tradicionalmente considerados “bons empregos”. Ou seja, empregos do tipo “padrão”: estáveis, protegidos e associados ao setor formal.

“Quando se trata de empregos, a ideia de uma recuperação econômica após grandes crises é um mito”, avalia Joana Silva, economista sênior do Banco Mundial e uma das autoras do estudo. Ela ressalta que a recessão do covid-19 foi mais dura do que a média e a contração do emprego formal duradouro pode chegar a 4%. “Quem sofre mais são os jovens que têm um azar que dura 10 anos”, afirma. 

Nas crises, diz ela, a trajetória do emprego se desvia de uma forma quase permanente no caminho da informalidade. Quem está ingressando no mercado na crise tem muito mais probabilidade de ser informal, de ter empregos piores e com trajetória salarial diferente dos demais. "Eles levam quase uma década para se recuperar e alguns nunca recuperam mesmo.”

Os trabalhadores mais escolarizados, por outro lado, retomam a trajetória que tinham de emprego e salário em mais ou menos um ou dois anos. A economista destaca que o importante neste momento é pensar em novas políticas para que o trabalhador tenha alternativas e outras oportunidades de emprego.  “Não é só apoiar financeiramente, mas é ligar esse apoio com políticas ajudando a ter esse trampolim com políticas de formação profissional”, afirma.

Segundo ela, um dos problemas mais graves e preocupantes é que há dificuldade de criação vigorosa do emprego no pós-crise na América Latina. Na crise da covid-19, cercada ainda de muita incerteza, esse problema se acentua. É o caso do  Brasil que está observando uma retomada econômica, mas com níveis muito elevados de desemprego.

Para o economista sênior do Banco Mundial para o Brasil, Matteo Morgandi, o relatório revela  a importância de não deixar sozinhas pessoas de baixa qualificação num mundo de trabalho que muda rapidamente e que exige requerimentos profissionais sempre em constante evolução. “Temos que pensar em outras maneiras de seguir formando as pessoas”, diz.

Os resultados sugerem que as crises têm o potencial de empurrar o mercado de trabalho para um novo equilíbrio entre o emprego formal e informal, com consequências de longo prazo para a produtividade e o bem-estar do trabalhador. O impacto de curto prazo das crises sobre o mercado de trabalho é sentido mais fortemente através do desemprego do que da transição para a informalidade.

Estes efeitos da crise têm feito com que as oportunidades tradicionais no setor formal estejam minguando gradualmente. O estudo mostra que, no Brasil, as crises causaram uma redução persistente da produtividade das empresas. Os dados apontam ainda que os empregos em empresas mais protegidas no Brasil, aquelas que enfrentam menos concorrência, são menos afetados pelas crises em comparação aos empregos em empresas menos protegidas.

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Banco Mundial sugere ao Brasil reformular seguro-desemprego para amparar trabalhador informal 

Benefício não alcança quem trabalha sem carteira assinada, justamente os mais atingidos pela crise causada pela pandemia

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2021 | 10h30

BRASÍLIA - O Banco Mundial sugere ao Brasil e a outros países da América Latina uma reforma no programa de seguro-desemprego para se adaptar com mais rapidez às novas condições do mercado de trabalho depois da crise da pandemia da covid-19.

Um dos desafios para a região é a alta informalidade da força de trabalho, que não é coberta pelo seguro-desemprego tradicional. O relatório mostra que a ampliação dos programas de transferência voltados para as necessidades das famílias - e não se o emprego perdido era formal ou informal  - podem ter uma função “estabilizadora”. 

Somente um terço dos países da região tem seguro-desemprego e onde há ele não alcança o trabalho informal (ou seja, sem carteira de trabalho assinada) mais atingido pela crise. “É importante que o seguro-desemprego tenha mais cobertura e seja mais reativo face às crises”, avalia a economista sênior do Banco Mundial Joana Silva, uma das autoras do relatório que avaliou o impacto da crise sobre o emprego na região.

Segundo ela, o Brasil foi um dos países que mais fortemente respondeu com apoio na pandemia. Mas, mesmo numa economia diversificada, como a brasileira, há o problema de que o trabalho informal não está coberto.

No relatório “Emprego em Crise: Trajetória para Melhores Empregos na América Latina Pós-covid-19”, o banco recomenda mais investimento em programas de qualificação profissional para os trabalhadores, sobretudo os informais. E também o fortalecimento das redes de seguridade social da região, fazendo com que alguns desses programas se tornem contingentes e sejam ativados automaticamente quando, por exemplo, a taxa de desemprego ultrapassar determinado limiar. Isso deve ser acompanhado de regras claras sobre a duração, as estratégias de redução gradual de escala e os custos fiscais.

No Brasil, o governo e o Congresso discutem um programa de estímulo ao emprego e à inclusão de trabalhadores jovens no mercado de trabalho. Bancado em parte com recursos do Sistema S, jovens de baixa renda e trabalhadores informais poderão receber um benefício de qualificação profissional de R$ 550 para incentivar a contratação e mitigar os efeitos do impacto da pandemia da covid-19 no mercado de trabalho. O programa foi incluído na medida provisória que recriou o programa que permite às empresas cortarem jornada e salários ou suspender contratos durante a pandemia.

O texto, relatado pelo deputado Christino Áureo (Progressistas-RJ), chegou a entrar na pauta na semana passada, mas a votação foi adiada por falta de acordo, já que prevê uma tesourada em recursos do Sistema S, que tem forte presença no Congresso. O Sistema S é um conjunto de entidades administradas por federais patronais voltadas, principalmente, para o treinamento profissional.

Para o economista sênior do Banco Mundial para a América Latina, Matteo Morgandi, é importante que esse programa seja tratado com um elo com o Sistema S e os desempregados informais. “As avaliações do Sistema S são muito boas, a questão é como encaminhar as pessoas mais vulneráveis para esse tipo de curso”, diz. 

Um dos desafios é que muitas vezes a pessoa não tem os pré-requisitos mínimos para poder aproveitar o curso de qualificação técnica. E, por isso, é preciso garantir antes que essas pessoas ganhem essa habilidade.

Como os jovens são o grupo que mais sofre com desemprego, Morgandi ressalta que é importante viabilizar esse tipo de competência fora do sistema formal da escola. “Uma vez que o jovem deixa a escola, ele terá muito mais dificuldade de aquisição de outras competências se não existe uma política pública para as pessoas adultas”, alerta.

Ao Estadão, o relator diz que há uma necessidade desses mecanismos de qualificação porque a educação fundamental tem um desempenho muito abaixo dos indicadores médios. “É melhor trazer esses jovens para dentro do ambiente das empresas com uma bolsa de qualificação para complementar a educação formal, ensinar algum tipo de prática e ao mesmo tempo uma formação profissional”, diz.

O deputado diz que incluiu no relatório  da MP o programa porque é medida que se conecta o auxílio pago a quem teve o salário reduzido ou o contrato suspenso como uma rampa de acesso ao mercado na fase da retomada . Segundo ele, o debate sobre as fontes de recursos do programa, com recursos do Orçamento, do Sistema S ou do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), será feito nas próximas semanas. 

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