Ciclo de alta deve acabar antes das eleições

A decisão de fazer ajuste mais intenso na taxa Selic neste momento pode evitar que seja preciso aumentar os juros em outubro

Beatriz Abreu / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2010 | 00h00

A decisão do Copom de elevar a taxa Selic em 0,75 ponto porcentual, por unanimidade, demonstrou que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, construiu um consenso de que é melhor um ajuste mais intenso e de curto prazo na taxa de juros para frear a atividade econômica e trazer a inflação para o centro da meta em 2011.

Essa estratégia é política e obedece à orientação do Palácio do Planalto de não ter aumentos dos juros nos dois meses que antecedem às eleições, na expectativa de que a política monetária não contamine o debate eleitoral .

Meirelles apresentou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na quinta-feira passada, o cenário macroeconômico, antes de iniciar uma viagem a Washington para o encontro de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Deixou claro que os indicadores comprovam que a atividade da economia está acelerada e que a inflação não está sendo motivada por "fatores temporários", como avalia o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Previsão de crescimento. O próprio Mantega, depois de resistir, reconheceu que "fatalmente" a inflação será maior este ano, mas que estará no patamar adequado nos próximos 12 meses. Apenas não concorda com a análise de que a alta dos preços não é provocada por fatores pontuais. Ele mantém a leitura de que a economia pode crescer 5,3% este ano, sem pressão inflacionária.

A alta de 0,75 ponto, que jogou a taxa Selic para 9,5% ao ano, foi aprovada pelo Copom, diante da percepção de que a inflação no primeiro quadrimestre veio alta. Portanto, era necessário quebrar a inércia que arrastaria a alta dos preços para os próximos meses.

A diretoria do Banco Central avaliou que, se optasse por uma alta de 0,50 ponto porcentual, o ajuste seria mais longo e o custo final maior ainda.

Argumentos. A tese técnica que sustenta a decisão é a de que correções de meio ponto exigiriam uma alta ainda maior da Selic anual, no fim do processo, para que a inércia fosse quebrada.

A estratégia política desejada pelo Planalto - tudo dependerá da evolução do quadro da atividade econômica nos próximos meses - é a de concentrar as altas da Selic nas próximas reuniões do Copom, encerrando o ciclo de elevação dos juros antes das eleições.

A situação sugere, como disse uma fonte, que o governo já tinha assimilado a alta de 0,75 ponto, que validou a posição majoritária do mercado financeiro. "Já estava previsto, não é?", indagou um assessor.

O que está prevalecendo, neste momento, é a definição da intensidade de alta da Selic para que a trajetória de inflação retorne ao centro da meta.

A aposta é de uma correção entre dois a três pontos porcentuais, se aproximando da própria expectativa do mercado de uma taxa Selic de 11,75% em dezembro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.