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Ciclo de alta do juro será mais intenso e longo do que o previsto, diz Banco Central

Segundo a ata do Copom, a retomada da atividade não será possível no curto prazo

Victor Martins, Célia Froufe e Adriana Fernandes, O Estado de S. Paulo

10 Setembro 2015 | 10h27

BRASÍLIA - O Banco Central indicou que o período de alta dos juros pode ser mais "intenso" e "longo" do que o previsto. Mais eloquente que o normal, o BC deu o recado com todas as letras no parágrafo 24 na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). "Para o Comitê, depois de um período necessário de ajustes, que pode ser mais intenso e mais longo que o antecipado, o ritmo de atividade tende a se intensificar, na medida em que a confiança de firmas e famílias se fortaleça", disse a instituição no documento. Apesar dessa afirmação, a diretoria do BC, no encontro da semana passada, manteve inalterada a taxa de juros (Selic) em 14,25%.

A instituição, ainda neste trecho passou a dar um pouco mais de peso para o que ela classifica de eventos não econômicos. Até a reunião de julho do Copom, a diretoria via esses eventos influenciando uma redução dos investimentos, agora, a instituição destaca que esses fatores têm intensificado o processo que mantém a taxa de atividade doméstica inferior ao potencial. Em meio a esse cenário de economia fraca, a instituição continua a ver o consumo privado com sinais de contração, em linha com recentes dados de crédito, emprego e renda.

Esse trecho também sugere que o BC coloca todas as suas fichas no ajuste macroeconômico em curso e que a instituição vê, com a retomada da confiança das famílias, a volta da expansão econômica. Essa percepção, no entanto, pode ter alguma defasagem por ter ocorrido antes do Brasil perder o grau de investimento, anunciado na noite de ontem (09/09) pela Standard & Poors (S&P), situação que agrava ainda mais o quadro do País. Quando a reunião ocorreu, 02 de setembro, ainda não se sabia que a agência de classificação de risco tomaria essa decisão.

Para o BC, a retomada da atividade, no entanto, não será possível no curto prazo. O Copom entende que as mudanças em curso deixam a composição da demanda agregada mais favorável apenas no médio prazo. A instituição ainda reafirmou que no que se refere ao componente externo da demanda agregada, o cenário de maior crescimento global, combinado com a depreciação do real, deve favorecer o crescimento do País.

Pelo lado da oferta, o BC continua a ver, em prazos mais longos, perspectivas mais favoráveis à competitividade da indústria e da agropecuária. Para o setor de serviços, a instituição continua a ver taxas menores do que as registradas em anos recentes. 

Inflação. O Banco Central informou que sua expectativa para a inflação de 2015 subiu no cenário de referência e segue acima do centro da meta de 4,5%. No caso do cenário de mercado, a projeção da autoridade monetária para este ano também aumentou e segue acima do centro da meta. 

No Relatório Trimestral de Inflação de junho, o BC informou que sua previsão para o IPCA deste ano estava em 9% no cenário de referência e em 9,1% no de mercado. Nesse mesmo documento, a autoridade monetária admitiu que a chance de estouro da meta era de 99%. No Relatório de Mercado Focus da última segunda-feira, a mediana das estimativas dos economistas do setor privado era de que a inflação oficial do País encerrasse este ano em 9,29% ante taxa de 9,25% prevista às vésperas da divulgação da ata anterior. 

O Copom repetiu na ata o parágrafo que traz avaliação sobre o mercado de crédito doméstico. No parágrafo 26, o colegiado destacou que o cenário central contempla expansão moderada do crédito. Segundo os diretores do BC, isso já havia sido observado e tende a persistir. 

Superávit. Em linha com o discurso do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e da presidente Dilma Rousseff, o Banco Central manteve na ata do Copom pouco a premissa de relação de 0,70% para o superávit em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) em 2016 como referência para a trajetória de superávit primário. A manutenção se dá mesmo após a informação de que o orçamento da União do ano que vem será deficitário em R$ 30,5 bilhões,

Com o orçamento deficitário, o governo deixou de lado a meta de superávit fiscal estabelecida para o setor público consolidado no próximo ano e passou a trabalhar com uma previsão de déficit de 0,34%. Isso porque o rombo no orçamento da União equivale a 0,50% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto, ao mesmo tempo, o governo projeta um resultado fiscal positivo de 0,16% do PIB para Estados e municípios.

Dólar. O BC informou que mudou sua premissa para o câmbio de R$ 3,25 para R$ 3,55 pelo cenário de referência. O valor considerado para o dólar está abaixo do valor negociado no dia em que o colegiado decidiu manter a Selic de 14,25% ao ano. Na quarta-feira passada, o dólar à vista fechou em R$ 3,7530, o maior patamar até então desde 12 de dezembro de 2002.

O Banco Central tentava mostrar o lado positivo da depreciação do real ante o dólar. No ata, a diretoria diz que essa depreciação começa a traduzir-se em melhores resultados para o setor externo e para as exportações. Essa ponderação é nova e foi incluída no parágrafo 31.

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