Ciclo de fortalecimento do dólar será 'longo e persistente', diz Pastore

Ex-presidente do BC diz que o crescimento dos EUA é sustentável, o que faz com que o capital flua para a economia norte-americana  

Mariana Sallowicz e Vinicius Neder, Agência Estado

12 de março de 2015 | 16h50

 RIO - A economia mundial passa por um momento de mudança relevante, com início de um ciclo de fortalecimento do dólar "longo e persistente", avalia Affonso Celso Pastore, economista e ex-presidente do Banco Central (BC).

"Estamos assistindo ao começo do ciclo de valorização do dólar. A depreciação aqui (no Brasil) vai ter que ser maior, é uma valorização do dólar em relação a todo mundo", afirmou durante o 1.º Seminário de Política Monetária, realizado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), no Rio.

Pastore destacou que o crescimento econômico dos Estados Unidos "é sustentável", o que faz com que o capital flua para lá. Um dos fatores que beneficia o crescimento econômico dos EUA é a queda dos preços do petróleo, fenômeno que vem ocorrendo desde meados do ano passado. "A tendência dos EUA é continua, com força de crescimento sustentável, acima de Europa e outros", afirmou.

No caso da Europa, o economista vê que as ações do Banco Central Europeu (BCE) tiraram a região da "fragilidade", mas o ajuste está ocorrendo "atrasado". Paralelamente, os EUA estão firmes no crescimento, enquanto outros países, não.  "O resultado é um ciclo de fortalecimento do dólar em relação às demais moedas. É preciso lembrar que ciclos de fortalecimento do dólar ocorreram no passado, todos eles foram longos", disse Pastore.

Em relação ao Brasil, Pastore destacou que o ajuste fiscal "é muito importante e tem que ser feito", mas há a dificuldade de ocorrer com um "governo fraco, com pouco apoio político". "A competência do ministro (da Fazenda, Joaquim Levy) existe (para fazer o ajuste), mas discuto o cenário em que isso se encaixa", ponderou.

Pastore destacou que o Brasil está entrando em recessão, o que faz caírem os investimentos estrangeiros diretos (IED). Nesse quadro, a entrada de investimentos estrangeiros em portfólio é fundamental para cobrir o déficit em conta corrente.

"Há quem ache que é fácil, que o BCE injeta moeda no mundo e ela vem para o Brasil. Viria para o Brasil se o País estivesse com risco baixo, mas o risco está subindo, então, ela vai para os EUA, valorizando o dólar", disse Pastore.Nesse caso, a política econômica deveria deixar o dólar se apreciar ainda mais, como o Levy vem sinalizando. 

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