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Cidade à espera de um sinal

Paulo Frontin (PR) viveu esta semana seus últimos dias sem celular - tecnologia chega à cidade com 20 anos de atraso

FERNANDO SCHELLER / TEXTOS, AYRTON VIGNOLA / FOTOS, PAULO FRONTIN (PR), O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h08

Josimara dos Santos, 22 anos, está desempregada. Culpa da falta de telefone celular. Ela pretendia seguir a estratégia profissional de quatro de seus irmãos mais velhos: deixar a pequena Paulo Frontin, no sul do Paraná, por São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, para trabalhar na fábrica da Volkswagen. Passou nos testes para uma vaga na área de pintura da montadora, com salário inicial de R$ 1,2 mil e direito a benefícios, mas não foi encontrada após a entrevista. Josimara não tem telefone fixo, e a mensagem deixada pelo RH da Volks não foi gravada por sua caixa postal. Incomunicável, acabou perdendo a oportunidade para outro candidato.

Em Paulo Frontin, onde Josimara nasceu e foi criada, os celulares não tocavam até a última quinta-feira. Na segunda-feira, quando a reportagem do Estado visitou a cidade, ela ainda usava o "jeitinho" que adotou há anos para não ficar à margem do resto do mundo. Para fazer uma ligação, foi obrigada a ficar em pé no muro de casa, tentando captar algum tipo de sinal da torre de celular mais próxima, a 8 quilômetros de distância. Conseguiu o sinal da Claro. Para fazer uma chamada, lançou mão da rapidez e habilidade de sempre. Mas sabia que o telefone só pegaria por alguns segundos e na função viva voz. Para a ligação não cair, outra estratégia era evitar movimentos: o simples ato de levar o aparelho da mão à orelha poderia desperdiçar todo o esforço.

Atraso. O caso de Josimara é só um exemplo em uma cidade que se viu quase 20 anos atrasada quando o assunto é telefonia celular - o primeiro celular do País foi introduzido, em fase de testes, em 1990. Em Paulo Frontin, não se vê cenas típicas reproduzidas em quase todos os cantos do planeta. Os adolescentes ainda não trocam mensagens de texto freneticamente. Também não é comum o silêncio das ruas calmas do município de 7 mil habitantes ser interrompido por algum morador conversando em voz alta ao telefone. Mandar um e-mail sem usar computador ainda está fora de questão.

Logo que a reportagem chegou à cidade, uma senhora informou que ainda não havia sinal de celular em Paulo Frontin. "Mas vai ter logo, logo. Se Deus quiser", disse ela, referindo-se a uma torre que estava sendo levantada bem no centro do município, perto da delegacia e do prédio da prefeitura. Muitos frontinenses já tinham telefone celular há bastante tempo, mas só podiam realmente usá-los fora da área urbana de sua cidade natal, durante passeios ou viagens. Na dia a dia frontinense, as funções mais usadas dos aparelhos eram rádio AM/FM, despertador e games.

Paulo Frontin faz parte de uma curta lista de cinco cidades esquecidas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) na definição da universalização do serviço de voz no País, que obriga as operadoras a atender municípios de menos de 30 mil habitantes, cuja operação costuma ser deficitária. A agência reguladora, ao definir metas de atendimento para os mais de 5 mil municípios brasileiros, não incluiu na lista Paulo Frontin, Paula Freitas e Antônio Olinto (todas no Paraná), além de Grossos (RN) e Cristino Castro (PI).

Contagem regressiva. O "furo" da Anatel, que permitiu que as operadoras se fizessem de desentendidas e deixassem de fazer um investimento que não dá retorno financeiro, adiou a chegada da telefonia celular a esses pequenos municípios em pelo menos seis meses (leia acima). Por causa disso, 11 anos século 21 adentro, os moradores de Paulo Frontin ainda aguardavam, na semana passada, a introdução de uma tecnologia que deixou de ser novidade nos anos 90. À medida que a construção da torre avançava, os dias de subir em morros, muros ou cercas para conseguir uma "barrinha" pareciam mais perto de chegar ao fim. Os telefones móveis da cidade, que jamais tocavam, também poderiam passar a receber as primeiras ligações.

A Anatel definiu prazo até 31 de dezembro para que a Vivo, forçada a prestar o serviço em Paulo Frontin, liberasse o sinal para o município. Oficialmente, a operadora prometia adiantar o início do serviço para terça-feira, dia 20. No entanto, com a conclusão da construção da antena, na quarta-feira, a espera acabou mais cedo: desde a última quinta, contaram moradores à reportagem do Estado por telefone, o sinal da companhia já está liberado. Um 15 de dezembro histórico para a população frontinense.

Na última segunda-feira, com as torres em fase final de construção, o clima na cidade era de "euforia controlada". Há anos a população ouvia sobre a chegada do celular. No dia a dia, sempre foram obrigados a se contentar com as "migalhas" que sobravam das torres das cidades vizinhas. Falar alguns segundos no celular exigia exercícios de previsão meteorológica. Segundo moradores, a formação de nuvens de chuva ou a mudança da direção do vento poderiam dificultar ainda mais o ato de falar ao telefone. A estudante de magistério Andrieli Lisboa, 16 anos, tentava usar o celular no gramado em frente à sede da prefeitura. "Tem sinal sim", disse. "Ih, sumiu", completou, segundos depois.

'Cantinho misterioso'. Um dos "jeitinhos" mais consagrados para fazer o celular "pegar" era andar dois quilômetros até o Auto Posto Frontin, que fica bem na entrada da cidade, perto da estrada de acesso ao município, que tem cobertura da Claro. Todos os dias, o frentista João Maria Guimarães da Silva ajudava moradores a encontrar o local certo para conseguir o sinal: um ponto específico, bem no meio do caminho entre a bomba de combustível e o orelhão que ainda estampa a marca da finada operadora Brasil Telecom (hoje Oi). "É o nosso cantinho misterioso", disse João.

O posto de gasolina montou, por causa do "cantinho misterioso", uma estrutura que oferece chips e créditos para celulares. Apesar de a operadora oficial da cidade ser a Vivo, os chips mais vendidos ainda são os da Claro, que atende municípios vizinhos há anos. O comércio de aparelhos móveis cresceu nos dias que precederam o início da operação da Vivo. Na Lojas Pontarollo, rede local de eletrodomésticos que oferece celulares em até 18 prestações, as vendas subiram tanto que o estoque havia acabado. O modelo mais procurado, um Nokia básico, sai por R$ 198. Mas a empresa também já encomendou alguns smartphones, que custarão R$ 570.

Mesmo com a torre da operadora Vivo quase pronta, as constantes promessas não cumpridas sobre o serviço ainda deixavam muita gente desconfiada. Donos de um armarinho no município, Celenir e Celso Dachery decidiram não investir muito dinheiro em aparelhos antes que o sinal chegasse definitivamente a Paulo Frontin. Ultimamente, conta Celenir, eles têm vendido um ou dois celulares por mês - os modelos, com preços que variam de R$ 250 a R$ 399, são trazidos do Paraguai. A comerciante disse que eles comportam mais de um chip e têm até teclado, caso o cliente tenha a pretensão de enviar e-mails para alguém. "Só falta ter como usar."

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