Cidade baiana está sem chuva há 2 anos

Pior seca dos últimos 50 anos atinge cidades como Ichu e Caém, no interior da Bahia, e provoca perdas de até 80% em algumas culturas

TIAGO DÉCIMO / SALVADOR, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2012 | 02h08

O pecuarista Leonardo Oliveira, de 40 anos, conta as horas para a chegada da chuva prevista pela meteorologia na região onde está a fazenda da família, na zona rural do município de Caém, no nordeste baiano, a 333 quilômetros de Salvador. "A previsão é que a estação chuvosa comece nos primeiros dias de novembro", diz. "Só nos resta esperar."

Em Caém, não chove consistentemente há um ano e meio. Em algumas cidades da região, como Ichu, a estiagem já dura dois anos, na pior seca dos últimos 50 anos no centro-norte baiano. Os prejuízos para a pecuária e a agricultura, segundo a Secretaria de Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária do Estado (Seagri), já são contados em bilhões de reais - apesar de não haver um cálculo formal. As perdas chegam a 80% em algumas culturas, como a de mandioca. A produção de sisal teve retração de 60%. A queda na produção de leite é de 30% no Estado.

Oliveira foi um dos poucos criadores de gado da região a não enviar o rebanho a fazendas do sul do Estado, onde outros produtores estão alugando terras abastecidas pela chuva para não permitir a morte precoce dos animais. Sua família confiou que a represa construída no terreno para enfrentar com folga os frequentes problemas de estiagem fosse suficiente para atravessar mais um período de seca.

"O rio (Itapicuru) que abastece a represa secou em julho", conta o pecuarista. "A represa ainda manteve a fazenda em funcionamento até setembro, mas agora secou também. Estamos contratando carros-pipa e comprando palma para hidratar os animais, mas a situação ficou bem crítica, pois eles não têm mais como ser transportados. Só nos resta rezar para que a chuva caia logo."

Na semana passada, começaram as baixas do rebanho, de 130 cabeças. "Já perdemos dez e a maioria está debilitada", conta Oliveira. "Por causa da situação, também tivemos de demitir metade dos trabalhadores, mas temos esperança de recontratá-los quando a situação melhorar."

A situação do gado da fazenda de Oliveira, apesar de grave, pode ser considerada amena quando comparada com a média do nordeste baiano, onde está a chamada região sisaleira, conjunto de 20 cidades nas quais mais da metade da população, de cerca de 500 mil habitantes, mora na zona rural.

Ali, segundo a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb), os prejuízos na produção de feijão, milho e mamona, mais comuns entre pequenos produtores, chegaram a 100%, e a mortalidade dos rebanhos, a 40%. "Os produtores estão vendendo as matrizes (animais reprodutores) para amenizar as perdas", diz o presidente da entidade, João Martins.

Sem meios para enfrentar a longa estiagem, o governo do Estado apela para ações emergenciais, como envio de carros-pipa e distribuição de cestas básicas para amenizar o sofrimento dos produtores rurais.

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