Matt Cardy/Getty Images
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Cidade inglesa usa todos os esforços por nova energia

Piscina inaugurada em 1935 em Cornwall será agora aproveitada para gerar energia geotérmica

Mark Ellwood, The New York Times

17 de outubro de 2019 | 10h00

Nunca foi uma piscina comum. Construída em 1935 para comemorar o aniversário de um rei, a Jubilee Pool está cheia com mais de um milhão de galões de água do mar, o que faz dela uma das maiores piscinas ao ar livre do Reino Unido.

Há cinco anos, porém, esse espaço Art Deco estava em decadência depois de décadas de negligência e uma forte tempestade de inverno que atingiu a costa sudoeste da Inglaterra em 2014.  Agora ela será aproveitada como nova fonte de energia que seus criadores esperam dará nova vida ao condado de Cornwall. No próximo ano, apesar de alguns empecilhos, a piscina deverá estar disponível o ano todo e uma nova usina geotérmica próxima fornecerá eletricidade para uma região que sofre com o declínio econômico.

Cornwall tem uma grande vantagem no tocante à produção de energia alternativa: está situada no topo de uma massa de rochas de granito de 280 milhões de anos conhecida como batólito da Cornualha, geologicamente ideal para produção de energia geotérmica. Ninguém pensava nisso quando a Jubilee Pool foi construída na cidade de Penzance como parte das comemorações do jubileu de prata do rei George V. A piscina abastecida com água do mar equivalente a duas piscinas olímpicas era um recurso promissor para a comunidade. Mas ela se deteriorou no decorrer dos anos e depois dos grandes estragos provocados por uma tempestade em 2014, as autoridades locais tinham dúvidas se valeria a pena salvá-la.

Um grupo de moradores locais impediu sua destruição e propôs assumir a gestão da piscina com a missão de mantê-la a serviço da comunidade como antes.  Uma hoteleira local, Susan Stuart, faz parte da diretoria fundadora do grupo. “Penzance é uma cidade pobre e menos de 40% famílias aqui possuem um carro. Os ônibus são caros. Portanto, para as crianças que podem ir à praia, esta é uma maneira segura de nadar no mar”.

Depois de uma reforma que durou dois anos, a piscina foi reaberta em 2016 e Susan e seus colegas provaram estar certos: o comparecimento do público à piscina aumentou de 26.000 para 40.000 frequentadores durante as 16 semanas de verão.

A solução sob os pés

Esse espaço limitado, contudo, era um enigma. Alimentada pelo mar e limpa pelas ondas, a piscina não é aquecida, o que a torna muito fria para nadar no inverno, o que é uma oportunidade perdida. A solução para isso estava sob os seus pés.

Agora, num pequeno terreno adjacente à piscina, uma perfuração foi feita na rocha sobre a qual a piscina foi construída. A começar do próximo ano, deve gerar energia geotérmica que vai aquecer a piscina no inverno permitindo aos moradores nadar ali em qualquer época do ano.

O projeto, que custará em torno de US$ 2,2 milhões é pago com subvenções e outras fontes de financiamento, incluindo venda de ações para os moradores a US$ 20 cada. As perfurações estão a cargo da Geothermal Engineering, uma startup local que tem grandes ambições para a energia geotérmica.

O batólito da Cornualha é um local ideal para projetos geotérmicos. O granito contém uma pequena quantidade de elementos radioativos, como urânio e tório, que produzem calor à medida que se decompõem. Para capturar esse calor, a água é bombeada de baixo da superfície através das fissuras do batólito. A água absorve o calor da rocha quando flui e é levada de volta à superfície, agora superaquecida e imediatamente se transforma em vapor, que é usado para mover turbinas ou fornecer calor direto.

Cornwall não é o único lugar no mundo com grandes depósitos de granito, mas tem uma vantagem: a rocha ali atinge uma maior profundidade na terra, mas numa extensão ainda rasa o suficiente para viabilizar o acesso.

Fonte alternativa de energia

As primeiras tentativas de exploração da energia geotérmica na região foram realizadas durante as crises do petróleo na década de 70; à medida que os preços dos combustíveis fósseis aumentaram exorbitantemente, também aumentou o interesse em fontes de energia alternativas. Dados iniciais foram positivos, mas o financiamento insuficiente travou os avanços futuros.

Isso mudou há uma década, quando Ryan Law, geólogo, visitou pela primeira vez a região. Ele estava trabalhando para a empresa de projetos de engenharia Arupe que tinha experiência no uso de calor geotérmico para aquecer conjuntos de escritórios e residenciais.

O que Law viu em Cornwall foi algo extraordinário. “Era como se alguém tivesse construído uma usina elétrica embaixo da terra para nós. A única questão - e muito cara – era como aproveitar esse calor”, disse ele.

Law então fundou a Geothermal Engineering. Desde então, conseguiu levantar um financiamento de US$ 22 milhões para a exploração. A companhia deparou com dois desafios: identificar a localização exata para fazer o buraco e depois perfurar mais fundo do que jamais foi tentado no Reino Unido. Pesquisando a região, Law e sua equipe identificaram United Downs, perto da isolada cidade de Redruth, como um local promissor: ali ele instalou uma estrutura geológica conhecida como Porthtowan Fault, que atendia aos parâmetros geológicos.

Em novembro, a companhia iniciou as perfurações de duas colunas, uma delas alcançando uma profundidade recorde no Reino Unido de mais de cinco mil metros. As perfurações foram concluídas neste verão e os equipamentos permaneceram no local até fim de julho.

Law pretende fazer testes no local durante vários meses, com o objetivo de começar a construir a primeira usina geotérmica da Cornualha. Ele espera concluir o trabalho em um ano. A turbina central ficará alojada num prédio pouco maior do que uma casa para uma única pessoa; trabalhando sem interrupção, a usina deverá produzir energia sem nenhum dióxido de carbono e gerar três megawatts de eletricidade por dia – o suficiente para abastecer três mil lares.

Mas nem tudo é fácil. A exploração da Geothermal é cara em relação às perfurações de petróleo e gás e leva tempo identificar locais como o Porthtowan Fault. E o retorno de curto prazo também demora mais. E bombear água do granito pode provocar terremotos de intensidade baixa, o que é um desafio para os engenheiros geotérmicos. Segundo Law, a solução é escolher o local certo, onde a rocha será submetida a menos pressão quando a água passar por ela.

Outros imprevistos podem ocorrer, como no caso da Jubilee Pool. Quando o equipamento de perfuração foi acionado ele atingiu uma quantidade enorme e inesperada de água quente numa fratura da rocha, o que impediu a continuação do trabalho. Aquilo significava que o buraco era muito raso para aquecer a piscina e seria necessário suplementar com uma bomba de aquecimento alimentada pela rede elétrica existente que teria de ser aprimorada.

Tudo isso atrasou as operações de reforma da piscina para ser adaptada a todos os climas. Os organizadores esperam que tudo esteja pronto no próximo ano. “Isso é muito mais empírico e experimental, como jamais foi feito antes”, afirmou Susan Stuart. Mas estudos de viabilidade da piscina sugerem que o aquecimento trará três mil visitantes a mais durante os meses não de verão. “O turismo de inverno é uma primeira experiência para Penzance e a economia local. “Em termos de receita pode ser um elemento de transformação da cidade”. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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