Cidade sai à caça de trabalhadores

Em Guaíba (RS), operação de busca vai de porta em porta procurando candidatos

ELDER OGLIARI / PORTO ALEGRE, RAMIRO FURQUIM / FOTOS, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2013 | 02h03

Maior investimento privado da história do Rio Grande do Sul, a ampliação da fábrica da CMPC Celulose Riograndense, em Guaíba, deflagrou uma operação de busca de trabalhadores de porta em porta em municípios da região metropolitana de Porto Alegre. O objetivo da empresa, prefeitura e do governo do Estado é preencher as estimadas 7 mil vagas diretas da fase de execução da obra, até 2015, as 1,2 mil da própria indústria, a partir de 2015, e as 17 mil indiretas ao longo de todas as etapas com mão de obra local aproveitando os cursos de capacitação oferecidos pelo governo federal.

O número de inscritos chegou a cinco mil na semana passada e pode dobrar até o final de setembro. Quem não for contratado poderá ser requisitado por outras empresas, de qualquer ramo, posteriormente, às quais o cadastro será liberado.

Denominada "busca ativa", a procura por trabalhadores já passou por Guaíba, Viamão, São Leopoldo, Canoas, Sapucaia do Sul, Porto Alegre, Alvorada, Novo Hamburgo e Gravataí e vai a Cachoeirinha e Charqueadas na última semana de agosto. Depois, em setembro, percorre outros municípios.

Para atrair os possíveis interessados, agentes das secretarias municipais de assistência social costumam avisar da disponibilidade dos empregos a beneficiários do Bolsa Família e moradores da área onde atuam, inclusive entregando panfletos nas casas.

Por carro de som e avisos em emissoras de rádio locais, os interessados são informados do dia e local do cadastramento no município. Na data prevista, um ônibus passa nos bairros e transporta os candidatos até o local da inscrição, feita em unidades móveis do Sistema Nacional de Emprego (Sine), e de volta ao ponto de partida.

Com base nos dados do cadastro, as empresas que farão a obra da Celulose Riograndense contratam seus empregados. Os pedreiros, armadores de ferragem, carpinteiros, pintores, técnicos das áreas hidráulica e elétrica e serventes em geral, entre outros, recebem salário médio de R$ 1,2 mil, transporte, alimentação e plano de saúde.

Em todas as etapas, do contato com o público do Bolsa Família à recepção de inscrições, os agentes das secretarias municipais de Assistência Social e estadual do Trabalho e Desenvolvimento Social oferecem os cursos de qualificação do Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego), Planseq (Plano Setorial de Qualificação Profissional) e Projovem Trabalhador. Grande parte dos cursos é oferecida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

O investimento de R$ 4,6 bilhões do grupo chileno CMPC e mais R$ 400 milhões de seus fornecedores vai elevar a capacidade de produção da Celulose Riograndense das atuais 450 mil toneladas por ano para 1,8 milhão de toneladas por ano. A decisão de buscar e capacitar trabalhadores locais foi tomada em conjunto pelos agentes envolvidos, sob diferentes justificativas.

Benefícios. "Temos 30 mil vagas disponíveis e 125 mil desempregados na Região Metropolitana e devemos tentar juntar essas duas partes", diz o secretário estadual do Trabalho e Desenvolvimento Social, Luís Augusto Lara. "Nesse sistema não há necessidade de construção de grandes alojamentos, nem pressão sobre os serviços locais e a capacitação de trabalhadores beneficia todo o mercado empresarial", comenta o coordenador de relações com partes interessadas da CMPC Celulose Riograndense Claudio Ayres Moura.

"Estamos nos preparando para o impacto na cidade", revela o prefeito Henrique Tavares (PTB), citando a construção de duas novas unidades básicas de saúde, cinco creches, uma delegacia de polícia e negociação para uma nova gestão de duas estruturas hospitalares, ao mesmo tempo em que admite que os serviços de saúde e educação do município não dariam conta se houvesse uma invasão de forasteiros.

Como os trabalhadores continuarão morando em suas casas, em municípios próximos, as empresas envolvidas na construção vão disponibilizar transporte e alimentação, reduzindo a pressão sobre os serviços locais.

Mesmo assim, os 95 mil habitantes do município localizado a 26 quilômetros de Porto Alegre, na margem oeste do lago Guaíba, vão conviver com muito movimento nos próximos anos. Cálculos da empresa indicam que em momentos de pico circularão até dez mil pessoas no canteiro de obra.

Desemprego. Apesar de estar com as mais baixas taxas de desemprego da história, inferiores a 7% desde outubro do ano passado, segundo pesquisa elaborada mensalmente pela Fundação de Economia e Estatística(FEE), Dieese, FGTAS e Seade, a região metropolitana de Porto Alegre ainda não vive uma situação de pleno emprego. Não é certo que as 125 mil pessoas sem ocupação detectadas pelo mesmo levantamento venham a preencher as 30 mil vagas disponíveis citadas por Lara. "Há fatores como baixa qualificação, salários e mobilidade que podem inibir o atendimento da oferta", observa Ana Paula Sperotto, técnica do Dieese.

Eventualmente, o salário oferecido e a necessidade de longas viagens diárias não compensam os deslocamentos.

A expectativa, no entanto, é que a busca ativa venha a aproximar os números. O secretário diz que, depois da celulose, a ação vai se voltar para outros setores, como supermercadista, couro e calçados, metalomecânico, naval e termoelétrico, todos com demanda por trabalhadores.

Desafio.

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