Cidade vive crescimento explosivo após mineradora

Até 2000, Canaã dos Carajás era um lugarejo desconhecido; chegada da Vale em 2004 mudou a história, e em 2011 PIB já havia crescido 10.679%

CANAÃ DOS CARAJÁS (PA), O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2014 | 02h06

De um lado da Rodovia PA-160, que dá acesso à pequena Canaã dos Carajás, no sudoeste do Pará, um estande de vendas dá sinais de que o progresso chegou na cidade. Lotes de bairros planejados, com 300 metros quadrados, são vendidos por R$ 89 mil, em 180 parcelas. Dos 200 terrenos postos à venda há apenas uma semana, só restavam oito disponíveis. Na outra margem da estrada, no entanto, o outdoor alertava para outro reflexo do crescimento: "Abuso sexual é crime. Denuncie". Trata-se de uma campanha para reduzir os altos índices de estupro e de pedofilia no município.

Batizada com nome de origem bíblica (70% da população local é evangélica), que significa Terra Prometida, Canaã dos Carajás era um lugarejo desconhecido no mapa do Brasil até o início dos anos 2000. Sua história, no entanto, ganhou nova narrativa com a chegada da Vale e a instalação da Mina de Cobre de Sossego, em 2004. O empreendimento foi o grande responsável pelo elevado crescimento econômico da cidade. Até 2000, o Produto Interno Bruto (PIB) do município não passava de R$ 28 milhões. Em 2011, já havia crescido 10.679% e alcançado R$ 2,9 bilhões. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no mesmo período o PIB do Pará avançou 363% e o do Brasil, 251%.

O crescimento colocou a cidade em terceiro lugar no ranking estadual do Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM). Entre 2000 e 2011, o município saiu do patamar de baixo desenvolvimento para um nível de desenvolvimento moderado. Hoje, aos 19 anos, Canaã dos Carajás abriga o maior empreendimento da indústria mundial de minério de ferro (o S11D, de US$ 19,67 bilhões, da Vale) e sonha em absorver parte de toda riqueza mineral de seu território para o bem-estar da população.

O sonho, no entanto, já extrapolou os limites do município. Em pouco tempo, a fama de província mineral ganhou outros Estados e atraiu milhares de migrantes de várias partes do Brasil. Até o ano passado, a estimativa do IBGE era de que, entre 2000 e 2013, 20 mil pessoas haviam se mudado para a "Terra Prometida" em busca de riqueza. Mas o prefeito de Canaã dos Carajás, Jeová Gonçalves de Andrade (PMDB), diz que esse número está defasado. "Na prática, deve haver umas 50 mil pessoas na cidade", diz ele, reclamando que a infraestrutura do município não comporta tamanho inchaço populacional.

Apesar da riqueza em seu solo, crescimento do PIB e arrecadação maior, Canaã dos Carajás mantém várias características de outras localidades do Pará: apenas 20% da cidade têm água tratada, esgoto e rua pavimentada - isso porque a Vale investiu cerca de R$ 100 milhões na infraestrutura local. A prefeitura promete elevar para 55% o total de ruas asfaltadas até dezembro.

Na educação, o cenário não é diferente. Para dar conta de toda demanda, foi preciso criar turnos intermediários no meio do dia, o que não é o ideal, diz o prefeito. "Nossa meta é acabar com esses turnos e construir mais três escolas para atender todas as crianças."

Segundo ele, apesar de a receita ter aumentado, a demanda explodiu com a chegada de novos moradores. O avanço da receita própria do município, especialmente de ISS pago pelos prestadores de serviços da Vale, cresceu 293% entre 2005 e 2013, para R$ 72 milhões. A receita total alcançou R$ 189 milhões, incluindo os royalties da mineração, que deverão aumentar com a operação do S11D, em 2016.

Povo pobre. Mas muitos moradores não estão contentes com o retorno do empreendimento. "É uma cidade rica com um povo pobre", afirma Anderson Mendes, presidente da Associação Comercial, Industrial e Agropastoril de Canaã dos Carajás (Aciacca). Segundo ele, parte do comércio não vai bem. Com o aumento da população, o número de estabelecimentos comerciais também cresceu. Em três anos, por exemplo, a quantidade de farmácias subiu de 15 para 50 e a de lojas de material de construção, de 4 para 60. O grande problema, diz ele, é que o dinheiro não está circulando na cidade. Como os funcionários das construtoras que estão levantando o projeto são de fora do município e ficam em alojamentos, o dinheiro é enviado para suas cidades de origem.

Outra reclamação é que o sistema bancário não funciona bem. Às 6 horas já tem gente na fila aguardando a abertura do banco. Em dias de pagamento, os moradores chegam a esperar quatro horas para ser atendido. E, muitas vezes, o dinheiro não é suficiente para todos, diz Mendes. "Os moradores acabam indo para Parauapebas usar os bancos de lá. O problema é que aí gastam tudo no shopping."

Para a dona do bar e restaurante Premier, Uelma Lima, o alto custo de vida da cidade é o grande desafio para os empresários. Depois de morar na Europa por um tempo, ela foi incentivada pelo tio a abrir um estabelecimento em Canaã dos Carajás. Uelma está na cidade há dois anos e já pensa se conseguirá manter o restaurante aberto por mais tempo. "Só de aluguel pago R$ 6 mil. É difícil conseguir manter o negócio." Segundo ela, várias lojas abertas na Avenida Weyne Cavalcante já fecharam as portas por falta de demanda.

Os empresários do ramo imobiliário e da construção civil vivem situação contrária. Na mesma avenida do restaurante de Uelma, Edison de Morais não tem do que reclamar da loja de materiais de construção. Natural de Goiás, ele está há dois anos na cidade. "A concorrência é alta e a margem de lucro pequena. Mas tenho vendido bastante." No caso de Roberto Andrade, do grupo Moreira Empreendimentos Imobiliários, a margem de lucro é bem alta. A empresa já vendeu 5 mil lotes e prepara outros 1,2 mil para comercialização a partir de 15 de julho e 1 mil para 2015.

Ele conta que, no início, lotes acima de 360 m² eram vendidos por apenas R$ 3 mil. "Hoje não sai por menos de R$ 60 mil." E, mesmo assim, alguns residenciais de até 450 lotes são vendidos em apenas uma hora, com direito a briga entre os compradores. "A fila de espera tem mais 2 mil clientes", diz Andrade, um mineiro de Patos de Minas. "Apesar da distribuição de renda estar muito aquém, há um espaço enorme para crescer. Afinal, temos a maior jazida de ferro do planeta."

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