Nadia Shira Cohen/NYT
Nadia Shira Cohen/NYT

Cidades da Toscana estudam fusão

Para economizar, as pequenas Montalcino e San Giovanni d’Asso podem virar uma só

Gaia Pianigiani, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2016 | 05h00

Duas cidadezinhas do sudeste da Toscana, uma famosa pelo vinho tinto, a outra pelas trufas e os grãos orgânicos, estão pensando em um casamento municipal de conveniência que pode confundir suas identidades, tão distintas e preservadas, formadas separadamente ao longo dos séculos.

Com população de apenas 853 habitantes, San Giovanni d’Asso não pode mais prover serviços básicos para seus cidadãos em escala diária; com três funcionários para fazer todo o trabalho, algo simples como um reconhecimento de firma exige agendamento com dias de antecedência.

Por isso, em um dia de 2014, o prefeito Fabio Braconi resolveu pegar o telefone e pedir ajuda para a vizinha Montalcino, 16 km, do lado de lá das plantações de trigo.

Terra natal do famoso tinto Brunello, a cidade é mais próspera e consideravelmente maior, mas conforme a população de 5.070 habitantes vai se reduzindo, é provável que acabe também enfrentando problemas burocráticos.

Assim, San Giovanni d’Asso e Montalcino estão pensando em desaparecer legalmente para se fundirem e criarem uma terceira cidade, novinha em folha. É a mesma escolha que outras aldeias estão enfrentando ao redor do país. Há anos a Itália, composta de núcleos minúsculos, médios e grandes, vem tentando convencer as comunidades menores a unir forças.

Para diminuir as despesas, o governo federal pede que os centros com menos de 5 mil pessoas compartilhem serviços com as comunidades vizinhas ou se fundam para criar uma cidade só – e estão impedidos de contratar novos empregados até que levem a medida a cabo. Para encorajá-las ainda mais, o governo do primeiro-ministro Matteo Renzi aprovou uma lei, em 2014, oferecendo incentivos econômicos e simplificando os procedimentos de contratação daqueles municípios que concordarem com a iniciativa.

Embora muitos se entusiasmem com a perspectiva da melhoria nos serviços, diversas comunidades também se preocupam com a perda da identidade local, sentimento que é crucial para muitos italianos, especialmente no interior da Toscana, onde a paisagem muitas vezes ainda se assemelha àquela da Idade Média.

“Não me interprete mal, sou muito ligado ao meu brasão”, diz Braconi, referindo-se ao emblema da cidade, sentado em seu gabinete, instalado em um castelo do século 12 que dá para as colinas cobertas de trigo. “Mas eu sabia que precisávamos de um projeto mais radical, que permitisse à cidade oferecer serviços administrativos todos os dias da semana”.

San Giovanni d’Asso já tentou compartilhar a força policial e o transporte público com outras aldeias – e quando o acordo perdeu a graça para os parceiros e expirou, em 2014, a vila voltou a se sentir isolada, com uma população em declínio e menos servidores públicos.

Durante décadas a comunidade rural foi perdendo moradores, escolas e serviços de saúde e transporte, conforme as pessoas iam se mudando para centros maiores. O que não significa que não tenha um patrimônio considerável. Ainda conta com recursos agrícolas invejáveis – trufas, uvas, azeite e uma grande produção de grãos orgânicos – e um turismo em fase de ascensão, com 38,9 mil visitantes em 2015. “Precisamos construir o futuro aqui, senão nossos jovens vão nos deixar. Não dá para ficar olhando para o passado”, afirma Braconi, que tem uma filha de 20 e poucos anos.

Para discutir a possível fusão, o prefeito se reuniu várias vezes com o colega de Montalcino, Silvio Franceschelli, e ambos se encontraram com o governo regional toscano e com moradores.

Referendo. As comunidades votarão no referendo, em outubro, para dizer se aprovam a medida ou não. Montalcino conseguiu fazer valer duas exigências: que a nova cidade continue usando seu brasão e seu nome, ligado ao famoso vinho. Se a proposta for aprovada, como ambos os líderes esperam, Montalcino e San Giovanni d’Asso compartilharão escolas, policiais e agências de correio, além de serviços de saúde, pouco mais de 110 km de estradas municipais e 44 funcionários.

Os governantes esperam que a fusão convença os turistas de verão – que viajam a Montalcino para provar o vinho Brunello – a visitarem a cidade também no inverno, quando é época da prestigiada trufa de San Giovanni d’Asso e a população organiza feiras e eventos de degustação.

“É claro que queremos vender nossos vinhos, mas nossa intenção é promover essa área como um todo. É por isso que gostamos da ideia de ter um distrito maior, que ofereça produtos orgânicos”, explica Tommaso Cortonesi, vice-presidente do consórcio dos produtores do Brunello em Montalcino.

Franceschelli descreve a provável fusão como ato de determinação. “Alguns cidadãos me perguntam se vamos perder a independência; para mim, ela está na ação. Temos condições de tomar decisões e investimentos ou não? Devemos esperar o governo um dia nos forçar a fazer a fusão com outra cidade? Não é melhor podermos escolher com quem nos fundirmos?”, questiona.

Os moradores de Montalcino e San Giovanni d’Asso terão de decidir logo se é melhor se manterem separados ou unir forças.

“Ouço alguns moradores mais velhos, que não gostam da ideia da fusão com Montalcino, reclamando da perda de alguns poderes, mas encaro a coisa de forma positiva”, diz Paola Cerretani, 60 anos, moradora de San Giovanni d’Asso que tinha de percorrer quase 50 km de carro, todo dia, para ir trabalhar, só porque não queria deixar sua cidade natal. “Montalcino nos dará mais visibilidade. Tenho mais medo da outra opção, ou seja, de um dia acabarmos desaparecendo”.

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