Guilherme Augusto Mikethor
Região da Serra do Caracol; pedidos de exploração de potássio preocupam a população local, que depende do turismo Guilherme Augusto Mikethor

No interior de MG, cidades temem impacto de mineração sobre o turismo

Moradores e prefeitos de áreas afetadas temem que exploração de potássio degrade o meio ambiente e prejudique os negócios

André Borges, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2022 | 05h00

BRASÍLIA – A instalação de grandes projetos minerários tem preocupado a população em diversos municípios do País, seja do potássio para produção de fertilizante ou mesmo de outros minérios encontrados nessas mesmas regiões. Neste ano, a cidade mineira de Andradas, município de 40 mil habitantes, foi alvo de dois pedidos para exploração de potássio. 

Diferentemente do que ocorre na região da Amazônia, onde o potássio é encontrado em áreas profundas de 800 metros, nessa região de Minas Gerais as rochas com potássio estão na superfície, ou seja, são necessárias aberturas de cavas amplas. A população da cidade, que já é base de exploração de minérios como a bauxita, reagiu e foi para as ruas protestar contra a ampliação da mineração em seu território.

Na internet, foi criada uma petição online que soma 4,2 mil assinaturas contrárias às minerações no entorno de áreas de preservação ambiental e forte visitação turística, como a Serra do Caracol, Serra do Pau D'Alho, Pico do Gavião e o Caminho da Fé, a mais conhecida trilha de peregrinação do País, já percorrida por 72 mil pessoas.

Camila Bassi Teixeira, gestora executiva do Caminho da Fé, diz que, apesar de projetos minerários não estarem dentro de áreas já protegidas por tombamento paisagístico, com a Serra do Caracol, não há clareza sobre os pontos específicos que as empresas querem explorar e que, paralelamente, o tipo de mineração trará uma série de impactos às atividades de turismo, por comprometer o clima local, o tipo de tráfego e das atividades nestas cidades. “O risco é que o Caminho da Fé, por exemplo, perca parte de seu trajeto e tenha que deixar a cidade. Com isso, perde a população, os empreendedores, o prejuízo é enorme.”

A prefeita de Andradas, Margot Pioli, divide as preocupações. “Assim como toda a população, estamos bastante preocupados com os impactos ambientais e socioeconômicos que tal prática pode trazer, prejudicando o desenvolvimento da atividade turística, que é um dos focos da nossa gestão, por conta da geração de emprego e renda”, disse à reportagem. “Isso sem falar na preservação ambiental, que também tem o potencial de gerar emprego e renda, por meio da prática dos esportes de aventura, rotas de peregrinação como o Caminho da Fé, entre outras atividades.”

A gestão municipal informou que solicitou estudos para mensurar os impactos ao meio ambiente e que avalia realizar uma audiência pública.

Margot Pioli disse ainda que “a movimentação popular que vem ocorrendo em Andradas é muito importante, reunindo vários segmentos contrários à prática da exploração de minérios em nossa região”.

O que dizem as empresas

Os pedidos de mineração de potássio na região de Andradas foram apresentados pela empresa Minas Rio Mineração. Questionada pela reportagem sobre seus projetos e impactos, a companhia não quis comentar o assunto.

A Alcoa, que atua há 57 anos na região, não possui projetos para extração de potássio, mas requereu novas áreas para ampliar a produção de bauxita em Andradas. A empresa declarou, por meio de nota, que “não possui nenhum projeto atual ou futuro de mineração nas áreas da Serra do Caracol e do Pau D’Alho” e que os territórios de seu interesse “estão a mais de 1,5 quilômetro de distância da área de tombamento” paisagístico da serra.

Segundo a empresa, as áreas pretendidas não incluem os mananciais da cidade e, assim, não teriam impacto no abastecimento de água do município. “A bauxita encontra-se próxima à superfície e é extraída por retroescavadeira, sem utilização de explosivos e/ou geração de nuvem de poeira. A lavra de bauxita na região ocorre na superfície e em pequenos bolsões. Isto faz com que as áreas sejam abertas, operadas e reabilitadas rapidamente”, informou a empresa, ao acrescentar que “não haverá operação direta no trajeto do Caminho da Fé” e que “qualquer decisão será tomada em conjunto com a comunidade”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Com crise dos fertilizantes, pedidos de pesquisa e exploração de potássio triplicam no Brasil

De janeiro a junho, o número de solicitações à agência de mineração chegou a 50, três vezes mais do que a média anual da última década

André Borges, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2022 | 05h00

BRASÍLIA – A crise dos fertilizantes deflagrada pela guerra entre Rússia e Ucrânia gerou uma corrida pela extração de potássio no Brasil – processo que tem pressionado municípios em diversas regiões do País, por causa do impacto ambiental envolvido nessas atividades. Os pedidos para pesquisa e exploração do mineral bateram recorde no primeiro semestre de 2022, superando o que se viu nesse setor na última década.

O Estadão fez um levantamento dessas solicitações de exploração de potássio registradas pela Agência Nacional de Mineração (ANM). De janeiro a junho, o órgão responsável pela concessão de pesquisas e lavras minerais recebeu um total de 50 pedidos relacionados à extração de potássio, a maior parte deles concentrada no Amazonas, ao longo da calha do Rio Madeira. Há pedidos também em outros Estados, como Goiás, Bahia, Sergipe, Piauí e Minas Gerais.

O número supera com folga os registrados na última década. No ano passado, por exemplo, quando o governo já se preocupava com a oferta de fertilizantes no País, apenas nove solicitações relacionadas a potássio chegaram à ANM. Desde 2013, a média de requisições enviadas à agência foi de 14 registros por ano. O que se vê apenas neste primeiro semestre, portanto, equivale ao triplo do volume médio anual dos últimos dez anos.

A corrida pelo potássio tem exercido pressão em processos de licenciamento ambiental que, muitas vezes, incluem impactos em unidades de conservação ambiental e, em algumas situações, áreas de preservação paisagística. Um exemplo é o que se vê no interior de Minas Gerais.

O movimento para nacionalizar a produção de potássio tem sido puxado pelo Ministério da Agricultura (Mapa), que teve de buscar alternativas para garantir o abastecimento nacional. O Brasil adquire no exterior 85% do volume de fertilizantes aplicado anualmente nas lavouras. A Rússia é uma das principais exportadoras – em janeiro, respondeu por 30,1% do adubo que entrou em território nacional, segundo o Ministério da Economia. No ano passado, os russos foram responsáveis por 23,3% do fertilizante que chegou ao Brasil.

Para garantir o estoque nacional, outros países foram acionados, como Canadá, Irã e Marrocos. “Mesmo com os conflitos, não houve interrupção das importações de fertilizantes russos e, consequentemente, da atividade de produção no campo”, informou o Mapa.

Em março, um decreto instituiu o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), que inclui metas e ações para reduzir a participação atual de 85% da importação de fertilizantes para cerca de 50%, até 2050. Essa redução inclui, além da exploração nacional de potássio, o uso de adubos orgânicos enriquecidos com minerais, entre outros.

Projetos de longo prazo

Não é possível prever, neste momento, quando a exploração nacional de potássio deverá ter resultado efetivo, uma vez que isso depende do processo de licenciamento ambiental em cada região e do ritmo de investimento de cada empresa. O que se sabe, porém, é que se trata de um processo de longo prazo, dadas as características das minas, que dependem de aporte financeiro pesado e infraestrutura logística que viabilize o empreendimento.

Portanto, não será do dia para a noite que a exploração nacional de potássio ajudará a reduzir a dependência internacional do principal insumo usado na produção de fertilizantes. Além de exigir investimentos bilionários, o início da produção é complexo e leva anos para se consolidar.

O presidente da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral (ABPM), Luís Azevedo, que já atuou com projetos de potássio, afirma que a característica das jazidas de potássio encontradas na Amazônia, por exemplo, onde estão as rochas com maior concentração do minério, estão localizadas em profundidades de aproximadamente 800 metros.

“São áreas profundas e de grande complexidade. Um furo de sondagem de 800 metros, por exemplo, leva de dois a três meses para ser feito, e tudo isso só para ver se a área tem sinais de viabilidade. São projetos com custo inicial acima de US$ 1 bilhão”, afirma Azevedo.

Já em áreas de Estados como Goiás e Minas Gerais, ele explica, o potássio é encontrado em rochas na superfície e o teor do minério contido nessas rochas é bem inferior àquele que se encontra na Amazônia. “É uma opção mais barata e rápida, apesar de menor teor. Talvez seja o caminho mais recomendável neste momento, porque os demais projetos levam, pelo menos, cinco anos para se viabilizarem”, diz o executivo.

Estoque em dia 

O receio com a falta do insumo levou o Brasil a importar mais fertilizantes do que no ano passado. Entre janeiro e maio de 2022, o produtor nacional importou 15,22 milhões de toneladas de fertilizantes, 16% a mais que os 13,12 milhões comprados no mesmo período de 2021. 

“Apesar das sanções impostas contra a Rússia e Belarus no início deste ano, os produtores nacionais, num movimento de antecipação de compras, fizeram fortes aquisições do insumo”, afirmou a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). “Os fertilizantes já estão sendo internalizados e o Brasil provavelmente terá suprimentos adequados para o plantio das safras 2022/23.”

Os dados de comércio exterior compilados pelo Ministério da Economia apontam que as importações brasileiras atingiram 4,06 milhões de toneladas em maio, 25% acima do volume adquirido no mês anterior e 57% superior ao mesmo mês em 2021.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.