Ciência econômica para as massas

Será que os economistas são capazes de conquistar corações e convencer mentes? Estudo indica que eles conseguem influenciar pouco no debate político

Economist.com

24 de agosto de 2014 | 07h00

LONDRES - Antes vistos como nobres profissionais, cada vez mais os economistas mudam sua embalagem para o consumo público. A ascensão do jornalismo de dados ajudou a catapultar os praticantes da mais deprimente das ciências ao domínio público. Entretanto, a lacuna entre o pensamento dos economistas e a opinião pública costuma ser grande. Será que os economistas são capazes de conquistar corações e convencer mentes? Ou será que a ciência econômica é usada apenas para reforçar crenças preexistentes?

Um novo estudo de cientistas políticos da Universidade Duke indica que os economistas podem influenciar a opinião pública, mas somente nos assuntos técnicos. Eles se mostram menos eficazes em se tratando de temas que suscitam debate político. Os autores investigaram como o público enxerga os economistas enquanto grupo, bem como a opinião do público em relação a temas de políticas públicas em relação aos quais os economistas chegaram a um consenso (desde a imigração até o padrão ouro). Eles então compararam o quanto tomar conhecimento do "consenso entre os especialistas" mudava a opinião do público em relação aos temas e à profissão como um todo.

E como se saiu a mais deprimente das profissões? Primeiro, a má notícia. Apesar do consenso entre os especialistas, a maioria dos entrevistados (excluídos os indecisos) discordou dos economistas em relação a cada um dos temas. Apenas 59% dos participantes disseram confiar nos economistas em se tratando de "questões de política econômica" e, para a maioria, essa confiança era tênue. Embora essa desconfiança seja relativamente generalizada entre a maioria dos grupos demográficos, os autores descobriram que os participantes de direita apresentavam propensão significativamente menor de confiar nos economistas.

Mas houve descobertas positivas. Ao serem informados da opinião consensual entre os economistas, os participantes se mostraram mais dispostos a concordar com eles. Entretanto, a dimensão desse efeito variava de acordo com a política econômica em questão. O público se mostrou mais propenso a concordar com os economistas quando indagados a respeito de questões técnicas, como o padrão ouro ou as previsões para a arrecadação fiscal. Mas, nas questões que levam forte carga política, como o comércio com a China ou os méritos da imigração, a probabilidade de o consenso entre os economistas alterar a opinião do público foi bem menor. Como se isso não bastasse, ao serem informados que suas opiniões não condiziam com a posição defendida pela maioria dos economistas, a confiança do público nos especialistas da área diminuiu significativamente. Isso não ocorreu no caso das questões mais técnicas: mesmo quando discordavam dos economistas, a opinião dos participantes em relação a eles não mudou. Parece que em se tratando dos temas mais polêmicos, o público usa os economistas para confirmar preconceitos, perdendo a fé nesses especialistas quando contrariado.

Se os economistas quiserem ter sucesso na tentativa de influenciar e até melhorar as políticas públicas, é fundamental convencer o público. Como os economistas podem oferecer conselhos melhores? Confinar a si mesmos aos conselhos tecnocráticos é algo improvável e pouco útil. São muitas as questões inerentemente políticas a respeito das quais os economistas têm conselhos valiosos a dar. Mas, talvez se os conselhos forem formulados de maneira mais técnica, medindo os benefícios da imigração, por exemplo, em vez de simplesmente defendê-la, os economistas possam garantir que seus conselhos sejam mais eficazes na arena pública.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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