Gabriela Biló/Estadão
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Pedro Fernando Nery
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Ciência não deveria ser conveniência para atacar quem pensa de maneira diferente

Ataques a Tabata Amaral são justificados pelo seu voto na reforma da Previdência, mas dados mostram que projeto permitiu um auxílio emergencial mais confortável

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 04h00

Passada a pandemia, o monopólio de parte da intelectualidade em usar a “ciência” para defender suas posições há de acabar. Vejo os ataques a Tabata Amaral: normalmente justificam o ressentimento e o machismo pelo seu voto na reforma da Previdência, supostamente contra os mais pobres. A base factual é frágil. Pois é, leitor: o Estadão mudou, mas o colunista ainda vai falar sobre Previdência.

Passados dois anos, vemos que vários governos estaduais e municipais, de partidos de oposição ao federal, apresentaram reformas. Mesmo a federal teve seu debate iniciado pelo governo Dilma. Apesar da polarização, nenhum presidenciável fala em revogar a reforma de 2019. Mas os ataques a Tabata persistem.

É uma militância que abandona a ciência. A espetacular mudança na dinâmica da população é uma contribuição ao nosso conhecimento dos demógrafos. Seu impacto nas contas previdenciárias, aprendemos pelos modelos de atuários. A baixa capacidade de redistribuir renda do nosso sistema é sabida pelo esforço de cientistas sociais. As implicações macroeconômicas são calculadas por professores universitários e pesquisadores vinculados ao Estado, não apenas economistas do mercado. E tudo parte da boa manutenção de bases de dados por servidores de órgãos oficiais.

Se é possível discordar da reforma, a panfletagem sobre os mais pobres não é coerente. Neste País, o BPC é concedido às mulheres, em média, aos 68 anos, a aposentadoria por tempo de contribuição a homens, aos 55. Brasileiros de Roraima se aposentam, em média, 7 anos depois do que os de Santa Catarina. São dados.

Os que ganham mais e vivem mais se aposentam bem antes. Uma diferença que é também de gênero e de raça. A reforma de 2019 reduz, mas nem extingue, essa diferença. É por isso que a “economia” de R$ 600 bi da reforma pouco recai sobre as regiões mais pobres. Ela, aliás, permitiu pagamento mais confortável do auxílio emergencial em 2020: entramos na pandemia com risco País e juros mais baixos.

Vale lembrar que a reforma não afetou a maioria dos atuais trabalhadores, mantendo as três características mais redistributivas do atual modelo intocadas: o BPC, a Previdência rural e a vinculação ao salário mínimo. Tabata, especificamente, foi a 4.ª deputada (1.ª entre mulheres) com mais emendas aceitas modificando a proposta do governo e ainda iniciou a discussão de um benefício infantil na Constituição, posteriormente aprovado no Senado.

Políticas públicas possuem incertezas e efeitos heterogêneos na população – além de interesses econômicos envolvidos. Isso dificulta, mas não deveria impedir, a pretensão de discuti-las com a seriedade – como uma vacina. Ciência não deveria ser conveniência.

*DOUTOR EM ECONOMIA

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