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Ciência quer criar Stradivarius hi-tech

Nenhum instrumento musical tem tanta mística e desperta tantas emoções quanto o violino. Muito mais ainda se for um Stradivarius. Como explicar a sonoridade incomparável desses violinos lendários? Para os especialistas, são muitas as respostas: a madeira e seu tratamento; o verniz e seus componentes; a forma e as dimensões perfeitas; o envelhecimento do instrumento e uma dúzia de outros fatores que estão presentes, aliás, em famosos violinos, que mais se aproximam do Stradivarius em som e beleza de formas - como os Guarneri del Gesú, Amati, Guadagnini, Gagliani e outros.Em todo o mundo, pesquisadores têm estudado as qualidades das melhores madeiras usadas na fabricação de violinos - além do pinho da Bósnia ou do abeto italiano, para o tampo superior, e do plátano para o tampo inferior. O uso de materiais sintéticos, mesmo com textura parecida com a da madeira e baixa densidade, tem trazido resultados medíocres, embora para alguns pesquisadores esse caminho não deva ser rejeitado. É inegável, contudo, que a ciência já avançou significativamente na identificação dos fatores responsáveis pelo som incomparável dos Stradivarius. Entre centenas de projetos de pesquisa, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e seu Media Lab desenvolveram em janeiro deste ano um super arco para violino eletrônico.O QUE SE APRENDEO professor e físico norte-americano William Frederick Jack Fry, da Universidade de Madison, Wisconsin, fabrica violinos e pesquisa instrumentos antigos. Com sua experiência, ao longo dos últimos 30 anos, Fry aprendeu a modificar as proporções dos violinos e, assim, aproximar suas qualidades dos instrumentos mais famosos.Outro progresso inegável são os violinos eletrônicos, interessantes, originais, de excelente desempenho acústico, mas que não podem ser comparados com os Stradivarius, em timbre, volume e beleza sonora. Tenho dois deles - um Yamaha e um Zeta - e gosto de tocar neles. Mas não são instrumentos comparáveis aos melhores violinos acústicos. O violino eletrônico ainda é uma proposta hi-tech que oferece efeitos sonoros curiosos, úteis para concertos populares. CINCO STRADSStrad é o apelido carinhoso que os violinistas e estudiosos dão aos Stradivarius. Toby Faber, especialista inglês, autor de Stradivarius - Cinco Violinos, um Violoncelo e Três Séculos de Perfeição (Record, 1ª Ed., 2006), analisa nesse livro seis instrumentos que, a seu ver, são os mais representativos da arte e do talento de Antonio Stradivari, o famoso luthier de Cremona, pequena cidade italiana próxima de Milão. Liutaio, em italiano, ou Luthier, em francês, são as palavras derivadas de luthe (alaúde) que indicam o artesão que faz violinos, violas, violoncelos e outros instrumentos de corda.Faber relata mitos e verdades relacionadas com esses instrumentos quase lendários e mostra que toda tecnologia do mundo atual não tem sido capaz de reproduzir violinos com a qualidade dos fabricados há quase quatro séculos na Itália. A acústica e a perfeição desses instrumentos são também, em grande parte, responsáveis pelo sucesso de virtuoses como Paganini, Fritz Kreisler, Jascha Heifetz, Yehudi Menuhin, David Oistrach ou Itzhak Perlman.Antonio Stradivari (1644- 1737) nasceu e morreu em Cremona. Depois de ter sido aluno de Nicola Amati de 1667 a 1679, montou seu próprio estúdio em 1680 e fabricou mais de mil violinos e outros instrumentos de arco (violas e violoncelos) ao longo de sua vida. Desse total, sobreviveram até nossos tempos cerca de 600.Os mais famosos Strads recebem o nome de seu proprietário mais ilustre ou rico. Ou um apelido que o dono lhe deu. Assim, o Messias, violino feito em 1716, é, para Toby Faber, "o violino mais famoso do mundo".Seu impaciente comprador procurou durante tanto tempo um Stradivarius verdadeiro, que era como o Messias, sempre esperado, mas que nunca aparecia. O Messias só foi tocado esporadicamente por alguns violinistas.Outro Strad famoso é o Viotti, de 1709, um violino "perfeito sob todos os aspectos", cujo nome homenageia Giovanni Battista Viotti, compositor e violinista italiano. Mais curioso ainda é o Khevenhuller, feito em 1733, assim chamado por ter sido comprado pelo príncipe alemão Johann Sigismund Friedrich von Khevenhuller-Metsch, para presentear sua segunda esposa. O valor desse violino, que já mudou de mãos diversas vezes, é estimado em US$ 4 milhões.O Lipinski, de 1715, é um Strad que pertenceu a violinistas famosos, entre os quais Giuseppe Tartini. O mais antigo, de 1680, é o Paganini, que pertenceu ao grande violinista italiano. Entre os violoncelos Stradivarius, o mais famoso talvez seja o Davidov, feito em 1712. Pertenceu à violoncelista inglesa Jacqueline du Pré e hoje está emprestado a Yo-Yo Ma, para "o resto de sua vida". Em dois leilões recentes, um colecionador russo arrematou o violino Stradivarius Barrow, de 1715, por US$ 9,5 milhões, enquanto a Japan Music Foundation adquiria o violoncelo Strad Duport, de 1711, de Mstislav Rostropovich, por US$ 20 milhões. D

Ethevaldo Siqueira, O Estadao de S.Paulo

28 de fevereiro de 2009 | 00h00

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