Heide Levin/The New York Times
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Cientistas testam em Israel técnicas para cultivar uvas em um futuro quente e seco

Trabalho de pesquisadores no deserto de Negev, no sul do país, atrai a atenção de vinicultores europeus, que estão sendo afetados por verões com temperaturas recordes e outras mudanças climáticas

Amy Yee, The New York Times

27 de setembro de 2019 | 10h50

MITZPE RAMON, Israel - No deserto de Negev, o sol castiga uma paisagem de colinas ressecadas, marrons e ondulantes. Entretanto, num pedaço de terra aqui, no sul de Israel, videiras formam verdes fileiras e delas pendem gordos cachos entre uma folhagem exuberante. Não é miragem. É um vinhedo de pesquisas, onde cientistas estudam como plantar uvas nesse ambiente inóspito.

O Negev está longe de ter o clima temperado de muitas regiões vinícolas. No entanto, cerca de 20 vinhedos brotaram aqui nos últimos 15 anos, dando início a um promissor turismo baseado no vinho.

Os pesquisadores estudam esse ambiente hostil para entender como uvas vinícolas podem crescer nas condições desérticas que dominam Israel. Esse conhecimento será cada vez mais valioso em um mundo no qual serão mais frequentes as secas e as ondas de calor.

“O clima está ficando cada vez mais imprevisível”, disse Aaron Fait, professor de bioquímica na Universidade Ben Gurion no Negev. “O deserto é um campo para se estudar como a mudança climática vai afetar a produção de vinho em todo o mundo.”

As técnicas aqui testadas em 30 variedades de uvas incluem o uso de redes para fazer sombra, treliças que induzem as vinhas a crescer em formações que limitam a exposição ao sol, sensores que medem a umidade do solo e câmeras térmicas que acompanham quanta luz solar uvas e folhas absorvem.

O trabalho vem atraindo a atenção de vinicultores europeus à medida que verões mais quentes e outras mudanças climáticas afetam seus vinhedos. Em junho, os termômetros marcaram 41°C na região vinícola francesa de Bordeaux - o dia mais quente já registrado oficialmente. Temperaturas recordes também foram constatadas em outros países da Europa, como Alemanha, Bélgica e Holanda.

Em anos recentes, cientistas e proprietários de vinícolas da França, Itália, Eslovênia e outros países europeus visitaram o campo de pesquisas do Negev. Os especialistas esperam que a agricultura israelense de deserto possa proporcionar lições valiosas para a adaptação de culturas a climas extremos e imprevisíveis.

Para estudar inovações na produção de vinhos, Fait trabalha com várias vinícolas do Negev, bem como com pesquisadores europeus como Enrico Peterlunger, professor de viticultura na Universidade de Údine, norte da Itália. O trabalho começou em 2014 com a empresa de irrigação israelense Netafim e o apoio dos governos da Itália e Israel.

“Viticultores estão preocupados com a mudança climática na Europa, disse Peterlunger. Na região, “choveu muito em maio, o que causou problemas durante a floração e crescimento das uvas. Junho, julho e agosto foram meses muito quentes, o que é ótimo para as vinhas”.

Naftali Lazarovitch, cientista especializado em solo do Instituto Blaustein de Pesquisas do Deserto em Negev, também estuda a viticultura no deserto no Negev. “Os europeus estão acompanhando o modo que nós, isralenses, lidamos com condições climáticas hostis e tentamos aprender com elas”, disse ele. “Nosso objetivo é produzir mais com pouco.”

Mais de 40% da superfície territorial terrestre é constituída de terras secas, incluindo forestas tropicais desertificadas,  savanas e ospróprios desertos. Nessa superfície vivem 2,5 bilhões de pessoas. Essas regiões já estão ameaçadas pelo uso excessivo e pela desertificação e são mais vulneráveis a variações climáticas extremas, como secas, ondas de calor e tempestades de areia, segundo relatório recente do Painel Intergovernamental de Mudança Climática.

A maior parte de Israel é árida. O Negev se estende por mais da metade do território. Por necessidade, Israel desenvolveu uma agricultura no deserto que produz colheitas abundantes. Nos anos 1940, o inventor polonês-isrealense Simcha Blass criou sistemas de irrigação por gotejamento que hoje  são usados em todo o mundo.

A agricultura no deserto existe na região desde tempos antigos. Os nabateus, árabes nômades, no século 4º a.C. já usavam canais e construíam pequenas barragens de pedra para desviar água para irrigação de videiras.

Hoje, no Negev, agricultores controlam com precisão irrigações por gotejamento, enquanto muitas outras partes do mundo continuam dependendo de chuvas. “A viticultura no deserto possibilita controlar um número de variáveis impossíveis de se controlar em vinhedos tradicionais, e isso é de imensa importância para testar certos cenários climáticos”, disse Fait.

Em seus testes, ele trabalha com vinícolas como Nana Estate, cujo dono, Eran  Raz, deixou uma carreira na produção de filmes para fazer vinho. Raz mudou-se para o Negev para começar uma vinícola “porque nenhuma grande história surgiu a partir de saladas”, brinca ele.

A água canalizada por aquedutos locais irriga as vinhas da Nana Estate, que produzem uvas chardonay e chenin blanc.”Tenho total controle sobre a água”, disse Raz, “e controlo também o crescimento das uvas.”

Ele acompanha de perto suas videiras para se assegurar de que as uvas cresçam, não as folhas, e checar os níveis de açúcar das frutas. Uma produção ótima por videira é de 4 quilos por safra. Se houver cachos demais eles sufocam as plantas; assim Raz descarta o excesso.

No Negev, a temperatura durante o dia pode chegar aos 36°C e cair à noite para um frio invernal. Com o clima seco, os viticultores da região podem usar defensivos apenas duas vezes por estação, enquanto alguns viticultores europeus têm de pulverizar toda semana.

Além da viticultura, pesquisadores isralenses estudam uma série de técnicas para produzir outras culturas. O Centro de Pesquisas Agrícolas Ramat Negev tem 15 hectares de núcleos de pesquisa e estufas onde cientistas cultivam uvas vinícolas, tamareiras, azeitonas e jojoba.

Em grandes estufas, pesquisadores plantam pequino, tomate-cereja, berinjela e outros vegetais, como uma planta comestível suculenta chamada sarcocornia que cresce em ambientes salinos. Mesmo morangos são plantados em longos canteiros suspensos.

Lazarovith e outros cientistas estão testando inovações que incluem câmeras que monitoram raízes e sensores que monitoram dióxido de carbono, fertilizantes e níveis de salinidade. Técnicas de cobertura vegetal podem reduzir o uso de água em 20%. Também cobrir raízes com plástico impede a evaporação.

Essas inovações “serão cada vez mais relevantes para muitos países em consequência do aquecimento global”, disse Ofer Guy, pesquisador agrícola do Centro Ramat Negev. ”Fatores como solo e água salinos, clima extremamente quente e escassez de água vão se tornar grandes problemas no mundo do futuro, com  a agricultura sendo empurrada para solos de segunda categoria”, acrescentou.

“A agricultura hoje e o consumo de alimentos se baseiam numa pequena variedade de plantas relativamente sensíveis à salinidade”, disse Guy. “Isso representa um grande desafio para a humanidade.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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