Cimento e aço sob pressão
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Cimento e aço sob pressão

Setores intensivos em carbono correm contra o tempo para conseguir neutralizar suas emissões e se manter competitivos numa economia carbono zero

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2021 | 05h00

A urgente necessidade de combater o aquecimento global obrigou a indústria do cimento e a indústria siderúrgica a se reinventarem. Juntas, correspondem por quase 11,5% do total de emissões globais de gases de efeito estufa (GEE) e por 18% das emissões globais de dióxido de carbono (CO2), segundo relatórios da consultoria Global Efficiency Intelligence, baseados em dados da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês).

Em todo o mundo, players do ramo realizam investimentos em eficiência energética, pesquisa e inovação para cumprir com as metas de se tornarem neutros em emissões até 2050, mas não é tarefa fácil limpar setores carbono intensivos como esses, sobretudo em meio a cenário de desorganização dos fluxos de suprimentos, produção e distribuição provocado pela pandemia

Dados mostram que, pela média anual mundial, para cada tonelada de cimento produzida, há a emissão de 635 kg de dióxido de carbono. E para cada tonelada de aço, a média é de 1,89 tonelada de CO2 (veja o gráfico).

 

Nesses dois setores, o Brasil emite menos CO2 do que as médias mundiais e é pioneiro na utilização de tecnologias e matérias-primas de menor impacto ambiental. Mas gargalos no processo de destinação, logística e reaproveitamento de resíduos são obstáculos aos avanços agora necessários.

Na indústria cimenteira brasileira, o objetivo é reduzir em 33% (ano base 2014) a pegada de carbono do setor até 2050, saindo dos 564 quilos de CO2 emitidos por tonelada de cimento para 375 quilos. Segundo Gonzalo Visedo, diretor de sustentabilidade do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC), isso evitará que cerca de 420 milhões de toneladas de CO2 sejam emitidas.

Um dos caminhos a percorrer é a adição de matérias-primas alternativas na produção do clínquer, que é o produto intermediário,  produzido por meio do processamento do calcário a partir de altas temperaturas hoje obtidas em fornos pela queima de óleo combustível, coque de petróleo ou carvão mineral. Trata-se de substituir boa parte desses combustíveis fósseis por resíduos industriais, urbanos ou agrícolas, como madeira, pneus, borrachas, plásticos, caroços e cascas de frutas, óleo usado e papel ou por biomassa, por meio de tecnologias de coprocessamento.

“Trabalhamos hoje com cerca de 32% de outros materiais incorporados ao processo produtivo do cimento e pretendemos chegar a 48% até 2050. Esses resíduos deixam de ser jogados na natureza ou em aterros sanitários, onde causariam maior impacto ambiental, e são totalmente aproveitados na nossa indústria. Queima-se a parte orgânica para aproveitar o poder energético e as cinzas são encapsuladas e cristalizadas na malha do cimento”, explica Visedo.

A siderurgia brasileira também aposta na chamada economia circular e no uso de biocombustíveis para mitigar suas emissões.

O Brasil é líder mundial na produção metalúrgica a partir do carvão vegetal  – cerca de 11% da produção nacional utiliza a biomassa obtida a partir de florestas plantadas.

Estudos apontam, ainda, que o maior uso do gás natural pode diminuir em até 4% as emissões nas usinas siderúrgicas integradas a coque. O gás natural pode assumir importante papel na indústria como combustível de transição ao carvão mineral e ponte para o hidrogênio verde, mas, como explica a diretora de assuntos institucionais do Instituto Aço Brasil, Cristina Yuan, a concentração de oferta de gás natural no mercado eleva os custos dessa rota tecnológica.

Outra aliada é a utilização de sucata, porque o aço não perde suas propriedades mecânicas e mantém a mesma qualidade após a reciclagem. Estima-se que a cada tonelada de sucata reciclada, 1,5 tonelada de CO2 deixa de ser emitida.

O maior obstáculo para essa opção é o relativamente baixo consumo anual per capita de aço no Brasil. De acordo com a executiva, o País consome, em média anualmente, cerca de 100 a 120 quilos de sucata por habitante, enquanto países em desenvolvimento ou desenvolvidos o patamar de consumo de aço é superior a 300 quilos. Essa condição limita a obtenção de sucata e sua reciclagem.

“As importações estão mais difíceis porque a sucata se tornou importante nesse processo de descarbonização e vários países proibiram ou taxaram excessivamente a exportação.”

O problema é que essas indústrias não podem dormir no ponto. Cresce no mundo a patrulha e a rejeição de produtos cujo processamento não respeita os limites de emissão de carbono. E este pode tornar-se fator de perda de competitividade. /COM PABLO SANTANA

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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