Cinco anos após a quebra do Lehman, recuperação dos EUA ainda é incerta

A economia americana vem sendo observada nos últimos meses como um copo com água pela metade. Estatísticas de consumo e endividamento das família, de exportações e investimento, de preços de imóveis e de desemprego somaram-se à expansão de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB), no segundo trimestre, para alimentar a versão do copo mais cheio. Mas, passados cinco anos da maior crise financeira desde a grande depressão dos anos 30, o ritmo lento e titubeante da recuperação reflete a dificuldade ainda presente de superação do colapso causado pela falência do Lehman Brothers.

DENISE CHRISPIM MARIN , O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h03

"A economia americana vem crescendo, mas abaixo do potencial. O país não saiu da crise, mas entrou em um 'novo normal', que é melhor do que o anterior", diz Otaviano Canuto, conselheiro da Presidência do Banco Mundial. "O crescimento ainda é meia-boca, distante do PIB potencial dos EUA."

A ruína do Lehman Brothers foi o estopim de uma crise financeira que empurrou a economia americana à recessão. O ano de 2009, primeiro do governo de Barack Obama, fechou com variação negativa do PIB de 3,1%, taxa de desemprego de 9,9% e milhões de americanos despejados de suas casas por não cumprirem o pagamento de suas hipotecas.

A injeção de recursos públicos para salvar bancos chegou a US$ 700 bilhões, dos quais US$ 24,9 bilhões foram canalizados para as três maiores montadoras do país. A taxa básica de juros fora reduzida para a faixa entre 0% a 0,25% em dezembro de 2008 - e assim é mantida até hoje. O estrago foi mais profundo que o previamente avaliado pelos especialistas do governo.

"Temos hoje o benefício de olhar para trás e verificar que a crise foi subestimada", disse Canuto. "Joseph Stiglitz defende a tese de que esses recursos teriam gerado efeitos mais rápidos se aplicados no subsídio a famílias americanas endividadas", completou, referindo-se ao prêmio Nobel de economia.

Estímulos. Há dois meses, o Federal Reserve (Fed) sinalizou com a eliminação gradual do terceiro afrouxo monetário (QE3) antes de meados de 2014, se a melhora da economia for confirmada.

Os mercados reagiram de forma nervosa, com repercussão especial na taxa de câmbio de economias emergentes, e desconsideraram a preocupação ainda presente no banco central americano com a taxa de desemprego e o nível de atividade.

O indicador de desocupação, alertou o Fed, somente chegará a um nível considerado adequado para os tempos atuais quando marcar 6,5% - 0,8 ponto porcentual abaixo do registrado em agosto, de 7,3%, mas acima das taxas anteriores à crise. Não está certo em que momento o Fed vai tomar essa decisão. Sabe-se apenas que será gradual e que a taxa de juros básica próxima a zero será preservada por mais algum tempo.

O otimismo tem fundamento. O PIB americano expandiu 2,5% no segundo trimestre deste ano, depois de ter aumentado apenas 1,1% no período anterior. O resultado surpreendeu por ter sido registrado no período inicial de cortes draconianos nas despesas federais.

As estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) são de crescimento 1,7%, neste ano, e de 2,7%, em 2014. Apesar da ampla criação de empregos temporários e do elevado número de trabalhadores marginalizados do mercado, a taxa de desocupação tem recuado gradualmente desde outubro. As exportações de bens e serviços se recuperaram da queda de 14,2% em 2009 e, em 2012, somaram US$ 2,210 trilhões, um recorde histórico.

Investimentos. Se o mercado doméstico não voltou a ser um vetor vigoroso da produção industrial, as exportações assumiram parcialmente esse papel graças à retomada de investimentos. Como porcentual do PIB, os investimentos haviam despencado de 20,5%, em 2006, para 14,7%, em 2009. Neste ano, devem alcançar 16,8%, conforme o Banco Mundial, que também prevê gradual expansão dessa taxa em 2014 e 2015. Pesquisas mais recentes, de agosto, acentuam o otimismo.

O endividamento das famílias americanas no segundo trimestre recuou em US$ 78 bilhões no segundo trimestre, quando totalizou US$ 11,15 trilhão. Os preços de imóveis mantiveram a rota de recuperação, e o indicador de confiança do consumidor mostrou franco aumento desde abril passado, quando caíra para 6,9%. Em agosto, foi de 8,1%, segundo pesquisa da Thomson Reuters/University of Michigan.

Os aumentos nas importações nos últimos meses, embora modestos, prenunciam a retomada do consumo. A variação de preços ao consumidor - de 2% ao ano, em julho, afasta do horizonte de curto prazo a elevação nos juros básicos e gera preocupação em analistas.

Fragilidades. Esses sinais não eliminam as fragilidades dos EUA. Desde 2010, o crescimento tem sido impulsionado quase exclusivamente pelo Fed, com o uso de velhos instrumentos de política e de artifícios mais arriscados. Engolida pela polarização política, a Casa Branca ficou de mãos atadas para realizar investimentos e adotar um programa equilibrado de redução do endividamento público - de cerca de 100% do PIB - em longo prazo.

Em outubro, Obama poderá ser obrigado a tomar uma iniciativa dramática: suspender o pagamento de funcionários e fornecedores, pelo fato de a dívida federal ter alçando o teto definido pelo Congresso. Das outras duas vezes em que se viu nessa situação, desde julho de 2011, os parlamentares aumentaram o teto e contornaram o calote.

Em curto prazo, não se pode esperar um "empurrão" no ritmo de crescimento. E, segundo Canuto, se o País voltar a crescer não será no ritmo verificado antes da crise de 2008.

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