Cinco anos de sucessos e polêmicas na internet

O You Tube faz aniversário revolucionando a publicidade e transformando as pessoas

Patrick Barkham/The Guardian, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2010 | 00h00

Charlie McDonnell talvez seja o mais famoso adolescente de quem você nunca ouviu falar. Ele acaba de tingir o cabelo de vermelho, toca ukulele (também conhecido como guitarra havaiana) e gasta um tempo enorme no computador de seu quarto. Esse sujeito comum de 19 anos de Bath, sudoeste da Inglaterra, é o maior superstar do YouTube da Grã-Bretanha. Mais de 350 mil pessoas acompanham seus vídeos domésticos, nos quais ele papeia sobre o programa de TV Doctor Who, responde a perguntas de espectadores e canta.

Três quartos de seu público são garotas. Este mês, McDonnell deve se mudar para Londres com o melhor amigo (que ele conheceu pelo YouTube). Sem nenhum tipo de agente, já ganha o suficiente com o site para chamar sua rotina de trabalho.

O YouTube acaba de completar cinco anos. Atualmente, é o terceiro website mais visitado do mundo, ficando atrás apenas do Google e do Facebook. Em breve, seus usuários estarão postando 1 milhão de vídeos por dia. Trata-se de um fenômeno que está revolucionando a publicidade, a música e a mídia - e também está nos transformando.

O site já mudou, por exemplo, a maneira como conversamos uns com os outros. Modificou, sobretudo, o modo como gastamos nosso tempo, enchendo nossas tardes com vídeos de skatistas performáticos e de bebês que dançam break.

Como marco histórico, o vídeo de um nerd parado no zoológico de San Diego, nos Estados Unidos, é bem pouco impressionante. "Estamos diante dos elefantes. Eles têm trombas realmente compridas e isso é legal", diz Jawed Karim, desdenhosamente. Mas esse filme tremido, postado na internet às 8h27 da noite de sábado, 23 de abril de 2005, foi o começo de uma revolução social: o ex-empregado da PayPal havia criado o primeiro vídeo do YouTube.

Postar e compartilhar. Muita gente já colocava vídeos pessoais na rede naquela época. Mas, após se bater para encontrar imagens de Janet Jackson expondo acidentalmente os seios durante o Super Bowl de 2004, os três fundadores do YouTube, Jawed Karim, Chad Hurley e Steve Chen, criaram o site que facilitaria o processo de postar e compartilhar os filmes.

O site demorou um pouco para se firmar. Os novos usuários tiveram até de ser "subornados" com um concurso de iPod Nano para se registrar. Sua primeira menção na imprensa britânica só ocorreu em novembro de 2005. Naquele mês - pouco antes de o YouTube receber pela primeira vez dinheiro de capital de risco - o site exibia 2 milhões de vídeos por dia. Dois meses depois, exibia 25 milhões. Hoje está bem acima de 1 bilhão.

Assim, quando o Google comprou o YouTube, num negócio de US$ 1,65 bilhão em outubro de 2006, não se tratava apenas do website do momento, mas de uma comunidade. Como outras mídias sociais que definem a era da internet 2.0, o YouTube é interativo. Os usuários não assistem a vídeos tolos simplesmente, mas participam: imitando, parodiando, zombando e fazendo seus próprios filmes.

"Não se esqueçam de como é recente nossa disposição aparentemente universal para compartilhar - nossas confissões privadas, nossa criatividade, nosso humor", diz David Rowan, editor da revista Wired UK e o primeiro a mencionar o site na mídia britânica. "O YouTube ajudou a destruir a barreira entre o público e o privado, como os blogs fizeram alguns anos antes e o Twitter faz hoje."

Estrela do momento, o adolescente McDonnell postou seu primeiro vídeo em abril de 2007. Quando o garoto tímido de 16 anos, trajando terno, adotou um sotaque refinado e preparou uma xícara de chá, seu vídeo "How to be English" ("Como ser inglês") virou um sucesso arrasador.

Como muitos dos outros astros do site, McDonnell construiu uma sólida base de fãs. "Recebo comentários de pessoas me perguntando como é ser famoso", diz. "Mas ainda sou o mesmo cara que fica sentado no quarto conversando com a câmera." Ainda assim, é reconhecido nas ruas. Diante do sucesso, o garoto prometeu aos espectadores que, quando abordado por fãs, distribuirá uma insígnia com os dizeres "Eu vi Charlie". Essa intimidade fácil com o público no YouTube "aumentou muito minha confiança", diz o adolescente. "Sou uma pessoa muito mais feliz, então foi uma mudança bacana."

A expansão do YouTube não aconteceu sem percalços. O espírito comunitário do site foi abalado por debates sobre a autenticidade dos vídeos. As discussões começaram após a exposição de casos como o da LonelyGirl15, a adolescente americana que acabou se revelando um ator da Nova Zelândia. O YouTube também foi interpelado judicialmente por companhias como a Viacom e a English Premier League, por violações de direitos autorais. Por fim, há o coro de críticos que classifica o conteúdo do site como grotescamente trivial e narcisista. Como disse o crítico da revista Time, Lev Grossman: "Alguns comentários postados no YouTube nos fazem chorar pelo futuro da Humanidade - e isso só pela ortografia, sem contar o obscenidade e o ódio."

Pilha de vídeos. Mas será que o YouTube está simplesmente oferecendo um cultura rasa e pueril de fraude, piadinhas e riso do sofrimento alheio? "Isso é absolutamente verdadeiro e absolutamente falso", diz Michael Wesch, professor-assistente de Antropologia Cultural da Universidade Estadual do Kansas, e autor do tratado sobre Web 2.0, "The machine is Us/ing Us" (em tradução livre, "A máquina somos nós e está nos usando"). "Qualquer observador poderia concluir que há muita coisa superficial no YouTube, mas eu garanto que haverá também muita coisa capaz de surpreendê-lo. Há todo um clube online que discute filosofia simplesmente conversando com webcams. Há uma profundidade tremenda. Como o sistema funciona em rede, não se trata de uma pilha de vídeos estanques e desorganizados num canto."

Os puristas podem reclamar, ainda, do fato de o YouTube ter se tornado mais "corporativo". A publicidade realmente permite que pessoas como o jovem britânico McDonnell ganhem a vida (o YouTube proíbe o garoto de revelar quanto ele ganha com sua participação nos anúncios postados ao lado de seus vídeos). Mas o hábito entre os usuários do YouTube de "remixar" os filmes rapidamente subverte qualquer tentativa corporativa de marketing viral. Segundo Emily Bell, atual diretora de conteúdo online do jornal britânico Guardian, as empresas já aprenderam a se conter. "Atualmente ouve-se muito menos, por parte dos integrantes de grandes companhias, sobre a possibilidade, naquele clichê horroroso, de "explorar o poder" do YouTube. Isso seria como tentar domar um animal particularmente feroz. Não há nada para ser explorado. O conteúdo está ali para ser compreendido, e se ele permite que você entre, já se considere com muita sorte."

Entre os integrantes tradicionais do mundo da comunicação, a televisão deve ser a mais ameaçada pela cultura jovem do site. Mais da metade dos vídeos exibe pessoas entre 18 e 24 anos, e o público jovem tem hábitos radicalmente diferentes. O próprio McDonnell, por exemplo, não assiste televisão, exceto Doctor Who. "É muito mais divertido ser um participante, fazer parte de uma comunidade a partir de seu quarto, do que ser apenas um consumidor de informações", afirma ele.

"Quando o YouTube surgiu, há cinco anos", diz Emily Bell, "havia um certo horror no mundo da comunicação sobre o que seria esse site de hospedagem terrível, destrutivo e de baixo nível". Agora, ela observa, quando queremos uma distração divertida, nós preferimos o YouTube à televisão. "Esse é um ponto controverso, mas o YouTube fez a TV melhorar e continuará fazendo isso. O site suga a porcaria e deixa o que existe de aceitável para o resto da indústria da comunicação."/TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

Cronologia do site que virou febre

23/04/2005

O vídeo de um nerd no zoológico foi o primeiro a ser postado

2007

Presos das Filipinas dançando "Thriller" é um dos maiores hits

2009

Festa de casamento teve 33 milhões de acessos

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