Paulo Vitor/AE
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Cinco bancos concentram 75% dos depósitos

Depois da crise, quando os bancos voltaram às compras, por motivação econômica, grandes fusões e aquisições foram fechadas

Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2010 | 00h00

Cerca de dois terços de todos os ativos e empréstimos são de responsabilidade, atualmente, de apenas cinco instituições no País: Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Santander e Caixa Econômica Federal. Há dez anos, essas instituições tinham menos da metade do mercado.

A concentração no sistema bancário brasileiro aumentou na saída da crise financeira, no ano passado, quando grandes bancos voltaram às compras e foram fechadas grandes fusões e aquisições.

O processo tem motivação econômica: maiores, os bancos têm o chamado ganho de escala, que é a redução proporcional do custo de sua operação. Conseguem, ainda, economizar em operações mais simples, como compra de material de escritório, e na montagem dos complexos sistemas de tecnologia da informação.

"Esse processo não é exclusividade dos bancos brasileiros nem do sistema financeiro. Para serem mais competitivos, muitos setores passaram por grande concentração, como telefonia, transporte aéreo, indústria farmacêutica", enumera o presidente da Austin Rating, Erivelton Rodrigues. "É um ciclo que se autoalimenta. Maiores, os bancos têm mais fôlego para comprar outros ou crescer organicamente."

A concentração bancária costuma ser observada pelos ativos - que são os créditos, direitos, bens e valores a receber que o banco detém. Por essa característica, a participação dos cinco grandes bancos passou de 45,6% em 2000 para 64,9% em junho de 2010. Em ritmo semelhante, as operações de crédito desse grupo saltaram de 49,2% para 65,5% de todo o sistema financeiro no mesmo período.

Anos 90. O professor de finanças da Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), José Pereira da Silva, afirma que essa concentração é resultado de um movimento amplo, iniciado há quase duas décadas. Em meados dos anos 90, após a criação do Plano Real, o governo decidiu reestruturar e fortalecer o sistema financeiro com ajuda dos recursos públicos para impedir que a economia se contaminasse com eventual debilidade dos bancos. Em meio ao movimento, muitos bancos estaduais foram comprados.

No fim dos anos 90 e início dos anos 2000, a segunda fase da consolidação aconteceu com os bancos privados, que passaram a comprar casas menores para ganhar força e escala. Mais recentemente, houve outra onda que passou a contar também com aquisições de bancos públicos.

"A concentração tem um aspecto positivo, que é de dar mais segurança para os clientes, já que bancos fortes têm menor risco na operação", diz Silva. Talvez seja por isso que é exatamente nesse tema que a concentração é mais evidente: atualmente, 75% de todos os depósitos do sistema financeiro estão nos cinco maiores bancos. Há dez anos, essa fatia era de 52,5%. Durante a crise, grandes bancos, em especial os públicos, receberam volumes expressivos de depósitos.

Mas a concentração tem um aspecto negativo para os clientes, que é a diminuição da concorrência. Com menos casas no mercado, a iniciativa de reduzir juros e taxas ou melhorar serviços pode ser menos urgente que em um cenário com muitas instituições e pulverizado. "É mais difícil concorrer quando você tem cinco ou seis bancos grandes. Mas isso não quer dizer não haja nenhuma concorrência", diz Silva. Nos últimos dois anos, instituições públicas incentivaram a maior concorrência com a oferta de crédito com taxas menores.

Futuro. Mesmo com a concentração crescente, analistas descartam o fim do processo de consolidação. "Não diria que chegamos a um teto. Até porque durante a crise de 2008 bancos públicos desempenharam um papel importante e ganharam mercado. Os privados vão reagir para tentar recuperar o espaço", prevê Rodrigues, da Austin Rating.

Uma das possibilidades que já está em curso é a união das instituições financeiras para tentar reduzir custos. Concorrentes como BB, Bradesco, Santander e Caixa preparam o compartilhamento dos caixas eletrônicos e novas parcerias em áreas como cartões de crédito. Apesar desse movimento, Rodrigues observa que ainda há espaço para bancos de menor porte. "Eles se especializam em nichos, como crédito consignado, financiamento de veículos ou pequenas e médias empresas", afirma.

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