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Cinco em cada dez postos de SP podem adulterar gasolina

Cinco em cada dez postos de combustível da cidade de São Paulo vendem gasolina abaixo de um preço "seguro". A afirmação é feita com base no último levantamento de preços da Agência Nacional de Petróleo (ANP), que constatou que em 330 das 614 revendedoras pesquisadas o litro é vendido abaixo de R$ 2,40 - preço limite, considerado pelo Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado (Sincopetro) - para garantir um produto com qualidade."Não podemos falar sobre preço porque existe a questão da localização do posto, do tipo de serviço, da quantidade de funcionários e de outros detalhes que definem as despesas. Mas abaixo desse valor, pelo preço atual da revenda - cerca de R$ 2,20 - não tem como um posto sobreviver", explicou o presidente do sindicato, José Alberto Paiva Gouveia.Segundo ele, o índice de adulteração de todo o Estado gira em torno de 17%. Em São Paulo, este porcentual pode saltar salta para 53,74%, com base no preço cobrado. A estimativa, mesmo para o âmbito geral do Estado, avaliou o presidente do Sincopetro, é alta. "O problema é a falta de punição. Existe lei, mas a punição é zero", adicionou. As regiões da capital onde são identificadas maiores ocorrências com o problema são a Sul, Leste e OesteGouveia explica que o preço pode ser inferior ao limite seguro em caso de promoções, mas que manter a cobrança por muito tempo é impossível. "E não é nem questão de concorrência. Começar com adulteração por causa disso é uma coisa, mas se manter durante dez anos é safadeza." Grande ABCNão muito abaixo da capital está o Grande ABC, na Região Metropolitana de São Paulo. O limite do preço seguro nas sete cidades é de R$ 2,35, segundo o Sindicato de Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do ABCDMRR (Regran). Com essa base, o nível de possibilidade de adulteração vai para 26%. Diadema é a cidade onde há mais postos vendendo o litro abaixo do preço seguro, com 53,84% dos 26 postos pesquisados. O presidente do Regran, Ricardo Batistella, explicou que este limite de segurança se baseia nos ganhos de cada estabelecimento. "Normalmente o revendedor consegue o litro por R$ 2,18. São cerca de R$ 0,15 para despesas normais com funcionários, aluguéis, por exemplo. R$ 0,02, R$ 0,03 de lucro é o mínimo que um local pode arrecadar por litro para conseguir sobreviver. Abaixo disso é impossível um local permanecer aberto." O que ocorre em Diadema - que está no nível de possibilidade de adulteração igual ao de São Paulo -, segundo Batistella, é a procedência do combustível. "A maioria dos postos na cidade compram o produto bandeira branca, que são aqueles que não vêm de uma empresa como Shell, Ipiranga, entre outras, que são regulamentadas." Ele explicou que essas revendedoras enviam semanalmente especialistas para inspecionar a qualidade da gasolina. Com as empresas bandeira branca, segundo o presidente do sindicato, não existe esse tipo de controle. "Assim fica difícil até pra gente controlar", ressaltou. Segundo o levantamento da ANP, postos com revenda de bandeira branca na cidade somam 18, ou 69,23% do total.O gerente do Auto Posto Sete Luas, em Diadema, Emanuel Robson, desmente o afirmado pelo sindicato. Para ele, o valor cobrado pela gasolina não se refere somente à qualidade. "Aqui nós compramos muito combustível, então conseguimos um preço mais baixo", explicou. A revenda é bandeira branca, mas, mesmo assim, Robson garante a qualidade do produto. "A ANP veio aqui na semana passada e não detectou problema nenhum. Temos o certificado de qualidade da agência", ressaltou. No local, o litro do produto custa R$ 2,259.Adulteração Batistella explicou que a adulteração do combustível pode ser feita com solvente para tinta ou então com uma quantidade maior de álcool anidro na mistura da gasolina - atualmente é permitido 20% do produto na composição. Segundo o Sincopetro, os adulteradores aumentam a dose aceitável de álcool anidro - que é vendido livre de impostos - na composição da gasolina. O processo barateia o custo. "A mistura salta para 35%, 45%", explicou Batistella, do Regran. Com isso, de acordo com o presidente do Regran, os posto ganham de R$ 0,30 a R$ 0,40 a mais por litro. "Na mistura de álcool e solvente - que é mais perigosa - o ganho é ainda maior: de cerca de R$ 0,70. Com isso, não adianta querer competir com combustível adulterado." O álcool hidratado, utilizado para abastecer automóveis, é vendido com cobrança de tributos. Já o anidro, que é misturado à gasolina, não sofre cobrança de impostos, exatamente porque sua contribuição é computada no preço cobrado pela gasolina. Dessa forma, o litro fica mais barato, tornando a revenda mais "em conta".Outras cidades Santo André é a segunda cidade do Grande ABC com maior número de postos vendendo o litro a menos R$ 2,35 - cerca de 26,30%. Em seguida, estão São Bernardo do Campo, com 25,71%; Mauá, com 22,72%; e São Caetano do Sul, com 17,39%. Segundo a ANP, em Ribeirão Pires todos os postos vendem o produto pelo limite aceitável. Diadema também é o município da região onde há o menor e o maior preço cobrado pelo combustível: R$ 2,199 e R$ 2,699. Em São Paulo, a diferença é ainda maior: de R$ 2,170 para R$ 2,699. Batistella explicou que o preço pelo litro no Grande ABC ainda pode chegar a R$ 2,49. "A cobrança varia muito de acordo com a localização do posto. Há cidades, bairros, que cobram mais pelo aluguel do local", completou. PrejuízoNa hora de abastecer, por mais que o preço seja em conta, o consumidor precisa analisar o custo-benefício da compra. O conselho é do mecânico Fábio Sywon. "Tanto o solvente na mistura como o excesso de álcool podem atacar a bomba de combustível, que é a parte principal do carro." Segundo ele, o motorista deve desconfiar de que utiliza combustível adulterado quando o carro perde pressão, suas partidas se tornam demoradas, há falha durante o percurso e grande ocorrência de barulhos. "O prejuízo varia, de R$ 300 a R$ 1.500, isso se afetar as válvulas do cabeçote", explicou.O problema foi enfrentado há menos de um ano pela microempresária Maria Celina Mendonça. Moradora do Jardim Paulista, um dos bairros de alto padrão de São Paulo, ela abasteceu seu carro em um posto, aproveitando o baixo preço cobrado pelo litro da gasolina. "Eu via um monte de carro parando, e não achava que poderia ter algum problema", contou.A economia acabou não compensando. A microempresária começou a perceber que o rendimento de seu carro não era o mesmo. "Ele perdeu força, começava a ´tossir´", explicou. O gasto com a limpeza dos bicos injetores ficou em torno de R$ 100. "Era um dinheiro que eu não precisava gastar."Atualmente, Celina opta por postos que vendem o produto a um preço maior, mas que garantem a qualidade. Segundo ela, a revendedora na qual abasteceu com gasolina adulterada vende atualmente o litro a cerca de R$ 2,30. "Em outros locais cobram de R$ 2,49 a R$ 2,99", contou. Em caso de desconfiança, o consumidor pode exigir o certificado de qualidade da ANP.

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