Cinema divide França e EUA em acordo de livre comércio

Paris não admite abrir o mercado de produtos culturais, temendo perder espaço para ‘enlatados’ estrangeiros

Andrei Netto, correspondente de O Estado de S.Paulo,

20 de junho de 2013 | 21h38

PARIS - As negociações para um acordo de livre comércio entre os Estados Unidos e a União Europeia, que começaram nesta semana, já sofrem sua primeira polêmica que pode resultar no travamento das discussões.

O governo da França deseja vetar a inclusão do comércio de bens culturais no acordo, para proteger sua indústria cinematográfica da invasão americana.

O tema é sensível porque o presidente americano, Barack Obama, e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, querem uma negociação ilimitada. A França, que tem poder de veto, não aceita, com apoio parcial da Alemanha da chanceler Angela Merkel.

O assunto virou uma polêmica internacional durante a última reunião de cúpula do G-8, no início da semana, quando o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, acusou indiretamente o presidente da França, o socialista de François Hollande, de "reacionário" por bloquear as negociações entre os dois lados do Atlântico.

O embaixador dos Estados Unidos para a União Europeia, William Kennard, reafirmou que Washington exige que todos os setores da economia estejam incluídos nas discussões.

"Queremos que nossos negociadores tenham a liberdade de ter todos os temas na mesa", afirmou Kennard em Bruxelas. "Temos uma oportunidade histórica. Estamos em um momento de nossas relações com a União Europeia no qual há mais incentivo para cooperar do que para competir."

Divergência. O governo da França, porém, entende diferente. Na quarta-feira, a ministra da Cultura francesa, Aurélie Filippetti, classificou o veto francês ao livre comércio de produtos culturais como "uma grande vitória sobre a qual não é mais possível voltar atrás".

Segundo a ministra, porém, "é preciso continuar vigilante e mobilizado, porque o que acontece na Comissão Europeia revela uma vontade muito clara de enfraquecer uma certa concepção da cultura na Europa e de enfraquecer os mecanismos de financiamento do cinema europeu".

A defesa da chamada "exceção cultural francesa" tem uma razão além do soft power diplomático que essa indústria representa. Segundo cálculos do governo da França, o cinema movimenta € 17 bilhões por ano e cria um milhão de empregos na União Europeia.

O problema é que, segundo Washington, a indústria cinematográfica francesa é sustentada por incentivos fiscais que tornariam desigual a concorrência com os produtos culturais americanos.

O objetivo das partes é encerrar o acordo de livre comércio entre os dois lados do Atlântico até dezembro de 2014.

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