Cisão de Tenda e Gafisa tem desafios

Dez meses após a Gafisa, dona da Tenda, anunciar o início de estudos para a separação das duas companhias, o desfecho do processo ainda é incerto. Diante da complexidade da operação e da pendência de acordos com credores, a conclusão do processo é esperada só a partir do segundo trimestre de 2015, disseram executivos da Tenda ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado. "No primeiro trimestre, com certeza não vai sair. Talvez a partir de abril ou maio existam condições", afirmou o diretor de finanças e relações com Investidores, Felipe Cohen, ponderando que ainda há pouca clareza para uma estimativa precisa.

O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2014 | 02h02

Para a cisão avançar, o principal obstáculo da diretoria está em fazer com que a Tenda se transforme em uma empresa capaz de se financiar e dar retorno aos acionistas, uma vez que suas operações ainda são deficitárias. Outro ponto é que, ao se tornar uma companhia independente, a Tenda deixará de contar com a Gafisa como fiadora. A Tenda possui atualmente R$ 470 milhões de dívidas com garantias apresentadas pela sua controladora e que precisarão ser renegociadas com os credores - Caixa e Banco do Brasil. O principal componente dessa dívida é uma debênture emitida em abril de 2009, cujo valor principal é de R$ 600 milhões e do qual restam R$ 409 milhões a serem amortizados.

Conforme consta em formulário de referência, a emissão teve recursos do FGTS, gerido pela Caixa, e foi destinado para a empreendimentos residenciais. O problema da debênture é a cláusula que prevê a liquidação antecipada do saldo devedor em caso de alienação do controle da Tenda - o que ocorreria com a cisão.

Um escritório sempre a serviço do devedor   

Juliana Bumachar representa a terceira geração do Bumachar Advogados Associados, escritório carioca especializado em recuperação judicial e falências. E dono de uma particularidade: só aceita como clientes as empresas devedoras. Após as eleições presidenciais, a advogada de 36 anos, que comanda o escritório, viu o seu trabalho aumentar exponencialmente. "Várias das empresas que haviam apenas nos consultado na primeira metade do ano estão voltando decididas a entrar com o pedido de recuperação judicial", afirma Juliana. Só neste fim de ano, a empresa já entrou com quatro processos de recuperação judicial.

Por que um escritório especializado na ponta devedora?

Com esse posicionamento, não há conflito. Seria difícil estar em um dia representando um devedor e, no dia seguinte, um credor. Atender apenas a uma das pontas facilita as relações e diminui os conflitos de teses jurídicas.

Há setores mais problemáticos? Setor automotivo, indústria de metais e varejo de moda são alguns deles. Todos esses segmentos estão sendo fortemente afetados pela conjuntura econômica atual: alta do dólar, queda do preço das commodities, retração do consumo e do crédito, além do aumento da inflação.

Muito já se criticou a eficiência dos processos de recuperação no País. Isso tem melhorado?

Em 2005, com a entrada em vigor da Lei 11.101, de 2005, houve muitos avanços. Ainda há necessidade de aperfeiçoamento, mas a nova legislação tornou possível o acordo entre credor e devedor, permitindo que este possa manter as suas atividades, possibilitando o cumprimento do plano aprovado pelos próprios credores, que receberão seu crédito dentro da capacidade financeira da empresa.

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