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Citi foi maior credor privado da dívida externa brasileira

Junto com o Banco do Brasil, o Citibank era o 'porto seguro' nas crises econômicas, comuns a partir dos anos 70

JOSÉ PAULO KUPFER, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2013 | 02h03

Não deve ser muito fácil, para quem tem menos de 50 anos, dimensionar o esforço que terá de ser feito pelo Citibank para cumprir a meta de retomar a relevância que já teve no Brasil. É preciso recuar até pelo menos os anos 80 e recuperar um dos períodos mais turbulentos da história econômica brasileira.

Foi naquele tempo em que a economia refletia o esgotamento do regime militar, com crises externas recorrentes, que o Citi ocupou um lugar de protagonista. Para o bem ou para o mal, ele era o maior credor da dívida externa brasileira e, como tal, exerceu enorme influência, não só nas idas e vindas da política econômica, mas até mesmo na vida cotidiana das pessoas.

Era comum assistir, em meio às frequentes e profundas crises que paralisavam a economia, às corridas dos correntistas na ânsia de transferir seus recursos aos guichês de depósito do Banco do Brasil ou do... Citibank. Num período em que o sistema bancário brasileiro começava um processo de consolidação, com número ainda grande de bancos médios e regionais, o estatal brasileiro e o bancão americano eram considerados os únicos portos seguros.

A década de 80 - a "década perdida" da economia brasileira que, na verdade, começou ainda nos anos 70, regurgitando o "milagre econômico" de meados dos anos 60, e se estendeu até o Plano Real, já no meio dos 90 - presenciou duas moratórias da dívida externa, em 1982 e 1987. Durante as respectivas renegociações, o País se tornou dependente de recursos externos com origem em instituições multilaterais, como FMI e Banco Mundial, e de operações especiais estruturadas por grupo de bancos, quase sempre liderados pelo Citi.

Esse período, caracterizado na economia internacional pela reciclagem dos "petrodólares", também é marcado por uma expansão acelerada de bancos americanos pelo mundo e pelo início do processo de desregulamentação do sistema financeiro, embrião, para muitos, do crash de 2008.

É nessa época, que, também no Brasil, o Citi ganhou mercado. O avanço foi simbolizado pela construção da nova sede, na Avenida Paulista, novo coração financeiro da maior cidade latino-americana. Inaugurado em 1986, o prédio, de vidros azuis, se destaca na arquitetura predominantemente contemporânea da Paulista.

Mas o maior símbolo da evidência assumida pelo Citi no País, naqueles tempos, tinha rosto humano - um rosto com óculos de aros finos. William (Bill) Rhodes, vice-presidente do Citi, presidente do comitê de bancos estrangeiros que coordenou a reestruturação da dívida brasileira, já na moratória de 1982, tornou-se figura frequente nos gabinetes oficiais e na mídia.

A estabilização trazida pelo Plano Real propiciou uma reforma financeira que abriu espaço para ingresso de novos estrangeiros. De 1995 a 2000, o patrimônio líquido das instituições sob controle de capital externo saltou de 10% para 30% do sistema bancário. A disputa por fatias maiores nos setores mais populares, aos quais se lançaram os novos participantes do mercado, como HSBC, Santander e ABN-Amro, que aqui chegaram absorvendo instituições de grande porte, obrigou o Citi a sair da zona de conforto e disputar segmentos em que não se mostrava à vontade, nem mesmo nos EUA, onde uma megafusão com o gigante e popular Travelers nunca foi bem digerida. Sem definir uma clara estratégia no País, o Citi entrou numa fase de ações erráticas, que fragilizaram sua posição e tiraram-lhe o fôlego quando a crise de 2008 quebrou suas pernas.

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