Wilton Junior/Estadão - 31/8/2017
Produção em fábrica da Casa da Moeda, no Rio. Wilton Junior/Estadão - 31/8/2017

‘Claro que eu uso Pix’, diz chefe da Casa da Moeda

A Casa da Moeda não está ligada diretamente ao Banco Central, mas presta serviço à autarquia.

Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2021 | 11h10

Até o presidente da Casa da Moeda, que é a fabricante do dinheiro no Brasil, se rendeu: “Claro que uso o Pix”, diz Hugo Cavalcante Nogueira, vice-almirante da Marinha na reserva. Ele não rebate quem conta os dias para o fim do dinheiro em papel, mas diz que vai ser uma mudança “apenas para os meus netos”. “Virar peça de museu? Sim. Só muito mais para frente.”

No cargo há um ano, o militar diz que, de 2016 a 2020, houve crescimento da produção de cédulas. Para este ano, não apenas há expansão, como a expectativa é de bater o resultado de 2020. “As classes C, D e E trabalham muito com o dinheiro, confiam muito no papel.”

A Casa da Moeda não está ligada diretamente ao Banco Central, mas presta serviço à autarquia. É o BC, por exemplo, que determina a quantidade de dinheiro a ser produzido no País. A capacidade máxima de produção anual é de cerca de 3 bilhões de notas e de 4 bilhões de moedas, e a estatal, com sede no Rio de Janeiro, atende também à demanda de outros países. “Quem pode dizer o futuro do papel-moeda é o BC”, diz o presidente. “Nossa geração e dos nossos filhos ainda vão conviver com cédulas e moedas. Já os nossos netos vão viver um novo mundo...”

O faturamento no ano passado com cédulas nacionais foi de R$ 1,9 bilhão, acima da marca de R$ 1,7 bilhão de 2019 e bem mais do que os R$ 954 milhões de 2015. Para este ano, a expectativa é de um faturamento pouco menor, de R$ 1,8 bilhão. Mas, considerando os dados contábeis da empresa, Nogueira aposta em um ano mais saudável e  e sem aportes do Tesouro. 

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Com o Pix, circulação de dinheiro em espécie diminui em R$ 40 bilhões

Em operação há um ano, o sistema de pagamento instantâneo do Banco Central fez cair em 10,5% o valor de moeda em espécie em circulação no País

Eduardo Rodrigues e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2021 | 05h00

Quarenta bilhões de reais em espécie deixaram de circular no País de janeiro a outubro deste ano, uma queda de 10,5% em relação ao final do ano passado, após um ano de Pix, o sistema de pagamento instantâneo do Banco Central que caiu no gosto do brasileiro. Se essa dinheirama fosse enfileirada em notas de R$ 100, daria para dar uma volta e meia no mundo. 

Com adesão em massa de famílias e de empresas, o Pix – que completa um ano na próxima terça-feira – já tem quase 350 milhões de chaves individuais cadastradas e movimenta mais de R$ 550 bilhões por mês, em cerca de 1 bilhão de transações.

Destas, o diretor de Inovação, Produtos e Serviços da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Leandro Vilain, acredita que entre 80% e 90% substituíram as operações antes feitas em espécie. 

Isso porque a queda absoluta de transações via TED entre novembro de 2020 e setembro de 2021 (192 milhões para 94 milhões) e DOC ou cheque (45 milhões para 25 milhões) é pequena se comparada ao crescimento espetacular da quantidade de operações com Pix, de 34 milhões para 1 bilhão. A taxa de expansão é de 2.959%. 

“O Pix só pode ter substituído as transações em dinheiro. Se esses dados se sustentarem ao longo do tempo, seria um dos maiores programas de inclusão financeira de que se tem notícia”, avalia Vilain. O diretor da Febraban ressalva que a comparação com o ano passado ainda não é ideal, já que a economia estava impactada pela crise da covid-19.

 Para suprir a demanda das famílias por dinheiro durante a pandemia, o BC anunciou em setembro de 2020 a fabricação de 450 milhões de notas de R$ 200, a um custo estimado de produção de R$ 325 para cada milhar de cédulas. Não houve nem prazo para adaptar o maquinário da Casa da Moeda para fabricar uma nota maior do que a de R$ 100, restando ao lobo-guará o mesmo formato da cédula de R$ 20, do mico-leão-dourado.

A urgência se devia ao auxílio emergencial de R$ 600 por mês para quase 68 milhões de pessoas, o que levou a uma corrida para sacar os recursos. Passado pouco mais de um ano, boa parte da população nunca chegou a ter um lobo-guará em mãos. Os dados mais recentes do BC mostram que apenas 84,6 milhões de notas de R$ 200 estão efetivamente em circulação, em um montante de R$ 16,9 bilhões. 

O papel-moeda emitido no País chegou a saltar 48,2% nos 12 meses até agosto do ano passado – nas vésperas do lançamento da nova cédula. Agora, porém, já há uma inversão dessa trajetória, com redução de 7,1% no dinheiro físico nos 12 meses até outubro deste ano, mesmo com o governo renovando os pagamentos de auxílios e com a recuperação da economia após a pandemia.

O BC argumenta que o uso do papel-moeda este ano só está retornando ao padrão histórico após um 2020 atípico. “Não temos ainda estudos que correlacionem ou comprovem os dois eventos (queda no uso de papel moeda e Pix)”, disse o órgão, em nota.

Profecia.

Bruno Magrani, diretor-presidente da associação de empresas de serviços financeiros digitais Zetta, avalia que a popularização das fintechs está conectada à redução da demanda pelo papel-moeda nos últimos anos, já que as empresas de tecnologia financeira aumentaram o leque de produtos e serviços. As fintechs em sua maioria usam a moeda eletrônica, via cartões e transferências, sem o manuseio de dinheiro em espécie.

“O dinheiro impresso está com seus dias contados, deve virar peça de museu”, diz o executivo. “A migração do papel-moeda para o dinheiro digital traz diversos ganhos de eficiências, como o custo de impressão e de distribuição.”

Para Vilain, da Febraban, o Pix é mais um passo em uma longa estrada de digitalização dos serviços financeiros, fruto dos investimentos do setor bancário nos últimos 20 anos, que só deve se aprofundar. Em 2020, pela primeira vez, as transações bancárias realizadas em aplicativos de celular superaram mais da metade do total, segundo pesquisa da Febraban. Com o canal de Internet Banking, representam 67% das transações.

“O Pix caiu mesmo no gosto dos lojistas e dos consumidores, já sendo tão aceito como o dinheiro e os cartões na maioria dos estabelecimentos”, diz o gerente executivo da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL), Daniel Sakamoto. “É rápido, fácil, sem custo. O lojista gosta muito, porque não paga taxas, recebe na hora e não precisa gerenciar papel-moeda no caixa.”

Conforme estudo da CNDL com o Sebrae, dois terços dos brasileiros mudaram os hábitos de pagamentos na pandemia. Destes, 44,6% passaram a usar mais transferências eletrônicas. “A moeda física continua entre as maiores preferências do brasileiro que tem o dinheiro contado. Mas, aos poucos, o Pix vai ganhando espaço entre essa população”, diz Sakamoto. “O nosso recado diário é para que os lojistas, mesmo sem grandes investimentos tecnológicos, digitalizem seus processos para atender a esses clientes.”

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