Classe C deve mudar perfil de consumo

Indústria e varejo estão atentos para tentar se adaptar ao novo consumidor

Márcia De Chiara e Andrea Vialli, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2008 | 00h00

O freio no consumo da classe C terá impacto no desempenho da indústria, especialmente entre os fabricantes de eletrodomésticos. "Viemos de três anos de crescimento intenso, puxado pela classe C", diz Jerome Cadier, diretor de Marketing da Whirlpool, dona da tradicional Brastemp e da popular Consul.A empresa esperava crescer 20% neste ano, mas Cardier diz que deverá "encerrar 2008 com expansão entre 8% e 10% e algo em torno de 3% para o ano que vem." O executivo não descarta a possibilidade de não crescer em 2009. A Latina, fabricante de lavadoras semi-automáticas, os populares "tanquinhos", também está cautelosa. A empresa espera crescer 5% em 2009. Este ano ampliou em 40% os negócios em novos produtos, como purificadores de água e ventiladores, e cresceu 20% em lavadoras. "2008 começou bem e terminou mal", diz o presidente da empresa, Valdemir Dantas. Apesar da revisão nas expectativas, ele acredita que pode se sair bem, mesmo com a estagnação da classe C. "O consumidor que planejava comprar uma lavadora automática vai se contentar com um tanquinho."Para Haroldo Torres, sócio-diretor do instituto Data Popular, os produtos de maior valor, cujas vendas dependem do crédito, serão mais afetados. Mas, na sua avaliação, o sucesso nesse novo mercado depende da capacidade de adaptação. "A classe C deve reconfigurar sua cesta de consumo, migrando para marcas mais baratas."Num primeiro momento, diz Marcos Pazzini, sócio-diretor da Target Consultoria, no susto, as empresas tendem a tirar o pé do acelerador. Mas, com o passar do tempo, devem mudar as condições de venda e até a oferta de produtos para não perder esse mercado. A Positivo Informática, que tem 60% dos clientes na classe C, alterou a linha de produtos para o Natal. Apesar do aumento dos custos em dólar, manteve os preços dos computadores, mas ajustou a configuração das máquinas: os monitores estão menores e os chips, menos potentes. Essa foi a forma encontrada para manter o ritmo vendas, diz o diretor de Marketing, César Aymoré. "Como a posse de computadores entre as famílias de classe C é de apenas 25%, há espaço para crescer." Mas, na dúvida, a empresa aumentou a produção de notebooks para conquistar o consumidor de maior poder aquisitivo. Há um ano, os notebooks representavam 20% das vendas. Hoje respondem por 30%.A Living, divisão de imóveis econômicos da Cyrela, alterou os critérios para vender apartamentos. A parcela de comprometimento do orçamento do comprador com a prestação, que era de 30%, foi reduzida para 25%, diz o diretor de Novos Negócios, Antonio Guedes. Ele acredita que a empresa fará uma adequação ao novo cenário, mas ressalta que a participação dos imóveis de menor valor total de lançamentos será mantida em 30%.SUFOCOO que preocupa as empresas é a eterna busca pelo equilíbrio financeiro da Classe C. São histórias como a da técnica em enfermagem Vilma Regina Venâncio, de 43 anos, moradora do Itaim Paulista. Ela passou por vários sufocos neste ano e só agora conseguiu colocar as finanças em ordem. Mãe de duas meninas, não conseguiu pagar a escola da mais velha e agora decidiu mudá-la para uma instituição mais barata. "A gente não sabe o que vai acontecer no ano que vem. Aprendi a lição. Vou mudar hábitos e me precaver se os dias forem bicudos," diz. Vilma acredita que a melhor opção é pesquisar até encontrar produtos baratos. O ano novo também vai começar com mudanças na cozinha. Ela decidiu fazer pequenos cortes nas despesas. "Em vez de comprar um quilo de carne, vou comprar apenas meio", afirma.OPORTUNIDADESA história de Vilma representa não só as preocupações das empresas, mas também as oportunidades. Mesmo com a perspectiva de ter seu poder de consumo estagnado, a importância da classe C não pode ser subestimada, especialmente nas compras de produtos básicos, como alimentos, artigos de higiene e limpeza e vestuário. "Apesar da freada, a classe C não perde sua importância relativa", afirma Torres, do Data Popular. Segundo o especialista, 31% das famílias estão nessa faixa. E essa camada da população tem maior predisposição ao consumo. Enquanto a classe A poupa 20% da renda, a C guarda só 5%.Indústria e varejo de alimentos estão atentas para essas mudanças. A Perdigão registrou um aumento de 13% na venda de salsichas. A explicação: como o preço dos alimentos subiu, a Classe C come mais salsicha e menos bife. O diretor financeiro da Perdigão, Leopoldo Saboya, prevê que essa tendência continue em 2009, por causa da queda no emprego e na renda."Quem vai sair ganhando será a indústria e o comércio de artigos de vestuário e alimentos", diz a diretora de Planejamento da agência de publicidade Talent, Mariana Cogswell. Ela observa que, mesmo que o bolo da massa de rendimentos da classe C diminua, esse consumidor vai procurar preservar o consumo de desses itens. "Mas o sonho de ascensão social será retardado."COLABOROU PAULA PACHECO

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