Classe média em apuros

Onda de desemprego ameaça estilo de vida americano

Cleide Silva, DETROIT, EUA, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

Para o prefeito de Warren, James Fouts, a onda de desemprego pode devastar a classe média americana. "Precisamos tentar salvá-la." Pertencente a essa camada social - normalmente famílias que têm uma casa confortável, viaja ao menos uma vez por ano e janta em restaurantes uma vez por semana -, o casal Tracy Crawford e Terry Marshall viu seu estilo de vida desmoronar.Funcionários da fábrica de autopeças RPM Plastics, ambos estão sem trabalho desde que a empresa reduziu a produção após a queda brusca de encomendas das montadoras. Marshall, de 62 anos, foi demitido em setembro. Tracy, de 47 anos, desde outubro está em lay-off, uma espécie de afastamento temporário em que o funcionário recebe apenas parte do salário."Para não atrasar nossas contas, estamos recorrendo a doações de comida e de roupas", conta Tracy. Até latas de alumínio eles recolhem para vender quando precisam completar o orçamento. Para a festa de Natal, ambos penhoraram suas alianças. "É a pior situação que vivemos em dez anos de casamento."A operária diz ser vergonhoso ter de buscar comida duas vezes por mês em uma entidade assistencial e recorrer ao Exército da Salvação para pegar roupas de inverno. Marshall afirma ser contra a ajuda indiscriminada do governo às montadoras. Acha que o governo deveria exigir que os executivos dessas companhias abrissem mão total dos elevados bônus que recebem.Todas as manhãs, o casal sai para procurar emprego. "Preenchemos 33 fichas em locais diferentes." Na quarta-feira, dia 14, eles foram à Agência de Desemprego, órgão governamental instalado no prédio que até 2000 abrigou a sede da GM. Não conseguiram nada. O departamento atende em média 400 a 500 desempregados por dia, informam funcionários. Aposentado desde março, após 30 anos de trabalho na Ford, Ron Lare, 63 anos, teme pelo futuro da filha de sete anos, adotada na China. Ele tem parte de seus benefícios aplicados em ações da montadora e o risco de perder tudo é grande. "Talvez eu morra antes de resgatar esses fundos, mas minha filha vai depender disso até os 18, 20 anos", diz ele, que recebe em média US$ 36 mil por ano.Lare conta que um trabalhador de produção ganha US$ 28 por hora nas montadoras americanas. Os que serão contratados daqui em diante vão receber US$ 14. "A Ford vai morrer se continuar pagando aos novos trabalhadores metade dos salários, pois quem vai comprar carros?", questiona, lembrando que o fundador da empresa, Henry Ford, defendia que cada trabalhador pudesse comprar seu automóvel.

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