Classe média mundial já tem 600 milhões de pessoas

Elas gastam por ano US$ 4 bi extras na economia, transformando os parâmetros do cenário internacional

Jamil Chade, da Agênia Estado,

14 de maio de 2008 | 19h08

Nos últimos seis anos, 600 milhões de pessoas em todo o mundo passaram a fazer parte da nova classe média mundial, mudando padrões de consumo e promovendo o que analistas estão chamando de "a maior revolução estrutural da economia que o atual século sofrerá". Brasil, Índia, países do Golfo Pérsico, Rússia e China estão transformando o cenário internacional e seriam os reais responsáveis pela alta nos preços de alimentos e combustíveis. Até 2050, essas economias emergentes podem até transformar o cenário internacional em uma competição por recursos naturais. Um estudo feito pelo instituto IMD, da Suíça, concluiu que essas milhões de pessoas que passaram a fazer parte da nova classe média mundial gastam por ano US$ 4 bilhões extras na economia, transformando os parâmetros do cenário internacional. "Nem socialismo ou qualquer outra tendência teve o impacto na economia mundial nas últimas décadas como a emergência da nova classe média terá neste século", afirmou Stephane Garelli, especialista do IMD, considerado pelo Financial Times como a melhor escola de administração do mundo. "Estamos vendo a criação de mercados domésticos, a explosão de economias como a do Brasil, índia e China. Tudo isso está gerando a maior revolução da economia mundial em décadas", disse. Segundo o estudo, o que o mundo vive hoje seria a "segunda onda da globalização" que iria até 2020. Na primeira, os principais beneficiários foram as populações dos países ricos. Agora, a incorporação de uma nova classe promete gerar nos desafios. "Essa nova classe média quer consumir, viajar e mudar seus padrões de gastos. Ela quer a felicidade e, agora, tem dinheiro para comprá-la", afirmou Garelli. Para o IMD, essa nova classe será "o motor do crescimento da economia mundial", mas também é a responsável pela inflação nos preços diante da maior demanda. Índia  Na Índia, cerca de 50 milhões de pessoas são consideradas como classe média. Em 2030, serão 580 milhões. Segundo o estudo, em 1970, 15,4% da população mundial viva em extrema pobreza, com menos de US$ 1,00 por dia. Hoje, essa taxa é de 5,5%. Hoje, já há mais milionários na Rússia e Índia que na Alemanha ou Inglaterra. Dos quatro indivíduos mais ricos do mundo, dois são de países emergentes: o mexicano Carlos Slim e o indiano Mukesh Ambani.  Mas o que o IMD destaca que, em termos de consumo, há ainda muito espaço para que esses mercados emergentes avancem. Na China, apenas 40% do PIB é destinado ao consumo, contra uma média de 60% nos países ricos. Os dados, portanto, sugerem que empresas multinacional devem criar novos modelos de seus produtos para atingir essa classe que acaba de deixar a linha da pobreza e pode começar a consumir carros como o da Tata, de US$ 2,5 mil e computadores de US$ 100,00. Pequenas e médias empresas Outro fator relevante e que terá um impacto de maior longo prazo é a criação de pequenas e médias empresas por parte dessa classe média. "Nos Estados Unidos e Europa, a prosperidade veio dessas empresas. Portanto, a nova classe média nos países emergentes não significa apenas maior consumo, mas uma revolução estrutural", afirmou Garelli. Tensão Mas o IMD também prevê que essa nova estrutura poderá causar turbulência no futuro. Em uma eventual terceira onda da globalização, entre 2020 e 2050, a concorrência entre os emergentes e as tradicionais potência poderá gerar tensões. Hoje, a China já consome 19% do alumínio do mundo, 20% do cobre, 27% do aço e 47% de cimento. "Como resultado, preços atingem níveis recordes", afirmou o estudo. No que se refere ao petróleo, consumo aumentará de 86 milhões de barris por dia para 130 milhões em 2030. 45% desse crescimento ocorrerá por causa da demanda da China e Índia.  O consumo de alimentos não será diferente. O Banco Mundial estima que consumo de trigo aumentará em 50% até 2030 e 85% em carnes. Se a primeira onda de globalização foi marcada pela deflação entre 1985 e 2000, a segunda poderá ser a da volta da inflação. Já a terceira onda será nem da deflação nem da inflação, mas sim da tensão.

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