ANDY WONG/AP - 21/09/2021
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Cláudia Trevisan: 'Crise da Evergrande reflete desejo de mudança estrutural na China'; leia análise

Governo de Xi Jinping quer reduzir peso de setor imobiliário e grau de endividamento da economia, mas há turbulência no curto prazo

Cláudia Trevisan, Especial para o Estadão

23 de setembro de 2021 | 18h40

Por trás da crise da Evergrande há duas prioridades do governo que podem mudar de maneira estrutural o modelo de desenvolvimento da China: a redução da dependência do endividamento para turbinar o crescimento e a diminuição do peso do setor imobiliário na composição do PIB. A dúvida é se a determinação das autoridades de Pequim sobreviverá às turbulências de curto prazo desencadeadas pelo risco de quebra da segunda maior incorporadora imobiliária do país.

O objetivo de Xi Jinping é alcançar um modelo de desenvolvimento que seja sustentável no longo prazo, com menor grau de endividamento, maior participação do consumo, expansão do setor de manufatura avançada e menor canalização de recursos para incorporadoras em benefício de tecnologias transformadoras - sem falar da meta de redução da desigualdade. 

O presidente chinês já havia deixado claro em 2017 que o gigantesco mercado imobiliário precisaria diminuir: “casas são para morar, não para especular”, declarou na época. Considerado de maneira ampla, com seus links indiretos, o setor responde por quase 30% do PIB. Sem muitas opções de investimentos, muitas famílias chinesas investiram em imóveis, cujo valor subiu de maneira espetacular nas últimas décadas. Segundo o Global Property Guide, o preço de imóveis na China é o quarto maior da Ásia, atrás apenas de Hong Kong, Japão e Singapura, regiões que possuem renda per capita pelo menos quatro vezes superior à chinesa.

No fim de 2020, Pequim anunciou medidas que restringiram a capacidade de endividamento das incorporadoras. Associadas às prioridades de Xi, as regras já tiveram impacto no destino dos empréstimos bancários. No fim de 2021, o volume de crédito concedido aos setores de manufatura e imobiliário teve expansão semelhante, próxima de 15%, na comparação com igual período de 2020. As curvas passaram a divergir desde então. No fim do segundo trimestre, os empréstimos destinados ao setor de manufatura registravam expansão superior a 40%, enquanto os dados a incorporadoras tinham crescimento inferior a 10%. Extremamente alavancada, a Evergrande passou a ter dificuldades para honrar seus compromissos.

Mas conter o setor imobiliário traz inúmeros riscos políticos para Xi. Na China, 90% das famílias possuem casa própria, um dos maiores índices do mundo. Nada menos que 75% da riqueza das famílias está atrelada à propriedade de imóveis, e poucos gostarão de ver seus preços despencarem. O destino do setor ainda tem impacto sobre o Brasil e suas vendas de minério de ferro, principal produto da pauta exportadora desde o início de 2021. 

A redução do grau de endividamento também traz ameaças. Professor de Finanças da Universidade de Pequim, Michael Pettis diz que para reduzir a dependência de crédito farto como propulsor do crescimento, as autoridades de Pequim têm de estar dispostas a aceitar um ritmo de crescimento inferior ao que consideraram tolerável até agora. “A habilidade da China de alcançar taxas de crescimento determinadas politicamente exige risco moral”, escreveu em seu blog China Financial Markets.

Segundo dados oficiais, a dívida da China como proporção do PIB cresceu 23,6 pontos percentuais só em 2020 e fechou o ano em 270,1%.

Xi pode estar olhando cada vez mais para o longo prazo. A ofensiva regulatória que tirou dezenas de bilhões de dólares em valor de mercado das gigantes do setor de tecnologia e dizimou o lucrativo setor de tutores particulares parecem indicar que as autoridades de Pequim estão mais dispostas a aceitar efeitos colaterais negativos de suas estratégias. O desfecho da crise da Evergrande mostrará até onde Xi está disposto a ir. 

*DIRETORA EXECUTIVA DO CONSELHO EMPRESARIAL BRASIL-CHINA E EX-CORRESPONDENTE DO ESTADÃO EM WASHINGTON E PEQUIM

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