Clientes quebram contratos e cortam pedidos

Crise derruba vendas e obriga exportador a renegociar contratos e reduzir preços para evitar mais prejuízos

Renée Pereira, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

Desde o agravamento da crise internacional, em setembro do ano passado, com a quebra do banco Lehman Brothers, a vida de muitos exportadores brasileiros tem sido superar cancelamento de pedidos, quebra de contratos e falta de crédito. "Nos últimos anos, o comércio exterior cresceu na faixa de 15% ao ano. Mas o mundo mudou. O mundo dos primeiros meses de 2008 não existe mais. É preciso adaptar", afirmou o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Giannetti.As exportações do setor, que até setembro bateram recordes, caíram nos últimos meses. Em novembro e dezembro, o comércio com a Rússia, principal mercado do Brasil, com 28% das compras, praticamente parou, diz José João Stival, conselheiro da Cooperativa dos Produtores de Carne de Gurupi (Cooperfrigo), que tem 1.100 cooperados.Ele conta que muitos produtos já embarcados tiveram de ser renegociados no meio do caminho para não perder a venda. "Isso significou descontos entre 25% e 50% do valor do negócio", disse. O volume de exportação caiu 30% em 2008.Ao contrário de outros mercados, a renegociação era a única alternativa para reduzir os prejuízos. "Isso porque os produtos saem do Brasil já preparados e embalados conforme as regras de destino, com embalagens específicas." Segundo ele, com a queda do consumo no mercado internacional, muitos clientes decidiram desovar estoques, o que paralisou as negociações. "Hoje estamos voltando a conversar e fazer alguns contratos, mas não em grandes volumes."Entre os produtores de frango ocorreu o mesmo problema. Eles ficaram com navios parados nos portos da Rússia à espera de uma renegociação de contratos, diz Christian Lohbauer, presidente da Abef, a associação de exportadores de frangos.Outro desafio dos exportadores é a peregrinação pelos bancos para conseguir financiar as vendas externas. "O dinheiro desapareceu", diz Marcello Stewers, diretor de relações com investidores da Teka, empresa de cama, mesa e banho, cujas exportações caíram 28% em 2008. Desde o ano passado, o acesso aos adiantamentos de contratos de câmbio (ACCs) estão restritos e mais caros.Para o diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, José Ricardo Roriz, esse é um assunto que tem de ser atacado com mais firmeza. "As empresas médias precisam ter acesso aos ACCs. Temos competitividade. Não podemos perder espaço por causa desse tipo de entrave."O secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, diz que o dinheiro existe. "O problema é que não está chegando às médias empresas. Primeiro porque está caro. Segundo porque os bancos estão mais seletivos. Setores que tinham facilidade para conseguir dinheiro, hoje estão em dificuldades." Para resolver o problema, o governo vai contar com os bancos públicos. "Num momento de crise é preciso agir como se estivéssemos numa guerra", diz Roriz.

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