CNI: dados só retomam pré-crise no 1º semestre de 2010

Confederação Nacional da Indústria diz que recuperação do emprego será mais lenta

Renata Veríssimo, da Agência Estado,

07 de dezembro de 2009 | 13h08

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) espera que os indicadores industriais só retomem o patamar de setembro de 2008, quando houve o agravamento da crise financeira internacional, no primeiro semestre de 2010. No entanto, o gerente-executivo da Unidade de Pesquisa, Avaliação e Desenvolvimento da CNI, Renato da Fonseca, aposta que as vendas reais em novembro já registrarão um aumento em relação a novembro de 2008. Esse movimento, no entanto, não deve ser acompanhado por emprego, massa salarial e utilização da capacidade instalada. Ele lembrou que a recuperação desses indicadores ocorreu mais tarde do que nas vendas reais.

Em relação ao nível de utilização da capacidade instalada, Fonseca acredita que a tendência é de crescimento nos próximos meses, mas que o ritmo de elevação não deve ser muito acelerado. Fonseca destacou que os dados desse indicador mostram que ainda não há preocupação em relação a uma pressão inflacionária. O nível de utilização da capacidade instalada ainda está 2,5 pontos porcentuais abaixo de setembro de 2008.

Segundo os dados de outubro divulgados hoje pela CNI, sete dos 19 setores pesquisados já registram um crescimento das vendas reais (descontada a inflação) no acumulado de janeiro a outubro em relação ao mesmo período do ano passado. Entre estes setores estão alimentos e bebidas, papel e celulose, minerais não metálicos e outros equipamentos de transporte (que exclui veículos automotores).

Já no indicador de horas trabalhadas, apenas o setor de móveis não registra queda em relação ao período de janeiro a outubro de 2008. No emprego, praticamente todos os setores também registram uma redução no acumulado do ano. Apenas os setores de minerais não-metálicos e produtos químicos não registram dados negativos. Dos 19 setores, oito mostram um aumento da massa salarial real em relação a janeiro/outubro de 2008. Entre eles, alimentos e bebidas, produtos químicos, móveis, refino e álcool.

Fonseca avaliou que esse descompasso entre os indicadores de vendas e horas trabalhadas pode ser explicado pelo nível elevado de estoques. Segundo ele, isso permite que haja um aumento nas vendas sem reflexo na produção e nas horas trabalhadas. Ele lembrou que o indicador de horas trabalhadas demorou a mostrar uma retomada, enquanto as vendas reais cresceram em sete dos 10 primeiros meses de 2009.

Já em relação à massa salarial, Fonseca acredita que a elevação em alguns setores pode ser explicada por reajustes salariais ou por um maior fechamento de vagas em postos com salários menores. O economista da CNI Marcelo de Ávila lembrou que, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 93% dos reajustes concedidos no primeiro semestre deste ano foram iguais ou superiores à inflação, enquanto em 2008 foram 87%.

Em outubro, pelo segundo mês consecutivo, os três indicadores - de vendas reais, horas trabalhadas e emprego - registraram crescimento em relação ao mês anterior. Até agosto, pelo menos uma das variáveis estava negativa em relação ao mês anterior. Para Fonseca, os números de outubro indicam uma manutenção da recuperação da indústria. "Isso significa que vamos entrar 2010 com um nível elevado de crescimento", afirmou. Ávila disse que os dados de outubro mostram que as horas trabalhadas entraram no grupo de recuperação. O emprego, por exemplo, já registrava crescimento há quatro meses seguidos, depois de uma queda consecutiva de oito meses.

Câmbio

Fonseca disse também que não tem expectativa de uma reversão na valorização do real. Segundo ele, é preciso investir mais em medidas de competitividade em áreas como a da infraestrutura e promover desonerações tributárias para as exportações como forma de compensar a desvantagem cambial. "A desoneração das exportações ainda é difícil (na prática), porque há muito acúmulo de crédito", afirmou.

Fonseca observou que a retomada do crescimento da indústria no Brasil está sendo puxada pelo mercado interno e que, nos países desenvolvidos, a recuperação da economia não tem acompanhado a dos emergentes. "O setor externo ainda não entrou forte. As exportações não serão o carro-chefe em 2010. Além disso, os mercados estão mais competitivos, e o Brasil tem a desvantagem do real desvalorizado. Vamos ter dificuldades na recuperação dos mercados perdidos", afirmou.

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