Cobiçada pelo mercado, Copagaz descarta venda

"Eu não tenho tempo para morrer." Essa frase, dita assim, solta, fora de contexto, pode até não fazer muito sentido, soar estranha. Mas é tratada como um bordão dentro da Copagaz, companhia distribuidora de gás de cozinha. Aos 89 anos, Ueze Zahran, presidente do grupo, dono da frase, é um homem sem tempo. Workaholic assumido, ignora a idade e o processo de sucessão de sua empresa.

MÔNICA SCARAMUZZO, Agencia Estado

25 de novembro de 2013 | 08h47

À frente da Copagaz, Zahran comanda o grupo com mãos de ferro. Dá expediente diário e fica até tarde - só volta para casa à noite, a tempo de ver as novelas. "Choro dois lenços por capítulo", diz. Centralizador, quer detalhes de todas as áreas do grupo, estratégicas ou não, dizem pessoas próximas a ele.

O empresário é considerado uma lenda no setor de GLP (gás liquefeito de petróleo). Sem papas na língua, também costuma dar expediente em Brasília quando precisa discutir diretamente assuntos do interesse da Copagaz e do setor.

A Copagaz é uma empresa muita cobiçada. E Zahran sabe disso. Quinta maior companhia do setor, com participação de 7,9% no mercado de botijão de 13 quilos e outros segmentos, a Copagaz é objeto de desejo das outras quatro concorrentes.

Para a líder Ultragaz (grupo Ultra), com 23,2% de fatia de mercado, a aquisição a distanciaria da vice Liquigás (controlada pela Petrobrás), com 22,7%. A Supergasbras (da holandesa SHV Gas), com 21% de participação, e Nacional Gás (do grupo Edson Queiroz), com 18,9%, tornariam-se líderes com a compra do negócio.

"Todo mundo quer me comprar, mas nunca vou vender a minha empresa", afirma Zahran. Nunca pode parecer um pouco forte, mas ninguém da família ousa contrariá-lo.

O empresário, que tem quatro filhos - três mulheres e um homem - está cercado de parentes na companhia e quer que o controle do grupo não saia do seu clã. Em 2011, a Copagaz deixou de ser uma companhia limitada, tornando-se uma S/A (Sociedade Anônima), de capital fechado. Profissionalizar a gestão com executivos de mercado, nem pensar. Abrir o capital, então... "Nunca quis saber quanto me pagariam pela Copagaz."

Há dois anos, a Copagaz chegou a olhar os ativos de GLP da espanhola Repsol no País, vendidos em outubro do mesmo ano para o grupo Ultra. "Desisti do negócio porque os ativos deles eram arrendados", conta.

Pesado

Zahran comanda a Copagaz como se ainda fosse um simples comerciante. Filho de libaneses - seus pais vieram casados para o Brasil nos anos 20 e se instalaram em Bela Vista, cidade do Mato Grosso do Sul -, ele começou a trabalhar na adolescência no bar de seu pai.

Segundo filho de uma família grande, cinco homens e uma mulher, Zahran teve de pegar no pesado. Além do bar, tiveram uma padaria. Os negócios, contudo, não foram adiante.

A Copagaz nasceu em São Paulo, em 1955, quando Zahran já tinha deixado Bela Vista para tentar a sorte na capital paulista. "Achei que o negócio de distribuição de gás dava dinheiro e tinha potencial para crescer no Centro-Oeste. Decidi presentear minha mãe, que morava no Mato Grosso Sul, com um fogão a gás. Ela se encantou com a luz azul que se formava debaixo da panela. No Centro-Oeste, todo mundo era dependente da lenha e da querosene, que deixava sabor estranho na comida."

Quando criou a Copagaz, recebeu a concessão para trabalhar em São Paulo e no Mato Grosso. "Quando entrei nesse setor, percebi algumas aberrações. A Agência Nacional do Petróleo autorizava (à época) apenas as multinacionais a atuarem no Brasil inteiro. As empresas nacionais tinham posição regionalizada e sofriam a concorrência dos estrangeiros."

Levando às últimas consequências um dos bordões de um dos personagens do humorista Jô Soares - "Tirante o Aureliano, que fala, vice não fala" -, em alusão ao ex-vice-presidente Aureliano Chaves, o empresário diz que foi atrás do próprio para intervir pelo setor. "E deu certo. As nacionais conquistaram o resto do País."

Seu trânsito no governo federal é conhecido e é motivo de controvérsias. Fontes atribuem suas boas relações ao fato de ser dono de afiliadas da TV Globo no Centro-Oeste, o que lhe daria um poder de pressão extra.

Zahran passa ao largo desses comentários. "Quando precisam tratar de assunto espinhoso em Brasília, me chamam", rebate. Foi assim quando discutiu com a então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, em 2003, no início do governo Luiz Inácio Lula da Silva, a proposta de redução em R$ 10 dos preços do botijão de gás. "Fui lá para dizer que a conta não fechava, que as indústrias ficariam com margem negativa", diz. Desde então, conta, tornou-se amigo de Dilma.

Criador de cavalo árabe, Zahran conta que a presidente gosta desse assunto. "Eu a convidei para conhecer meus cavalos." Segundo ele, Dilma teria recusado o convite por estar no meio de uma visita oficial da qual o presidente Lula fazia parte no Mato Grosso do Sul.

Sua bandeira atual é discutir a instalação de separadoras de gás ao Estado - hoje o GLP é levado para o Centro-Oeste por caminhões-tanque. O projeto está em pauta há alguns anos, mas a Petrobras alega inviabilidade econômica. "Discuto isso desde 1995."

Seus planos futuros nunca excluem a Copagaz.

O empresário até já chegou a diversificar os negócios com esmagadoras de soja, posteriormente vendidas, exportou café, mas sempre está ao lado dos botijões. "Eu imagino a minha mãe em cada dona de casa que recebe o botijão", conta, logo acrescentando que tem muita coisa para fazer. "Põe tempo aí, que eu não tenho tempo para morrer agora." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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