Cobrança implacável

O governo Obama tem apenas 21 dias de milhagem rodada e querem que tenha conserto para o que até agora não teve. É muita impaciência.Em todo o caso, não dá mesmo para esconder que o Plano Geithner, destinado a garantir o resgate do sistema financeiro americano, deixa no ar mais perguntas do que respostas.A mãe de todas elas está em saber se, depois do colapso do Lehman Brothers, um governo responsável poderia deixar que um banco importante afundasse. Parece que não. Está em vigor uma espécie de consenso construído num desses fóruns informais de chefes de Estado ou de ministros de finanças de países ricos de que não se pode deixar que um banco importante quebre. O pânico que se segue a qualquer naufrágio desse tipo provoca mais estragos na economia real do que o que custaria o resgate do banco avariado.Essa imunidade ao castigo tem lá seu lado ruim, que é o de empurrar a administração dos bancos a lambanças de todo o tipo, especialmente quando tantos bilhões em socorro público estiverem, como agora, à disposição. É preciso enfrentar a sina.Isto posto, não dá para deixar de analisar a situação banco por banco, o que significa submeter sua contabilidade ao tal teste de estresse (veja o Entenda) de que fala o Plano Geithner. É possível que os peritos concluam que um grande número de bancos já não enfrente apenas uma crise de liquidez, mas um rombo patrimonial imenso. E, nesse caso, para não falir, esse banco precisa de injeção maciça de capital.Como fazer essa injeção de capital? Não há muita escapatória. Ou um mecanismo qualquer criado para dar conta dessa finalidade compraria os tais ativos podres dos bancos, os mesmos que levaram à situação de insolvência. Ou as autoridades tratariam de subscrever novas ações o que, no limite, implicaria estatização do banco. Questão subsequente consiste em saber por quanto comprar os ativos podres ou por quanto estatizar cada banco passível de estatização. E é nesse ponto que o Plano Geithner parece desprovido de soluções.Não basta dizer que essa estatização se faria por meio da compra das ações com títulos de longo prazo. É preciso saber com um mínimo de segurança quantos títulos emitir e por que valor. E isso implica ter noção do preço da ação do banco examinado, com ou sem sua carga de ativos podres. Além de comprar essas ações é preciso prover capital novo.E, levando-se em conta que uma participação enorme desses ativos podres são hipotecas que perdem preço diariamente com a desvalorização dos imóveis, é preciso saber também o que fazer para estancar esse derretimento e, em seguida, reverter o processo.O presidente Obama montou uma equipe econômica de sumidades em finanças que, desde a eleição, sabia o que teria de enfrentar. Parece improvável que desconheça a natureza do problema ou que tenha muito a aprender de outras fontes. Mas não se pode desconsiderar a hipótese de que, por injunções políticas quaisquer, tenha perdido o foco ou que, além de salvar os dedos, tenha pretendido conservar anéis demais. É o que se vai saber dentro de alguns dias.CONFIRATeste de estresse - O ex-diretor de Câmbio do Banco Central Alexandre Schwartsman explica como funciona o teste previsto pelo Plano Geithner.É uma simulação das perdas potenciais. O patrimônio do banco é submetido a cargas sucessivas. Se 30% dos seus ativos não forem honrados, quanto sobra de capital? E se forem 40%? E se forem 50%?... O processo dá ideia de quanto o banco aguenta em perdas e de quanto capital necessita.Outro jeito é trabalhar com desvalorização dos ativos. E se o banco receber apenas 80% do valor de face? E se forem apenas 60%? E se forem 30%?

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.