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Coca-Cola financia ONG que minimiza efeito de dieta

A companhia aliou-se a cientistas que defendem que as pessoas façam mais exercícios e preocupem-se menos com a redução de calorias

Anahad OConnor, THE NEW YORK TIMES

13 de agosto de 2015 | 02h04

A Coca-Cola, a maior fabricante de refrigerantes do mundo, está financiando uma nova solução baseada em estudos de cientistas para a crise de obesidade: para manter um peso saudável, faça mais exercícios e preocupe-se menos com a redução de calorias. A companhia aliou-se a cientistas que vêm falando deste assunto em revistas médicas, conferências e na mídia social.

Para ajudar a difundir este conceito, a Coca-Cola tem dado apoio financeiro e administrativo para uma nova organização sem fins lucrativos chamada Global Energy Balance Network, que defende a tese de que os americanos que querem emagrecer estão fixados demais no quanto comem e bebem e não dão muita atenção a exercícios.

"Grande parte do foco na mídia popular e na imprensa escrita é de que as pessoas estão comendo demais, acusando o fast-food, as bebidas adocicadas e assim por diante", afirmou Steven N. Blair, vice-presidente da associação em um vídeo institucional. "Basicamente não há nenhuma prova conclusiva de que esta é a causa."

Especialistas da área de saúde retrucam que esta mensagem é enganosa e faz parte de uma iniciativa da Coca-cola para desviar as críticas sobre o papel dos refrigerantes no aumento da obesidade e da diabetes tipo 2. E afirmam que a companhia está usando a organização para convencer a sociedade de que a atividade física pode contrabalançar uma dieta não saudável, apesar das evidências de que os exercícios têm um impacto mínimo sobre o peso comparado com o consumo de alimentos e bebidas.

A discussão ocorre no momento em que se observa uma intensificação dos esforços nos EUA para taxar os refrigerantes, bani-los das escolas e impedir que as empresas continuem com marketing dirigido às crianças. Nas últimas duas décadas, o consumo de bebidas com alto teor de calorias pelo americano médio caiu 25%. "As vendas da Coca-Cola estão diminuindo e observamos essa enorme reação do público e do Estado contra os refrigerantes", disse Michele Simon advogada especialista em assuntos ligados à saúde pública. "Esta é uma resposta direta às perdas registradas pela companhia."

Em causa própria. A Coca-Cola fez um enorme investimento na nova organização. Em resposta a pedidos baseados em registros do governo, duas universidades que empregam líderes da Global Energy Balance Network revelaram que a Coca-cola doou US$ 1,5 milhão no ano passado para a abertura da organização. Desde 2009, a companhia investiu US$ 4 milhões no financiamento de vários projetos para dois membros da organização: Blair, professor da universidade da Carolina do Sul, cuja pesquisa nos últimos anos contribuiu em grande parte para as diretrizes federais sobre atividade física, e Gregory A. Hand, reitor da Escola de Saúde Pública da Universidade da Virginia Ocidental.

Registros mostram que o website da Global Energy Balance Network está registrado na sede da Coca-Cola, em Atlanta. O presidente do grupo, James O. Hill, professor da Escola de Medicina da Universidade do Colorado, disse que a empresa registrou o website porque os membros da organização não sabiam como fazê-lo.

O departamento de relações públicas da Coca-Cola negou vários pedidos de entrevista com a encarregada da área científica, Rhona Applebaum. Em comunicado, a companhia declarou que tem uma longa história de apoio à pesquisa científica relacionada as seus produtos e questões como equilíbrio energético. "Nós nos associamos a alguns dos mais destacados especialistas na área de nutrição e atividade física. É importante para nós que os pesquisadores com quem trabalhamos compartilhem suas próprias opiniões e conclusões científicas, independente do resultado e somos transparentes e abertos às suas conclusões."

Blair e outros cientistas associados à Global Energy Balance Network declararam que a Coca-Cola não tem nenhum controle sobre o trabalho ou mensagem do grupo e não veem nenhum problema no apoio da companhia porque eles têm sido transparentes a respeito. Mas, a partir da semana passada, as páginas do grupo no Twitter e no Facebook que promovem a atividade física como solução para a obesidade, deixaram de fazer qualquer menção ao papel do alimento e nutrição e ao apoio financeiro da Coca-Cola. O website do grupo omitiu o financiamento da Coca-Cola até Yoni Freedhoff, especialista em obesidade na Universidade de Ottawa, escrever ao grupo inquirindo sobre o apoio.

Blair disse que foi um descuido que seria rapidamente corrigido. "Quando descobrimos que não tínhamos citado a Coca-Cola e outras fontes de financiamento, inserimos os dados imediatamente. Isso nos torna totalmente corruptos em tudo o que fazemos?"

Troca. O envolvimento da Coca-Cola na nova organização não é o único exemplo de pesquisa financiada por corporações. A Sociedade Americana de Nutrição e a Academia de Nutrição e Dietas foram criticadas por especialistas em saúde por formarem parcerias com empresas como Kraft, McDonald's, Pepsico e Hershey's. Especialistas em dietas também sofreram críticas por ter recebido dinheiro da Coca-Cola para apresentar o refrigerante como uma opção saudável de lanche. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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