LUCIANA DYNIEWICZ/ESTADAO
LUCIANA DYNIEWICZ/ESTADAO

Luciana Dyniewicz, ENVIADA ESPECIAL / BUENOS AIRES

12 Maio 2018 | 13h48

O anúncio feito pelo presidente da Argentina, Mauricio Macri, na terça-feira, de que seu governo está conversando com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para receber um financiamento fez com que o aposentado Francisco Bebeacua se recordasse de um dos períodos mais difíceis de sua vida: os anos seguintes ao colapso econômico do país em 2001.

À época, todo o dinheiro que tinha em sua poupança – o equivalente a US$ 5 mil – foi retido pelo governo, em uma tentativa do presidente Fernando de la Rúa de impedir a fuga de capitais. Parte dos primos de Bebeacua perdeu o emprego e sua filha mais velha, então com 22 anos, deixou o país para nunca mais voltar. Sem a perspectiva de um futuro, ela foi viver na Europa. “Foi um pesadelo. Houve gente que se suicidou porque a poupança de toda uma vida havia sido confiscada. Tenho medo do que vai acontecer na Argentina agora. Nenhuma empresa vai aguentar uma taxa de juros de 40%”, diz o aposentado.

A situação daquela época era diferente da atual, frisa a maioria dos economistas. Enquanto entre o fim da década de 90 e o início dos anos 2000 foram quatro anos de recessão, hoje a Argentina vem de uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,9% no ano passado, e a alta esperada pelo próprio FMI para este ano é de 2%.

“O governo está em uma situação complicada: a inflação não cede e o mercado pôs em dúvida o financiamento internacional do país. Mas não se compara com 2001”, diz o economista Ramiro Castiñeira, da consultoria argentina Econometrica. 

Os argumentos de Castiñeira, porém, não são suficientes para convencer a mulher de Bebeacua, a professora aposentada Graciela Cingolani. “O que estamos vivendo agora pode não ser igual a 2001, mas os primeiros passos são os mesmos. Salvo que uma variável mude, vamos pelo mesmo caminho”, argumenta.

‘Blindagem financeira’. Graciela se refere justamente ao pedido de ajuda ao FMI feito por Macri. Em dezembro de 2000, De la Rúa pegou um empréstimo com o FMI e outros organismos internacionais de cerca de US$ 40 bilhões, em uma medida batizada de “blindagem financeira”. A ideia era que os recursos servissem para pagar dívidas do país e aumentassem a confiança no mercado financeiro. Já a solicitação de Macri foi chamada, pelo seu ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, de “financiamento preventivo” e também deveria dar ao país credibilidade internacional, fazendo com que a moeda argentina, o peso, deixasse de perder valor. A Argentina é o país que vem sendo mais prejudicado pela valorização do dólar no mercado internacional, com as perspectivas de um aumento maior dos juros nos Estados Unidos – o que torna o mercado americano mais atraente aos investidores e afeta diretamente os países emergentes.

Além desse cenário externo desfavorável, a perda de credibilidade do Banco Central após o relaxamento da meta de inflação de 10% para 15% neste ano, a criação de um imposto sobre ganhos financeiros de investidores estrangeiros e a avaliação de que os déficits das contas públicas e externo continuam altos ajudaram a desencadear a crise no país. A turbulência financeira culminou com uma fuga de capital que desvalorizou o peso em 12% neste mês. Na sexta-feira, o dólar fechou em 23,01 pesos. 

Antes de recorrer ao FMI, o governo Macri tentou segurar a cotação da moeda vendendo reservas internacionais – já foram US$ 8 bilhões nas últimas semanas, tendo sobrado US$ 54,4 bilhões –, elevando a taxa básica de juros três vezes em oito dias, chegando a 40% ao ano, e reduzindo a meta do déficit fiscal de 3,2% para 2,7% do Produto Interno Bruto (PIB). O mercado, porém, continua bastante volátil.

Graciela afirma achar difícil que Macri consiga convencer os investidores a deixarem seu dinheiro no país, já que membros do próprio governo mantêm recursos fora. Segundo dados da Receita argentina, do patrimônio total do alto escalão do governo, 43% estão no exterior. “Que segurança tem um país onde os ministros mantêm seu dinheiro fora?”, questiona a aposentada. Ela e o marido também estão entre a grande parte dos argentinos que não acredita no sistema bancário nem na moeda do país: a poupança do casal é em dólares, escondida dentro de casa. “Depois de 2001, não confiamos em banco.”

Nova geração. Apesar de não terem vivido a última grande crise argentina, jovens também veem com desconfiança o pedido de ajuda ao FMI. Magali Kerzenblat, de 20 anos, estudante de Ciências Atuariais, afirma achar arriscada a medida, pois o empréstimo do Fundo virá com exigências em relação à economia da Argentina – possivelmente, metas para a dívida pública. “Nossa independência externa pode ser prejudicada, com o FMI pedindo para que o governo adote medidas que não favoreçam o país.”

A estudante de contabilidade pública Estefania Pingarro, de 22 anos, acredita que o momento atual da economia argentina é diferente do de 2001, mas lembra que há uma espécie de trauma no país. “Acho que (o empréstimo) pode ajudar. Parece que a taxa de juros não vai ser muito alta. Mas essa tensão (da população) tem a ver com nossa história. Sempre que fizemos uma dívida com o FMI, nos demos mal.”

Estefania não se lembra da crise de 2001, que levou 57,5% da população à pobreza. Tinha apenas cinco anos quando a Argentina deu um calote de cerca de US$ 100 bilhões – um dos maiores da história –, mas sabe que seus pais perderam tudo o que tinham poupado até então: o suficiente para comprar um imóvel. A compra da casa própria teve de ser adiada por dez anos. A estudante, que ainda é professora de hóquei, também já poupa em dólares.

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Luciana Dyniewicz, BUENOS AIRES

12 Maio 2018 | 13h58

Desde o começo deste mês, o argentino Pablo Toledo, de 52 anos, tem atualizado um caderninho diariamente. Nesse caderno, ele anota o preço dos instrumentos musicais vendidos na loja em que trabalha, na Rua Sarmiento, tradicional ponto de comércio do gênero em Buenos Aires. “Foi de um momento para o outro (que começou a ter de atualizar os preços rapidamente). Agora passo o tempo alterando preços, constantemente”, conta.

Segundo Toledo, essa mudança em seu cotidiano se deu em abril e se intensificou agora, em maio, numa tendência que acompanha a desvalorização do peso. Neste mês, em apenas 11 dias, a moeda argentina já perdeu 12,16% de seu valor. No ano, chega a 23% e, nos últimos 12 meses, são 49%. O resultado disso no cotidiano dos argentinos é que os importados estão cada vez mais caros, e essa inflação dos produtos vindos de fora tem se espalhado por toda a economia.

Toledo conta que os fornecedores têm repassado o preço dos itens aos poucos. “De uma lista de 500, primeiro aumentam uns 50 produtos. No outro dia, outros 50”, acrescenta. Nos últimos 40 dias, o preço dos produtos vendidos por Toledo subiu entre 15% e 20% – ajuste que foi repassado ao consumidor. Um violão montado localmente, mas cujas partes vêm da China, por exemplo, custava 5.700 pesos (cerca de R$ 890) na semana passada e agora está por 7.000 pesos (R$ 1,1 mil). Nesse caso, o incremento chegou a 22,8%.

No bairro San Telmo, Mario Pereira, dono de uma loja de ferramentas, conta que seus fornecedores lhe avisaram na quarta-feira que, a partir de amanhã, os produtos serão reajustados entre 10% e 15%. “Vou repassar o aumento só das ferramentas mais simples, mais baratas. As máquinas (como furadeiras) já estão saindo muito pouco. Se aumentar o preço, ninguém leva”, diz. 

Uma grande parte dos itens comercializados por Pereira é importada, mas, segundo ele, até os nacionais já estão sendo reajustados no mesmo patamar. “Aqui, na Argentina, tudo sobe quando o dólar sobe”, acrescenta. Até as sacolinhas plásticas que compra para colocar os produtos vendidos foram reajustadas em 17%. 

Inflação alta não é novidade na Argentina – quase sempre está acima dos 20%. No primeiro ano do governo de Mauricio Macri, em 2016, chegou a 40,3%, após uma desvalorização inicial de 40% do peso. No ano passado, a inflação foi de 24% e, para 2018, as projeções eram de 20% no começo do ano. Diante da desvalorização da moeda do país, entretanto, economistas afirmam estar revendo esse número. A consultoria Abeceb, por exemplo, deverá divulgar sua nova estimativa na quarta-feira.

 

 

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THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2018 | 14h11

As taxas de juros estão subindo e provavelmente colocarão os mercados financeiros sob pressão. Investidores e reguladores adorariam saber de onde virá a próxima crise. Qual é o culpado mais provável?

Crises financeiras tendem a envolver um ou mais desses três ingredientes: empréstimos excessivos, apostas concentradas e um descompasso entre ativos e passivos. A crise de 2008 teve aquela gravidade toda porque envolveu os três – grandes apostas em produtos estruturados ligados ao mercado imobiliário, balanços bancários que estavam sobrecarregados e também dependentes de financiamentos de curto prazo. A crise asiática do final da década de 1990 aconteceu porque as empresas tomavam muitos empréstimos em dólar e tinham receitas em moeda local. A bolha da Internet teve consequências menos sérias porque as apostas concentradas estavam em ações; a dívida não desempenhou um papel significativo.

Pode parecer surpreendente afirmar que a gênese da próxima crise provavelmente está à espreita na dívida corporativa. Os lucros vêm crescendo fortemente. As empresas do índice S&P 500 estarão rumo a um ganho anual de 25% quando forem publicados todos os resultados do primeiro trimestre. Algumas empresas, como a Apple, estão nadando em dinheiro.

Mas muitas outras não estão. Nas últimas décadas, as empresas têm buscado tornar seus balanços mais “eficientes”, elevando a dívida e aproveitando a dedutibilidade fiscal dos pagamentos de juros. Empresas com dinheiro de sobra tenderam a usá-lo para recomprar ações, seja sob pressão de investidores ativistas, seja para aumentar o preço das ações (e, portanto, o valor das opções dos executivos).

Ao mesmo tempo, um prolongado período de taxas baixas fez com que se tornasse muito tentador assumir mais dívidas. A agência de classificação de crédito S&P Global diz que, em 2017, 37% das empresas globais estavam altamente endividadas. Isso representa cinco pontos porcentuais acima dos números de 2007, pouco antes da crise financeira. Da mesma forma, mais acordos de private equity estão acumulando dívidas maiores, em um nível superior a qualquer outro momento desde a crise.

Um sinal de que a qualidade de crédito do mercado vem se deteriorando é que, globalmente, a classificação média dos títulos está caindo de maneira constante desde 1980, de A para BBB-. O mercado está dividido em títulos com grau de investimento (dívida com alta classificação de crédito) e especulativos, ou “lixo”, títulos que se encontram abaixo desse nível. A linha divisória está na fronteira entre BBB- e BB +. Então, o título médio se acha, agora, apenas um degrau acima do lixo.

A qualidade caiu mesmo entre as dívidas com grau de investimento. De acordo com o Pimco, um grupo de gestão de fundos, nos Estados Unidos 48% desses títulos agora estão classificados como BBB, bem mais que os 25% dos anos 90. Os emissores também estão mais endividados do que antes. Em 2000, o índice de alavancagem líquida para os emissores BBB era de 1,7. Agora é de 2,9.

Retornos maiores. Os investidores não estão exigindo maiores retornos para compensar a deterioração da qualidade da dívida corporativa; bem ao contrário. Em discurso recente, durante uma conferência na London Business School, Alex Brazier, diretor de estabilidade financeira do Bank of England, comparou o rendimento dos títulos corporativos com a taxa livre de risco (a previsão do mercado para a tendência das taxas oficiais no curto prazo). Na Grã-Bretanha, os investidores não estão exigindo que praticamente nenhum retorno excedente dos títulos corporativos reflita o risco de crédito do emissor. Nos EUA, o spread é o menor em 20 anos. Assim como as taxas baixas encorajaram as empresas a tomar mais dívidas, os investidores se sentiram tentados a comprar os títulos por causa dos baixos retornos disponíveis em dinheiro. 

Seguro. Brazier também revelou que o custo de fazer seguro contra um emissor de títulos que não consegue pagar, conforme medido pelo mercado de credit default swap, caiu 40% nos últimos dois anos. Isso faz parecer que os investidores estão menos preocupados com o calote corporativo. 

Mas um modelo que analisa a maneira como os bancos avaliam a probabilidade de inadimplência, compilado pelo Credit Benchmark, uma empresa de análise de dados, sugere que os riscos quase não mudaram nesse período.

Assim, os investidores estão recebendo menos retornos pela mesma quantidade de risco. Combine isso com o declínio da liquidez no mercado de títulos (porque os bancos deixaram de ser formadores de mercado) e você tem a receita para a próxima crise. Pode não acontecer este ano, nem mesmo no próximo. Mas já dá para ver alguns sinais ameaçadores.

Matt King, estrategista do Citigroup, diz que as compras externas da dívida corporativa americana secaram nos últimos meses e que o retorno sobre a dívida com grau de investimento até agora neste ano foi de -3,5%. Ele compara os mercados com uma dança das cadeiras. À medida que os bancos centrais retiram o estímulo monetário, eles vão tirando cadeiras da roda. Em algum momento, alguém vai ficar sem cadeira e desabar no chão./ TRADUÇÃO RENATO PRELORENTZOU

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