Coleção do banqueiro vai dos fenícios a Tunga

Embora falte coerência na organização do acervo, há peças valiosas de bons artistas como Kiefer e o americano Frank Stella

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2011 | 00h00

A coleção de arte do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, despejado no dia 20 de janeiro de sua casa no Morumbi, é certamente um acervo valioso não só em termos financeiros, mas museológicos. Há praticamente arte de todos os períodos, dos fenícios aos contemporâneos. Ao lado de urnas funerárias marajoaras, bustos romanos, terracotas chinesas, livros e mapas raros, estão representados os maiores nomes da fotografia mundial, pintores importantes da segunda metade do século passado e nomes da escultura moderna brasileira.

Não é uma coleção ortodoxa, no sentido de reunir peças de uma determinada escola ou período, mas eclética. Também por isso, é pouco coerente, marcada pelo espírito da época - ou pelo gosto dos emergentes, fascinados, por exemplo, pelas luminárias do designer alemão Ingo Maurer. Sua luminária dourada da sala de jantar, que parece uma tênia, foi avaliada em R$ 600 mil. Maurer faz pendant com dois pórticos barrocos (um original, outro réplica) com detalhes também dourados.

O gosto de Edemar foi formado pelas edições da Bienal de São Paulo, da qual foi presidente. Assim, artistas que participaram da mostra, como os norte-americanos Sol Lewitt e Spencer Tunick, passaram a fazer parte da coleção do ex-banqueiro. O minimalista Lewitt (1928-2007) projetou especialmente para a parede do hall de entrada da casa de Edemar uma pintura mural. De Tunick, o banqueiro conservou a foto da performance do americano na 25.ª Bienal, que reuniu dezenas de voluntários nus no Parque Ibirapuera, em 2002.

A coleção de fotografia de Edemar é a parte mais coerente desse acervo - não necessariamente a mais valiosa. O interesse do ex-banqueiro pela história fez com que ele fosse atrás tanto dos pioneiros da fotografia (Muybridge, Atget) como dos contemporâneos brasileiros (Miguel Rio Branco, Vik Muniz), passando pelos nomes mais cobiçados do mercado internacional (Ansel Adams, Richard Avedon, Mapplethorpe, Doisneau e Cartier-Bresson, entre outros). Só uma foto de Mapplethorpe (tiragem de dez exemplares) custa R$ 10 mil, ainda assim três vezes menos que uma impressão cromogênica do brasileiro Vik Muniz inspirada em Piranesi, cujo valor de mercado é de R$ 35 mil.

Esses preços são insignificantes comparados às pinturas da coleção do ex-banqueiro, que, condenado por gestão fraudulenta do Banco Santos, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, em dezembro de 2006, mandou duas delas para o exterior, uma do pintor figurativo uruguaio Torres Garcia (1874-1949) e outra de Roy Lichtenstein (1923-1997), ambas recuperadas com a ajuda do FBI e repatriadas. Lichtenstein é um dos pilares do movimento pop americano e alcançou US$ 42,6 milhões num leilão recente da Christie"s.

Outra obra representativa do movimento da nova abstração que antecedeu o minimalismo americano (nos anos 1960), a de Frank Stella, está representada na coleção, cujo forte, em termos pictóricos, é a seção dedicada à transvanguarda italiana. Há telas de Clemente, Sandro Chia e Enzo Cucchi, todas em torno de R$ 300 mil. Há também telas de pintores alemães surgidos na mesma época dos transvanguardistas italianos (anos 1980), os neoexpressionistas alemães Anselm Kiefer e Baselitz (ambos com pinturas no valor aproximado de R$ 400 mil cada).

A arte brasileira tem seus principais nomes das escolas modernista e contemporânea (como Tunga) representados na coleção. Os concretos e neoconcretos são poucos (uma escultura de Amilcar de Castro, entre eles). Entre os modernos, destacam-se Portinari (uma paisagem que alcança facilmente R$ 900 mil no mercado) e um pequeno Volpi de R$ 170 mil.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.