DIDA SAMPAIO/ESTADAO
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No Relatório de Inflação divulgado nesta terça-fica enfatizado que o Banco Central não pode tudo no combate à inflação, depende da condução correta dos fundamentos da economia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2016 | 21h00

Quem leu o Relatório de Inflação e acompanhou a entrevista do novo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, pode ter saído com dúvidas, o que é normal, mas sentiu mais firmeza na condução da política monetária.

Divulgado a cada três meses, este é o principal documento por meio do qual o Banco Central conduz as expectativas dos agentes econômicos, sobretudo aqueles que definem os preços da economia. E o Relatório divulgado nesta terça-feira é o primeiro editado sob a nova direção.

Ficou lá enfatizado que o Banco Central não pode tudo no combate à inflação. Depende da condução correta dos fundamentos da economia, especialmente da administração equilibrada das contas públicas.

Até a véspera da edição do Relatório, havia forte expectativa entre os analistas de que o Banco Central estivesse disposto a esticar o prazo de convergência da inflação para a meta de 4,5% ao ano para depois de 2017. O objetivo dessa manobra seria a redução mais rápida dos juros básicos (Selic), hoje nos 14,25% ao ano. Mas Goldfajn avisou, na entrevista concedida após a divulgação do documento, que esse recurso não era necessário. Embora as projeções do Banco Central apontem para uma inflação de 4,7% no próximo ano, o objetivo é emplacar os 4,5%.

Qualquer um sabe que o maior obstáculo para isso seriam eventuais novos tropeços da política fiscal. Mas o Banco Central não trabalha com essa hipótese. É uma posição diferente da que foi mantida meses a fio pela administração anterior, que vendeu a tese, também seguidamente desmentida pelos fatos, de que o balanço das contas públicas não teria influência na inflação. Desta vez há pelo menos um esforço bem mais consistente em direção à redução da dívida pública.

O principal argumento exposto no Relatório e também por Goldfajn é o de que a melhora dos fundamentos da economia produzirá aumento da confiança, desengavetará investimentos e, enfim, crescimento econômico. E, fator importante embora não mencionado, concorrerá para a redução da inflação: a queda das cotações da moeda estrangeira no mercado interno (valorização do real) que, por sua vez, se encarregará de evitar novas altas de preços dos produtos importados. (Veja, ainda, o Confira.) É perspectiva fortemente apoiada pela rápida e sólida recuperação das contas externas e pela persistência de um estoque de reservas de US$ 370 bilhões.

No momento, o maior empecilho para o cumprimento desse roteiro não é a “desafiadora situação externa”, mas a crise política interna, cujo desfecho segue em aberto. No entanto, apostar no retorno da presidente Dilma, na reviravolta da política econômica e, portanto, na inflação ao deus-dará é hoje risco muito maior do que apostar na continuidade do atual arranjo, especialmente se os resultados começarem a aparecer.

Em síntese, os juros não cairão tão cedo, a inflação tem tudo para continuar em retração e, se tudo der certo, em 2017 a economia (evolução do PIB) voltará a crescer. Quem viver verá.

CONFIRA:

Apenas em junho as cotações do dólar em reais caíram 8,5%.

Mais confiança?

O mercado pareceu ter recebido bem o ponto de vista do Banco Central e de seu novo presidente. Respondeu com uma baixa das cotações do dólar, nesta terça-feira, de nada menos que 2,6%, indicando que há mais confiança na condução da política monetária.

Mas este não foi o único fator de baixa. No mundo inteiro houve certa reversão da rejeição a posições de risco que se seguiram a partir de sexta-feira à decisão do Reino Unido de abandonar a União Europeia. 

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