Com a corda no pescoço, Petrobrás não pode recuar

Muito próxima de seu limite de endividamento, a Petrobrás deve manter o esforço para concluir a capitalização no prazo estipulado, embora haja pressão dentro do governo para o adiamento da operação. A empresa precisa do aumento de capital para não estourar o teto neste terceiro trimestre, período do ano em que tradicionalmente, investe mais. E, ao contrário do que se imaginava no início do ano, não parece haver um plano B.

Análise: Nicola Pamplona e Kelly Lima, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2010 | 00h00

A Petrobrás fechou o segundo trimestre com uma dívida de cerca de R$ 120 bilhões e uma alavancagem (relação entre endividamento e patrimônio) de 34% - o limite imposto por sua política de gestão de dívida é de 35%. Até o fim de junho, tinha investido apenas 43% do orçamento previsto para o ano. Para cumprir com os investimentos prometidos de R$ 88 bilhões, terá de buscar mais empréstimos, prejudicando ainda mais a gestão da dívida.

A sucessão de obstáculos à conclusão da capitalização, porém, indica que governo e empresa calcularam mal os riscos envolvidos na operação. Desde a demora na aprovação dos projetos de lei do pré-sal pelo Congresso à surpreendente diferença de avaliações do poço Franco pelas duas consultorias contratadas; são vários os indícios de que o caminho está sendo mais tortuoso do que se previa.

Tanto que há pressão em alguns setores do governo para o adiamento da operação, para que questões como o preço do barril sejam melhor esclarecidas, permitindo alguma recuperação do valor de mercado da companhia. As ações preferenciais da companhia fecharam o pregão de ontem na Bolsa de Valores de São Paulo a R$ 26,60, quase R$ 10 a menos do que valiam no início do ano. A emissão de novas ações nesse momento seria melhor para os acionistas, que pagarão preços mais atrativos, do que para a empresa.

Com a corda no pescoço por conta dos investimentos prometidos, a Petrobrás terá de aceitar a perda. No início do processo, dizia-se que haveria um plano B: uma capitalização de menor porte, sem cessão onerosa de reservas pelo governo. A hipótese foi prontamente desmentida pela direção da companhia, embora pudesse resolver problemas imediatos, enquanto uma nova emissão de ações fosse preparada.

A elaboração do plano B naufragou. E a única alternativa para um eventual novo adiamento da oferta passa a ser a postergação de investimentos, principalmente nas grandes refinarias do Rio, Maranhão e Ceará - que seria bem recebida pelo mercado financeiro, mas mal digerida por aliados políticos na reta final das eleições.

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