Gabriela Biló/Estadão - 30/8/2016
Gabriela Biló/Estadão - 30/8/2016

'Com a pandemia, nos tornamos mais cautelosos', diz Paulo Chapchap

Médico e professor visitante na Universidade de Pittsburgh ressalta avanços em prevenção e telemedicina: 'Gestão, hoje, é mudança permanente'

Entrevista com

Paulo Chapchap, conselheiro estratégico da Dasa

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2022 | 05h00

Não é nada simples o dia a dia do médico Paulo Chapchap. Formado pela USP, professor visitante na Universidade de Pittsburgh, nos EUA. Ele é hoje uma referência em transplantes de fígado – e, igualmente, um experiente administrador de hospitais. Depois de longo tempo no Sírio Libanês, que chegou a comandar entre 2016 e 2021, o médico hoje é conselheiro estratégico da Dasa – o maior sistema de diagnósticos da América Latina e o quinto maior do mundo. De quebra, ele somou à carreira uma permanente dedicação à filantropia. Preside o Conselho de Administração do Instituto Todos pela Saúde e é conselheiro do Instituto Phaneros, voltado à saúde mental. 

Qual o aprendizado de tudo isso? “A gente aprende que gestão, hoje, é mudança permanente”, resume Chapchap nesta entrevista a Cenários. O que implica “montar equipes técnicas, reunir gente com diversas visões sobre os problemas, saber incorporar tecnologia, compartilhar a experiência que adquiriu, aprender com a dos outros”. E, sem tirar os olhos do real e imediato, acrescenta: “Com a pandemia, aprendemos a ser mais cautelosos, fazer prevenção primária e secundária. A segunda coisa é que as tecnologias meio, como a telemedicina, trazem avanços incríveis. E o SUS fez uma diferença enorme”. A seguir, trechos da conversa. 

Como um grande conhecedor de saúde preventiva, diria que a pandemia nos ensinou coisas novas e úteis?

Sem dúvida nenhuma. Com a pandemia, aprendemos duas coisas. A primeira, a ser mais cautelosos, detectar os sinais de agravo, fazer a prevenção primária e secundária. A segunda é que o uso das tecnologias meio – como a telemedicina – e o uso de plataformas tecnológicas e digitais podem fazer a diferença no tratamento das doenças. Podendo dispor de imagens e dados diagnósticos do médico, a gente pode mudar o comportamento, a atitude, e ficar mais saudável por mais tempo. 

Pode explicar melhor esses dois pontos, prevenção primária e tecnologias meio?

A prevenção primária é quando você tem a capacidade de prever que vai acontecer alguma coisa e você evita que isso ocorra. Na pandemia, por exemplo, para não ficarmos doentes nós usamos máscaras, nos vacinamos, mantemos distância uns dos outros. Prevenção secundária é quando você já tem uma doença crônica, tipo diabetes, colesterol alto, e sabe que precisa se cuidar para evitar as consequências. E tecnologia meio é o uso de dados e imagens, que permitem a manutenção da saúde. 

Você está agora na Dasa, depois de um longo período como superintendente do Sírio-Libanês. E tem experiência no setor filantrópico, na saúde privada, no setor público. Os dados que a Dasa tem são públicos?

Eles são sempre de propriedade do paciente e ficam sob guarda do prestador de serviço de saúde, o paciente é que os disponibiliza. O que a Dasa tem de diferente de um hospital único, de um prestador? Ela é o maior sistema de diagnósticos do Brasil e também da América Latina. É o quinto maior do mundo. Então as pessoas vão aos laboratórios da Dasa, que são dezenas de marcas, e os diagnósticos, bem analisados, permitem que a gente entenda o perfil daquele paciente e lhe recomende ações preventivas. 

De que forma a Dasa aproveita tudo isso?

Ela organiza os dados. Coloca-os num “data lake”, um lago de dados com uma arquitetura que permita a análise e o fluxo desses dados. Para você ter uma ideia, nos últimos anos a Dasa investiu R$ 1,6 bilhão na organização desse “data lake”. Isso permite uma integração do cuidado. O que é isso? Hoje, se você vai a diferentes lugares se tratar, os dados ficam em diferentes setores – o diagnóstico, o tratamento –, e há enorme dificuldade em coordenar essas informações. E a integração, a coordenação, é um investimento que a Dasa está fazendo. Já temos uma ferramenta, a “nave pro”, nove mil médicos já a baixaram. O médio acessa num celular e, autorizado pelo paciente, captura dados de outros sistemas, integra os dados e mostra seu laudo evolutivo, os exames laboratoriais e de imagem. 

Já existe isso?

Não, ainda estamos preparando essa plataforma, para que possa ser operada por prestadores públicos, inclusive o SUS. Hoje beneficiamos o SUS de outra forma. Fomos o laboratório que mais fez exames para ele, 3 milhões de testes PCR. 

O que falta para o sistema público de saúde do País ser mais célere e beneficiar mais gente?

O SUS fez uma diferença enorme na pandemia. Essa catástrofe, mais de 630 mil brasileiros mortos, só não foi maior porque as pessoas tinham aonde ir. Em outros países, muita gente deixou o problema se agravar. 

Você chegou a gerir um hospital como o Sírio-Libanês e então passou para a Dasa. O que você está levando, profissionalmente, de um para outro?

Acho que tudo. A gente acumula aprendizados, competências, e isso inclui compartilhar isso com outras pessoas. Encontrei agora essa oportunidade, ter essa troca de saberes é enriquecedor. Acho, então, que estou num lugar onde posso ficar o resto da minha carreira profissional, procurando ampliar o beneficio da sociedade. Eu quero continuar relevante. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.