Iara Morselli/Estadão
Iara Morselli/Estadão

Com adoção de parque federal, Carrefour vê 'retomada de agenda positiva'

Patrocínio foi feito por meio do programa 'Adote um parque', do Ministério do Meio Ambiente; diretor-executivo da rede diz que decisão não faz parte de uma tentativa de melhorar a imagem da empresa, após a morte de João Alberto Freitas

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2021 | 21h37

O Carrefour assinou nesta terça-feira, 9, o patrocínio de proteção da primeira unidade de conservação federal, por meio do programa “Adote um parque”, do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast, o diretor-executivo de relações institucionais, Stephane Engelhard, disse que a decisão de apoiar o projeto independe do atual governo e é apolítica.

Ele afirmou ainda que desde o assassinato de João Alberto Freitas, em uma loja do grupo em Porto Alegre (RS), a empresa ficou “na retaguarda”, mas que agora está “retomando a agenda positiva”. O executivo nega, porém, que isso seja uma tentativa de melhorar a imagem da companhia depois do ocorrido e que a empresa tem ações voltadas para sustentabilidade há muitos anos.

O Carrefour vai repassar R$ 3,7 milhões para a proteção ambiental da área de reserva extrativista do Lago do Cuniã com, aproximadamente, 75 mil hectares, localizada no Estado de Rondônia. O patrocínio dura por um ano, podendo ser renovado. “Antes de tudo queria deixar claro que não fazemos política, somos apolíticos. (Sobre) adotar um parque, entendemos que esse é um programa interessante e estamos aderindo. Mas é obvio que independe do governo. Em qualquer governo, se o projeto for bom, faria sentido para nós participar”, disse o executivo.

Ele afirma que a empresa apoia os pedidos de mais ações do governo federal no sentido de parar o desmatamento da Amazônia, já que é signatária do movimento de empresários que mantém diálogos com o governo federal para cobrar ações de desenvolvimento sustetável e de combate ao desmatamento na região. “Acho que chegou a hora das partes sentarem juntas para encontrar soluções sustentáveis. A partir de 2020 mudou: as partes sentaram para conversar. Isso é fato novo”, disse.

Danos à imagem

Desde a morte de morte de João Alberto Freitas, a S&P Dow Jones Indices decidiu retirar o Carrefour Brasil do índice S&P/B3 Brasil ESG, que lista empresas comprometidas com os critérios de Meio Ambiente, Responsabilidade Social e Governança.

A empresa ainda enfrentou quedas na Bolsa na semana que sucedeu o acontecimento. Engelhard conta que os investidores questionaram a empresa, mas que não houve problemas em relação a isso. “O mercado entende que somos empresa com muitas iniciativas positivas”, disse Engelhard. “O que aconteceu em Porto Alegre é um crime horrível. A gente entende que o Brasil tem uma questão de racismo estrutural e que a gente tem que dar a nossa contribuição para mudar a sociedade”, afirmou.

Ele afirma que a companhia tem projetos de diversidade e inclusão desde o espancamento de Januário Santana, em 2009, em uma unidade do Carrefour em Osasco, na Grande São Paulo, e citou medidas tomadas após a morte de João Alberto.

Questionado se o atual patrocínio é uma maneira de melhorar a imagem do grupo depois deste caso, ele nega. “Não são programas novos. Quando em 2018, por exemplo, decidimos ter posicionamento para não comprar ovos de galinha criadas em gaiolas do tamanho de um papel A4 até 2028, são cosias que a gente faz. E a gente está retomando nossa agenda de desenvolvimento sustentável e responsabilidade social. Você tem razão no sentido de que, nos últimos meses, ficamos na retaguarda, mas agora estamos retomando nossa agenda positiva”, afirmou.

Ele ressaltou ainda que a empresa monitora 100% das carnes compradas, em sua maioria por sistemas de georreferenciamento dos produtores, para garantir o desmatamento zero das carnes que vende.

Para especialistas em imagem corporativa, porém, a ação é arriscada. “A empresa quer mudar a passos rápidos do processo de negação de tudo que aconteceu em um passado ainda recente para uma tentativa de destaque na pauta ESG nacional”, diz Dario Menezes, Diretor Executivo da Caliber.

Para ele, a companhia deveria agir com mais prudência e consolidar seus valores e processos internos, de forma a garantir uma uniformidade de atuação em todo o País. “Depois ir em um movimento gradual resgatando a confiança perdida. Ir de 0 a 100 Km em pouco tempo pode trazer riscos reputacionais desnecessários, caracterizando mais uma promessa não cumprida, o que poderia ser fatal para o seu futuro no País", disse.

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