Danilo Schleder/Estadão
Ganho extra.  Ana Terezinha investiu em picapes e imóveis Danilo Schleder/Estadão

Com ajuda do câmbio, demanda alta e safra recorde, renda no campo sobe 37%

Venda da safra de grãos deve render este ano R$ 347,2 bilhões ao setor agrícola, o que seria o maior crescimento desde 2003, quando a alta em relação ao ano anterior foi de 50%; o Paraná é o Estado mais beneficiado, com aumento de 53,8% na receita

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 05h00
Atualizado 23 de novembro de 2020 | 13h50

Enquanto a indústria, varejo e os serviços ainda mal conseguiram se recompor do baque provocado pela paralisação da atividade em razão da covid-19, o campo comemora crescimento de quase 40% na receita obtida com a venda de grãos. Produção recorde de mais de 250 milhões de toneladas, forte demanda externa puxada pela China e outros países asiáticos, preços internacionais da soja e do milho historicamente elevados e, principalmente, a desvalorização de mais de 30% do câmbio neste ano explicam a grande injeção de recursos no campo.

“Foi o alinhamento perfeito dos astros”, diz o economista Fabio Silveira, sócio da Macrosector, a respeito dessa combinação favorável de fatores que sustenta esse resultado. A pedido do Estadão, o economista projetou quanto os agricultores devem embolsar neste ano. Serão R$ 347,2 bilhões com a venda das safras de soja, milho, arroz, feijão, trigo, algodão e outros grãos, levando em conta dados de produção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e preços apurados pela Fundação Getulio Vargas (FGV), secretarias de agricultura e cotados na Bolsa de Cereais, entre outras fontes. É uma cifra 37,4% maior que em 2019, o maior crescimento em quase 20 anos. Só perde para 2003, quando o avanço na receita beirou 50%, também impulsionada pela desvalorização do câmbio.

Essa montanha de dinheiro se espalha pelas pequenas cidades do interior do País ligadas ao agronegócio e muda o ritmo de atividade econômica desses municípios. O movimento é mais nítido sobretudo nos estados do Paraná, Goiás e Mato Grosso, fortes na produção de soja e milho e que registraram, de acordo com o estudo da consultoria, os maiores avanços nas receitas. O Paraná foi o que mais ampliou a receita agrícola de grãos este ano, com avanço de 53,8%, seguido por Goiás (36,3%) e Mato Grosso (33,2%). Já o Rio Grande do Sul ficou na lanterna, com avanço de 3,4%, por conta da quebra na safra.

Em Ponta Grossa, que fica na região de Campos Gerais, onde estão as lavouras mais ricas do Paraná, há fila de espera de até 90 dias para comprar caminhonete zero quilômetro em pelo menos quatro concessionárias de marcas diferentes. O veículo pode custar até R$ 215 mil.

Só a produtora Ana Terezinha Slusarz, que cultiva 1,4 mil hectares com soja, milho, trigo, aveia e feijão nos municípios de Ponta Grossa e Tibagi (PR), comprou duas picapes com os ganhos da safra 2020. Outra parte do lucro investiu na aquisição de dois imóveis e adquiriu vários equipamentos agrícolas. “Este ano colhi muito bem e fiquei impressionada com os preços bons”, diz. Há 13 anos Ana toca as fazendas que foram conduzidas pelo pai por mais de 30 anos.

A cotação da saca de soja, hoje na faixa de R$ 170, é o dobro em relação há um ano e está em níveis recordes. No milho, o quadro não é diferente. O preço da saca do grão em 2019 girou em torno de R$ 35 e, neste ano, a média é R$ 66. Pela proximidade do porto, os grãos produzidos no Paraná têm preços maiores do que em outros Estados agrícolas e isso amplia a renda dos produtores. “Tanto o milho como a soja estão indo muito bem”, diz Edmar Gervásio, analista da Secretaria da Agricultura do Paraná.

Como a cotação dessas commodities é definida no mercado internacional e em dólar, a desvalorização cambial aumenta o preço do produto em reais e coloca mais dinheiro para girar nas cidades do interior.

Impacto

No Paraná, o peso do campo na economia dos 399 municípios é significativo. A agropecuária responde, em média, por mais da metade (52%) da geração de riqueza das cidades, aponta um estudo do economista Luiz Eliezer Ferreira, da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep). Ele chegou a essa conclusão a partir de dados oficiais da Secretaria da Fazenda. “Quando há um boom de preços das commodities, a riqueza transborda e se espalha pelas cidades do interior”, diz.

Atrás dessa riqueza, o Magazine Luiza começou a formar este ano grupos de consórcio para gerar cartas de crédito destinadas à compra de máquinas agrícolas, de terras, construção de silos, serviços de pulverização de lavouras, entre outras finalidades. No segmento de veículos pesados, que envolve máquinas agrícolas, o consórcio cresceu 183% este ano.

Claudio Ribeiro, gerente da divisão de vendas do consórcio Magalu nos três Estados do Sul, diz que o mercado de produtos e serviços para o agronegócio sempre esteve no radar. “Mas, neste ano, realmente o nosso foco se abriu para esse mercado em expansão.” A empresa, que nunca teve lojas físicas próprias exclusivas para o consórcio, já abriu desde janeiro três no Paraná. Até dezembro, planeja inaugurar mais sete no Estado. “Nas praças onde a receita vem da agricultura, a inadimplência é baixa.”

Empregos

Embora a agricultura não seja um setor que gere tantos empregos quanto o comércio e os serviços, a riqueza criada dentro da porteira se espalha, movimenta a economia dos municípios do interior do País e acaba gerando contratações em outros segmentos.

Um levantamento feito pelo economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes, revela que, entre os cem municípios que mais ampliaram a quantidade de postos formais de trabalho neste ano até setembro, 26 estão nos três Estados que também mais expandiram a receita agrícola na safra 2019/2020.

Em primeiro lugar, está o Paraná, com 11 cidades; depois Goiás, com 9; e Mato Grosso, com 6 municípios. O relevante é que o Paraná foi o Estado que registrou, segundo estudo da MacroSector Consultores, o maior avanço na receita de grãos este ano (53,8%), seguido por Goiás (36,3%) e Mato Grosso (33,2).

Para chegar a esse resultado, Bentes considerou o estoque de emprego formal dos municípios pela Relação Anual de Informações Sociais, do Ministério da Economia, e cruzou essas informações com os micro dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) até setembro.

Os três Estados respondem por 14% dos trabalhadores formais do País. Já entre os cem municípios que mais expandiram o emprego neste ano, essa fatia sobe para 26%.

Segundo Bentes, cidades que são fortes no agronegócio têm apresentado uma geração de emprego acima da média nacional. Na média dos cem municípios, o emprego formal cresceu 9,5% este ano. Em Ortigueira, com 22 mil habitantes, localizada na região de Campos Gerais do Paraná, a expansão do emprego foi de 33% no mesmo período. “É outro Brasil”, diz o economista, se referindo ao dinamismo das cidades do interior. Enquanto isso, o País como um todo deu marcha à ré e teve retração de 1,5% a 2% no número de vagas formais.

O economista ressalta também que, na lista dos cem municípios mais dinâmicos no emprego, não há capitais. “Isso revela que a economia brasileira, hoje, depende mais do que nunca do agronegócio para não ter um desempenho ainda pior”, diz Bentes. O agronegócio responde por cerca de um quarto do PIB.

Summit Agronegócio Brasil 2020

O Estadão promove nesta semana o Summit Agronegócio Brasil 2020, com o tema "Agronegócio brasileiro e a sustentabilidade". O evento, que comença nesta segunda, 23, e vai até quarta-feira, 25, vai discutir a evolução do setor em termos ambientais e os pontos em que ainda precisa avançar.

A abertura, às 14h desta segunda, será com o painel "O Brasil que produz e preserva" e terá a participação de César Hanna Halum, secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e Gustavo Junqueira, secretário de Estado da Agricultura e do Abastecimento de São Paulo. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas neste link. O evento terá transmissão ao vivo pelas redes sociais do Estadão. / COLABOROU MILLENA SARTORI, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

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Alta no lucro leva produtor agrícola a investir no próprio negócio

No Paraná, agricultores foram às compras para renovar sua frota de tratores e outros equipamentos; venda de insumos também cresce

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2020 | 05h00

O produtor rural Gilcesar Zeny, que planta 2 mil hectares com soja, feijão, milho, trigo e aveia na região de Ponta Grossa (PR), não esconde a felicidade com o resultado da colheita este ano. Sem citar cifras, diz apenas que os resultados obtidos na última colheita superaram os de anos anteriores. E o lucro foi reaplicado no próprio negócio. “Neste ano, renovei uma colheitadeira e dois tratores, comprei mais um trator novo, além de insumos para a safra de verão inteira”, conta.

Não é só ele. Capitalizados por conta dos bons resultados da safra 2019/2020, os produtores ampliaram os investimentos na safra atual, que está sendo plantada. Isso faz girar a roda da prosperidade no campo, pois sinaliza ganhos de produtividade, se o clima não atrapalhar. Na MacPonta Agro, que revende máquinas agrícolas da marca John Deere, em Ponta Grossa, houve uma corrida dos agricultores para renovar a frota.

“A boa produtividade e a disponibilidade de crédito fizeram este o melhor momento para compra”, diz o diretor comercial da revenda, Gedor Vieira. Segundo ele, o movimento se estende para 2021, pois os contratos futuros para a próxima safra estão garantindo bons preços e desenham um cenário positivo.

“O produtor está investindo pesado mesmo”, diz Leandro César Teixeira, superintendente de Relação com Cooperado da Cocamar, uma das grandes cooperativas do agronegócio do País, com sede em Maringá, norte do Paraná. Antes do plantio da safra atual de soja (que começou a ser semeada em outubro na região), a Cocamar já tinha vendido mais insumos do que tinha comercializado para a safra 2019/2020 até fevereiro deste ano. Essas compras envolvem adubo, defensivos, sementes e máquinas, por exemplo.

Teixeira conta que os agricultores da cooperativa estão capitalizados e a inadimplência nas compras de insumos está na mínima histórica, entre 1,5% a 2%. Além disso, o ritmo de comercialização antecipada dos grãos é muito forte, o que amplia a disponibilidade de recursos para investimentos. Na soja, 40% da próxima safra foram vendidos antes do plantio. No milho safrinha, a ser semeado só em fevereiro de 2021, já 10% da produção hoje está comercializada. “Vislumbramos que o ano que vem será bastante positivo para o agronegócio”, prevê Teixeira, levando em conta um volume ainda maior de investimentos em tecnologia.

Dólar foi fator principal

Especialistas afirmam que a desvalorização do real em relação ao dólar neste ano é o principal fator que turbinou a receita dos agricultores de grãos, cujos preços são definidos no mercado internacional. Acontece que muitos custos para produzir esses grãos – como fertilizantes, defensivos e até o diesel usado para tocar as máquinas – também estão atrelados ao câmbio. Com a alta do dólar, seria natural esperar que as despesas ficassem pressionadas, até anulando o ganho obtido com a safra. No entanto, não foi isso que aconteceu neste ano.

Um levantamento feito pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostra que os agricultores conseguiram ampliar as margens de lucro em todos os grãos, mesmo gastando mais para colocar a safra de pé. A margem bruta (lucro) da soja produzida em Cascavel (PR), por exemplo, aumentou 207% em relação a 2019 e foi o melhor resultado para a região desde que o levantamento começou a ser feito pela CNA, há mais de dez anos. Em Sorriso (MT), por sua vez, a margem da soja cresceu 37% e superou em 11% a média de três anos anteriores.

Também o milho, que tradicionalmente era uma lavoura que só pagava os custos e não sobrava muito para o produtor, teve resultado extraordinário por causa dos preços recordes. Em Cascavel (PR), a margem neste ano da segunda safra de milho foi multiplicada por seis em relação à obtida em 2019, mostra o levantamento. A margem bruta obtida com a produção de arroz, que desde a safra 2009/2010 não era suficiente para cobrir todos os custos, interrompeu em 2020 a sequência de anos ruins.

Segundo o agrônomo Fabio Carneiro, assessor técnico da CNA, o lucro bruto do agricultor aumentou porque ele tem profissionalizado a gestão. “Investiu, aumentou a produtividade, vendeu soja antecipada para travar custo e melhorou a gestão de risco”, explica. / COLABORORU MILLENA SARTORI, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

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Registro de tratores ganha nova ferramenta

Registro de tratores agora poderá ser feito gratuitamente pela internet

Marcia de Chiara, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2020 | 05h00

O Ministério da Agricultura e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) lançaram na sexta-feira, 20, a Plataforma Digital de Registro e Gestão de Tratores e Equipamentos Agrícolas, batizada de ID Agro. A ferramenta foi criada em parceria do Ministério com a CNA, e permite que tratores e equipamentos agrícolas sejam registrados gratuitamente.

Agora, para fazer o registro, é preciso se cadastrar no aplicativo ID Agro. Caso o equipamento seja novo, a própria concessionária faz o registro e o vincula ao produtor que comprou. No caso de máquinas usadas, o produtor deve levar a nota fiscal e fazer o registro em alguma concessionária autorizada.

Após o registro, o produtor pode imprimir o Registro Nacional de Máquinas Agrícolas (Renagro) – equivalente ao documento do carro para veículos de passeio –, que também tem um QR Code que pode ser colado no trator para facilitar as fiscalizações. O primeiro registro feito pelo novo sistema foi do produtor rural Antonio Inda, de Cabeceira Grande (MG).

Com o cadastro, a máquina fica autorizada a transitar em via pública, pode ser dada como garantia em empréstimos ou financiamento, além de reduzir custos de seguros, facilitar medidas de segurança nos casos de roubo ou furto, e dar mais tranquilidade no comércio de tratores usados.

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