André Dusek/Estadão - 9/1/2018
O Copom, do Banco Central, se reúne nos próximos dias 21 e 22 para definir a Selic. André Dusek/Estadão - 9/1/2018

Com alta do IPCA acima do esperado, analistas já veem espaço para Selic a 9% no fim do ano

Inflação avançou 0,87% em agosto e chega a 9,68% no acumulado em 12 meses, informou o IBGE nesta quinta-feira

Guilherme Bianchini, Cícero Cotrim e Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 11h43
Atualizado 09 de setembro de 2021 | 15h14

A surpresa para cima com o resultado de agosto do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do País, já mexe com as projeções de analistas do mercado para a Selic, a taxa básica de juros. A inflação avançou a 0,87%, acima do teto das estimativas do Projeções Broadcast, que iam de 0,62% e 0,85%.

“O IPCA de agosto será uma chamada para revisões de inflação e Selic”, disse o sócio e economista-chefe da AZ Quest, Alexandre Manoel. Ele esperava uma alta de 0,71% do IPCA, mas admite que foi surpreendido pela alta dos preços industriais.

A previsão da AZ Quest para a inflação no ano, que atualmente é de 7,70%, será revista para cima e a Selic, que para o economista estava se descolando da sua projeção de 7,75% para algo como 8%, agora está mais para 9% no fim de 2021.

 


“Nada tem ajudado o Banco Central. Estamos agora com a iminência de uma crise hídrica que até pouco ante da metade do ano não estava no cenário de ninguém e que já está impactando a economia e temos ainda essa incerteza institucional. Temos uma inflação mais persistente do que qualquer um esperava”, disse o economista.

A meta de inflação é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Para alcançá-la, o Banco Central eleva ou reduz a taxa básica de juros da economia, que hoje está em 5,25% ao ano. 

Na hipótese de a meta de inflação ser descumprida, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, terá de enviar uma "carta aberta" ao ministro da Economia, Paulo Guedes, explicando as razões para o estouro. A última vez que isso ocorreu foi em janeiro de 2018 e o motivo foi o descumprimento em outra direção, por a inflação do ano anterior ter ficado abaixo do piso da meta. O ex-presidente Ilan Goldfajn justificou, à época, que o maior impacto para a inflação ter desabado em 2017 foi a queda dos alimentos por causa da safra recorde.

A ASA Investments elevou a projeção para a taxa Selic de 8% para 9% ao ano, com mais três altas de 1 ponto porcentual e um aumento final de 0,75 ponto, no início de 2022.

Segundo o economista-chefe da instituição, Gustavo Ribeiro, porém, a chance de um ajuste maior, de 1,25 ponto está aumentando, mas dependeria de uma piora ainda mais acentuada das projeções de inflação para 2022 ou sinais de desancoragem mais ampla, com as projeções de 2023, por exemplo, piorando também.

A ASA também elevou a projeção do IPCA deste ano de 7,8% para 8,2%. O pico deve ocorrer em setembro, quando a inflação deve superar os dois dígitos no acumulado de 12 meses (10,09%), considerando uma projeção mensal de 1,02%, em que cerca de 0,30 ponto deve corresponder ao impacto da bandeira escassez hídrica.

Para o economista João Leal, da Rio Bravo Investimentos, o resultado é um desastre completo e reflete a tempestade perfeita vivida pelo País. “É uma inflação mais alta com atividade mais fraca, crise política e crise institucional. São todos os fatores atuando conjuntamente”, afirma.

O dado de agosto, segundo Leal, traz uma notícia ruim para a política monetária. A previsão é de alta de 1,25 ponto porcentual da Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), nos dias 21 e 22 deste mês, com mais duas altas de 1 ponto nos encontros posteriores. Dessa forma, a expectativa da Rio Bravo para a taxa de juros no fim de 2021 subiu de 8,0% para 8,5%, mantida até o fim de 2022.

A Rio Bravo também vai revisar a projeção para o IPCA 2021, de 8,1% para, pelo menos, 8,5%. A estimativa para 2022, antes de 4,0%, agora tem um piso de 4,5%. Leal destaca que a pressão inflacionária agora é generalizada, sem concentração em alimentos, energia elétrica ou combustíveis. “É um problema que continua em bens industriais, em serviços, pela reabertura, e que agora também aparece em Educação e em Comunicação”, acrescenta.

A estrategista-chefe da MAG Investimentos, Patrícia Pereira também considera que o IPCA de agosto mostra uma piora do balanço de riscos para a inflação e aumenta a probabilidade de aceleração do ritmo de alta da Selic para 1,25 ponto porcentual. Ou, no cenário que considera mais provável, de manutenção do ritmo corrente por mais tempo, que implicaria em juros acima do nível de 8% no fim do ano.

“A dinâmica das aberturas da inflação até antes de agosto respaldava a manutenção do ritmo mas, agora, acho que essa dinâmica de núcleos e grupos conseguiu ser pior do que a do cenário anterior”, afirma. “Botando na conta que o ritmo de 1 ponto virou piso e que o cenário está mais complicado, vemos espaço para Selic acima de 8,0%.”

A analista destacou, na avaliação do IPCA de agosto, as pressões disseminadas nos bens industriais (0,68% para 1,03%), causadas pela escassez de insumos que deve continuar pelo menos até o fim do ano, e em preços administrados (1,68% para 0,95%), com novas pressões à frente devido à adoção da bandeira “escassez hídrica” de energia elétrica.

No entanto, Patrícia afirma que os próximos passos da política monetária ainda vão depender da resolução de outras questões. Para a economista, problemas fiscais como o sistema de pagamento dos precatórios pelo governo federal deveriam ser endereçados antes da próxima reunião de política monetária para abrir espaço no balanço de riscos.

“Precisamos ver como vai estar esse desenvolvimento político e fiscal às vésperas do Copom. Os precatórios são uma questão urgente, que precisa ser endereçada rapidamente, e o esgarçamento institucional promovido pelo presidente Bolsonaro na terça-feira vai no sentido oposto disso”, comenta.

O Barclays elevou a projeção de aumento da taxa Selic em setembro, de 1 ponto porcentual para 1,25 ponto, com a taxa de juros chegando a 8,50% em fevereiro de 2022. Diante da perspectiva de uma inflação mais pressionada nos núcleos e em combustíveis, bens industriais e bens comercializáveis na leitura de agosto, o Barclays elevou também a projeção de IPCA de 2021 de 7,70% para 8,20%, e de 2022, de 3,80% para 4,0%.

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Inflação de agosto vai a 0,87%, acima do esperado; em 12 meses, acumulado é de 9,68%

Resultado do IPCA é o maior para o mês em 21 anos e foi puxado pelo aumento nos preços da gasolina e dos alimentos

Daniela Amorim , O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 09h13
Atualizado 09 de setembro de 2021 | 14h16

A disparada no preço da gasolina e dos alimentos fez a inflação medida pelo IPCA atingir a maior alta em 21 anos para o mês de agosto. O avanço de 0,87% no índice superou as estimativas mais pessimistas dos analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast. No acumulado dos últimos 12 meses, o IPCA saltou para quase 10%, sendo que em oito cidades pesquisadas já ultrapassa a marca dos dois dígitos de inflação. 

Com esse resultado, os economistas estão revisando suas previsões de inflação para o ano e também elevando as estimativas para a taxa de juros - a ferramenta usada pelo Banco Central para tentar conter a alta de preços. “O mercado já está dando como certo que o Banco Central vai acelerar o ritmo de alta (dos juros)”, disse o estrategista-chefe do Banco Muziho do Brasil, Luciano Rostagno. Antes da divulgação do IPCA, as apostas miravam uma alta 1 ponto porcentual na próxima reunião do Copom, nos dias 21 e 22. Agora, muitos analistas já falam em alta de 1,25 ponto. 

O resultado do IPCA mostra que a inflação está cada vez mais disseminada. A difusão do indicador é a maior desde 2020 e subiu de 64% para 72% na passagem de julho para agosto. Segundo o IBGE, a alta do dólar influencia o encarecimento de combustíveis, enquanto a crise hídrica provoca um aumento na energia elétrica. Os alimentos também estão mais caros, sob pressão tanto das exportações quanto de problemas climáticos, como geada e estiagem. 

 

 

No IPCA, o grupo de transportes teve a maior alta de preços, de 1,46%, puxada pelos combustíveis. A gasolina subiu 2,80% e teve o maior impacto individual no IPCA do mês passado. Etanol (4,50%), gás veicular (2,06%) e óleo diesel (1,79%) também ficaram mais caros.

“O preço da gasolina é influenciado pelos reajustes aplicados nas refinarias de acordo com a política de preços da Petrobras. O dólar, os preços no mercado internacional e o encarecimento dos biocombustíveis são fatores que influenciam os custos, o que acaba sendo repassado ao consumidor final. No ano, a gasolina acumula alta de 31,09%, o etanol 40,75% e o diesel 28,02%”, disse o analista da pesquisa, André Filipe Guedes Almeida.

O aumento nos preços de automóveis usados (1,98%) e novos (1,79%) e das motocicletas (1,01%) também pesou no indicador. Os preços do transporte por aplicativo subiram 3,06% e do ônibus intermunicipal, 0,62%, em decorrência dos reajustes nas tarifas em Salvador e Belo Horizonte e Porto Alegre.

 

A segunda maior contribuição no IPCA de agosto foi do grupo alimentação e bebidas, que subiu 1,39% depois do avanço de 0,60% em julho. A alimentação no domicílio passou de alta 0,78% para 1,63%, principalmente por causa dos aumentos nos preços de batata-inglesa (19,91%), café moído (7,51%), frango em pedaços (4,47%), frutas (3,90%) e carnes (0,63%). 

No grupo habitação, que teve alta de 0,68%, o resultado foi influenciado pela energia elétrica (1,10%), que desacelerou em relação ao mês anterior (7,88%). “O resultado é consequência dos reajustes tarifários em Vitória, Belém e em uma das concessionárias em São Paulo. Além disso, a bandeira tarifária vermelha patamar 2, que adiciona R$ 9,492 a cada 100 kWh consumidos, vigorou nos meses de julho e agosto”, explicou Almeida. Os preços do gás encanado (2,70%) e do gás de botijão (2,40%) também subiram. 

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O risco político piorou muito e, com isso, a economia vai para o brejo, diz economista

Um dos maiores especialistas em inflação do País, Heron do Carmo diz que o Brasil está entrando em estagflação, situação que combina aumento de preços com atividade econômica comprometida

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 14h14

Pautado sempre pela moderação, o economista Heron do Carmo, professor sênior da FEA/USP e um dos maiores especialistas em inflação do País, vê com muita preocupação o quadro atual da economia brasileira. Na sua avaliação, o Brasil está em estagflação. É uma situação que combina inflação especialmente elevada para os padrões pós-Plano Real com atividade econômica comprometida.

A vilã do momento, segundo Heron, é a crise institucional que se abateu sobre o País, o que piora o cenário econômico e da inflação. Esse fator se junta aos problemas que já vinham complicando  o cenário de preços, como as altas dos alimentos e dos combustíveis e a crise hídrica, por exemplo.

Na análise do economista, se o País tivesse uma situação institucional tranquila, a expectativa seria de que a economia continuasse a sua retomada com a vacinação e a inflação recuaria pelo fato de os choques de oferta perderem força. No entanto, a instabilidade institucional muda o curso normal e põe em risco a atividade. “O que me preocupa particularmente é essa situação institucional pelo potencial que ela tem para agravar os problemas econômicos”, alerta o especialista. A seguir os principais trechos da entrevista. 

Como o sr. avalia o resultado da inflação de agosto?

Estamos vivendo uma fase de surpresa sempre para pior. Segundo o Boletim Focus (do Banco Central), estamos na 22.ª semana seguida de alta de inflação para a previsão deste ano. O resultado de alta de 0,87% do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de agosto veio acima da previsão do mercado, de 0,70%. Teremos muito provavelmente a continuidade do processo de aumento da previsão de inflação. Essa instabilidade institucional está contribuindo para piorar a situação.

Qual é a sua previsão de inflação para este ano?

Se não acontecer nada muito diferente até o final do ano, acredito que o IPCA feche 2021 em torno de 8,5%, quase 1 ponto porcentual acima do que se tinha até então. Temos um cenário de incerteza internacional como consequência da pandemia e da tensão com a China e, no plano interno, uma situação de estresse institucional. Esse aumento da incerteza, da insegurança, normalmente leva a uma piora na inflação, uma piora da atividade econômica e a uma deterioração dos fundamentos. Além disso, temos um problema de conjuntura, de inflação alta e atividade menor para o próximo ano. O crescimento que se pensava entre 2,5% e 3%, pode ser bem menos. Por outro lado, tudo isso contribui para comprometer o fundamento fiscal, o que contrata a continuidade da crise para o futuro.

Vamos entrar em estagflação?

Estamos entrando em estagflação, com a economia crescendo pouco, provavelmente na faixa de 1%, em 2022. Para os padrões pós-Plano Real, estamos com uma inflação especialmente elevada com atividade econômica comprometida. A situação é preocupante. A inflação está se mantendo acima do previsto e deve se sustentar assim no próximo ano. A previsão do mercado está em torno de 4%. É pouco provável que a inflação de 2022 fique abaixo de 5%. Por ora, vejo inflação na faixa de 6%.

Por quê?

Temos, de um lado, as pressões decorrentes da vacinação sobre os preços dos serviços, que estão muito defasados. Temos os efeitos da crise hídrica, que afetou a produção agrícola. Há também a questão da energia elétrica ligada à crise hídrica, a incerteza em relação ao preço do petróleo, agravado pelo fato de a taxa de câmbio estar 10% acima do esperado.

A inflação está fora de controle?

Não é que esteja fora de controle. Quando se fala em controle, logo vem a questão fiscal. E, felizmente, temos o teto de gastos, que vem dando conta do recado. O Banco Central é independente e manobra a taxa de juros. O problema é que não temos controle sobre esses fatores de incerteza ligados à questão política e institucional.

Isso piora a inflação?

Tudo isso piora. Isso já vinha crescendo. A democracia brasileira vem passando por um novo teste de estresse institucional. Com isso, quem tem de tomar decisões econômicas fica sem referências básicas, que são instituições com estabilidade. Existe um problema adicional que é ter de cuidar dessa estabilidade. Essa é a maior preocupação.

Como sair disso? Subir taxas de juros resolve o problema da alta da inflação neste momento?

Atenua. O nosso problema passou a ser de outra ordem: estabilidade política e institucional. Isto é, a certeza de que as regras do jogo serão cumpridas. A instabilidade institucional leva a mais inflação e a menos crescimento.

Subir juros é uma parte do problema, então?

Subir juros é algo para combater o sintoma. Mas precisamos combater a doença.

A solução é uma questão institucional?

Os agentes políticos têm que ter bom senso, gerenciar a situação e resolver a questão das eleições. Quem ganhar, ganhou e quem perder, perdeu. O fundamental é ter garantias para as regras do jogo.

Hoje pesa mais na inflação a questão da crise institucional do que a alta dos preços de uma maneira geral?

Não. Os preços  de uma maneira geral e a crise hídrica têm efeito. Se estivéssemos numa situação institucional tranquila, a expectativa seria de que a economia continuasse a sua retomada com a vacinação. A inflação recuaria pelo fato de os choques perderem força. Ocorre que, com a instabilidade institucional, isso de certa forma, se contrapõe a essa expectativa favorável que ocorreria se tivéssemos em situação de normalidade. As previsões do Focus (Boletim), de crescimento de 5% para este ano e de 2% para 2022 e de inflação de 7,6% para este ano e 4% para 2022, já incorporavam risco político normal de um ano de eleição. Só que agora a coisa mudou de figura: piorou muito e, com isso, a economia vai para o brejo.

Em relação aos últimos anos, hoje o cenário para inflação é mais complicado?

Acho que vivemos um dos cenários mais complicados em termos de inflação. Em 2015, a inflação foi corretiva, por conta de aumento de tarifas. Mais recentemente, a inflação foi provocada pelos choques de commodities e consequência dos efeitos da pandemia no Brasil e no mundo. O padrão da inflação brasileira era muito parecido com o que se observava em outros países, com alta de alimentos e combustíveis. Só que agora, além desses problemas todos, estamos com esse problema institucional, que é fundamental resolvermos. Ainda restarão os problemas decorrentes da pandemia, da crise hídrica e do choque de preços de alimentos na inflação. Mas o que me preocupa particularmente é essa situação institucional pelo potencial que ela tem para agravar os problemas econômicos.

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