Com alta do IPCA, juro pode subir já em abril

Segundo economista, é provável que o BC mantenha taxa em março para preparar as expectativas de mercado

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

23 de fevereiro de 2010 | 14h00

A alta de 0,94% do IPCA-15 de fevereiro, com ascensão dos seus núcleos, e a continuidade do avanço das vendas de varejo, como demonstrou a elevação de 0,6% na média móvel trimestral encerrada em dezembro, ajudam a consolidar a necessidade do Banco Central de elevar os juros em breve, o que deve ocorrer em abril, comentou o economista e sócio da MCM Consultores, Antônio Madeira. Com os dados divulgados hoje pelo IBGE, ele afirmou que no acumulado em 12 meses o núcleo Dupla Ponderação atingiu 4,60% em dezembro, subiu para 4,80% em janeiro e chegou a 4,90% neste mês. Já o núcleo por exclusão de preços administrados e alimentos no domicílio, o IPCA-EX, saiu de 4,60% no último mês de 2009, passou para 4,70% em janeiro e subiu para 4,77% em fevereiro.

 

Segundo Madeira, é mais provável que o BC iniciará um ciclo de aperto monetário de três pontos porcentuais no dia 28 de abril porque na reunião de março ele ainda teria margem de manobra para preparar as expectativas de mercado. Ele lembrou que em 2008, quando o Copom iniciou o último período de alta dos juros, a autoridade monetária lançou no parágrafo 23 da ata da reunião de março a expressão "...são relevantes os riscos para a concretização de um cenário inflacionário benigno...". No encontro seguinte, ocorrido no dia 16 de abril daquele ano, o Banco Central elevou os juros de 11,25% para 11,75% e manteve uma trajetória de alta da Selic até 10 de setembro de 2008, quando chegou a 13,75%. "O mais provável é que na reunião do Copom que vai ocorrer no próximo mês, o BC deve manifestar na ata aquela frase que expressou há dois anos antes de aumentar os juros em abril deste ano", comentou.

 

De acordo com o economista, já está fechado o hiato do produto e o avanço da demanda agregada eleva as pressões para que a inflação continue acima da meta de 4,5% no curto prazo. A MCM estima que o IPCA de fevereiro pode ficar próximo a 0,80%, o que tende a registrar uma alta de 1,96% no primeiro trimestre deste ano, marca bem superior ao 1,29% apurado no mesmo período do ano passado. Madeira, no entanto, destaca que além dos impactos da crise internacional nos primeiros três meses de 2009 sobre o nível de atividade no Brasil, ocorreu no começo deste ano fatos extraordinários, como aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, e a elevação de algumas mercadorias relevantes, como os produtos in natura e do álcool.

 

Antônio Madeira ressalta que a recente alta da inflação é um reflexo do ciclo de aquecimento do consumo motivado pela distensão monetária empreendida pelo BC de 21 de janeiro de 2009 até o dia 22 de julho do ano passado, quando a Selic foi reduzida no período cinco pontos porcentuais, de 13,75% para os atuais 8,75%. O Copom reduziu as taxas com vigor para atenuar os efeitos da recessão que o País registrou entre outubro de 2008 a março de 2009, causada pela crise financeira internacional.

 

Para o economista, as vendas do varejo em dezembro mostraram uma acomodação na margem, mas há vários indicadores que sustentam um movimento de expansão robusto do nível de atividade, como exibe a geração de postos de trabalho do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Em janeiro, foram criadas 181.419 vagas líquidas, a maior marca histórica para o mês, superior aos 142,9 mil empregos gerados no mesmo mês de 2008. "Há boas perspectivas de expansão do País para os próximos trimestres, como mostram vários elementos, entre eles a concessão de crédito pelos bancos e continuidade do avanço do consumo", afirmou. "O BC precisará aumentar os juros logo. Não dá para esperar a reunião de junho", disse.

 

Mesmo com a expectativa de aumento da Selic de 8,75% para 11,75% neste ano, a MCM estima que o IPCA fechará o ano em 4,90%. Para ele, dificilmente a política monetária conseguirá reduzir a inflação para a meta neste ano, devido às defasagens de efeitos da alta dos juros sobre a demanda agregada. A consultoria espera que o índice oficial conseguirá atingir a meta de 4,5% em 2010, quando o aumento da Selic deve moderar o nível de atividade basicamente no próximo ano. Para 2009, a consultoria aponta que o incremento do consumo interno, dos investimentos das empresas e gastos do governo devem levar o PIB a registrar uma expansão de 5,5%. 

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