Com atraso, Belo Monte entra na fase final
Cronograma das obras foi comprometido por causa de manifestações e invasões de ribeirinhos, índios, ambientalistas, além de greves e decisões judiciais
Renée Pereira - O Estado de S. Paulo
“Quando viemos aqui pela primeira vez perguntei ao consórcio (construtor) contratado qual seria o maior desafio na construção da usina. Eles me responderam que seria a logística e estavam certos”, afirmou Figueiredo, comemorando mais um passo da hidrelétrica, de 11.233 MW, mas sem esconder a preocupação com os atrasos da obra. O cronograma está um ano atrasado devido à série de paralisações causada por manifestações e invasões de ribeirinhos, índios, integrantes dos atingidos por barragens e ambientalistas, além de greves e decisões judiciais.
No sítio Pimental, as interrupções representaram 441 dias de atraso desde o segundo semestre de 2011. No sítio Belo Monte, foram 124 dias. Segundo o diretor presidente da Norte Energia, por causa das paralisações, a empresa está negociando com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a expansão em um ano dos prazos para a entrada em operação das primeiras turbinas...
Protesto no RJ
De acordo com a “Cartilha de Belo Monte”, o cronograma original prevê a entrada em operação das seis unidades geradoras no Sítio Pimental, onde está a barragem principal, o vertedouro e casa de força complementar. A obra tem outros dois locais de construção: canais e diques e Sítio Belo Monte, onde está a casa de força principal com 18 turbinas.
As turbinas do Sítio Belo Monte estão previstas para funcionar a partir de 2016. “Por enquanto estamos negociando o cronograma de 2015. Não decidimos se vamos pedir algum adiamento para o Sítio Belo Monte. Estamos tentando manter a entrada em operação da primeira turbina em março de 2016”, diz Figueiredo. Se não conseguir convencer a agência, a empresa pode perder receita e ainda ser obrigada a recorrer ao mercado à vista para cumprir os contratos.
Além dos atrasos, Belo Monte também convive com o aumento dos custos. Hoje o volume de investimentos está em R$ 30 bilhões, afirma Figueiredo. “O aumento de R$ 25 bilhões para R$ 30 bilhões é inflação.” Mas a hidrelétrica já teve, pelo menos, outros dois orçamentos. O valor inicial calculado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) era R$ 16 bilhões e antes do leilão mudou para R$ 19 bilhões. “É maldade o que falam sobre o aumento de custos. Já arrematamos o projeto da usina orçado em R$ 25 bilhões”, diz o presidente da Norte Energia.
De qualquer forma, para evitar prejuízos maiores, Belo Monte corre contra o tempo para acelerar as obras atrasadas. Hoje são 25 mil trabalhadores – acima das 23 mil pessoas previstas inicialmente para o pico da obra – se revezando em três turnos diários nos três sítios da usina. Com o fim do inverno e, consequentemente, das chuvas, a construção ganha um ritmo mais acelerado, com o vaivém frenético de 3 mil máquinas, tratores e caminhões.
Durante o inverno, a empresa dispensou vários trabalhadores já que o volume de serviço era baixo. Um executivo da Norte Energia afirmou que a rotatividade dos trabalhadores da obra é grande, em torno de 30%, mas que o cadastro de pessoas interessadas em trabalhar na construção da usina é extenso. O comerciante de Altamira Waldir Narzetti sabe bem o que isso significa. “Tive de aumentar a minha folha de pagamento para conseguir segurar os funcionários. Ainda assim, não tem sido suficiente. Todo mundo quer trabalhar na usina.”
Embora tenha começado a fase de montagem dos equipamentos, ainda há muita obra de terraplenagem para ser feita nos próximos meses, ou anos. Além da conclusão do canal e diques, a preparação dos reservatórios ainda exigirá muito trabalho pela frente. Por enquanto, é um amontoado de terras e rochas que precisam ser detonadas e retiradas do caminho. No total, a hidrelétrica vai alagar uma área de 503 km², sendo que uma parte já é alagada naturalmente durante a cheia do Rio Xingu.
Segundo dados da Advocacia Geral da União (AGU), hoje há 27 ações contra Belo Monte. Nenhuma, porém, tem decisão em vigor determinando a paralisação das obras ou do licenciamento. São aguardados os próximos capítulos dessa que hoje é considerada a maior obra de infraestrutura do País em andamento.